Em setembro, embarquei para o Marrocos para participar da terceira edição do Desert Woman Summit, uma experiência que reuniu mais de 30 brasileiras no deserto do Saara. Entre empresárias, executivas, comunicadoras e profissionais de diferentes áreas, passei dias de conversas, descobertas e encontros que foram muito além da programação.
Confesso que ainda acho difícil descrever exatamente o que é o Desert Woman Summit. A agenda reúne palestras, negócios, gastronomia, cultura, wellness, turismo e iniciativas de impacto social. Tudo isso em meio às paisagens do Saara, com mulheres de diferentes gerações, profissões e momentos de vida. É uma mistura pouco convencional, que ganha sentido à medida que os dias passam e as relações se aprofundam.
Foi durante uma dessas conversas que surgiu uma frase que acabou resumindo bem a experiência: no deserto, o CNPJ cai e entra o CPF.
E, com ele, aparecem histórias que nem sempre cabem nos ambientes profissionais. Mulheres acostumadas a liderar equipes, tomar decisões e administrar empresas passaram a compartilhar também suas dúvidas, inseguranças, mudanças de rota e questões pessoais. Sem cargos ou cartões de visita como ponto de partida, as conversas ganharam outra dimensão.
A trajetória de Janaína Araújo até o deserto
Por trás dessa experiência está a paraibana Janaína Araújo, empreendedora que construiu sua carreira no turismo e mantém uma relação de mais de dez anos com o Marrocos.
Sua trajetória começou bem longe das dunas do Saara. Ainda jovem, teve um programa de rádio. Depois, já em São Paulo, entrou no call center da TAM, passou pela recepção do aeroporto e chegou à área comercial. Foram dez anos na companhia aérea, período que considera fundamental para sua formação profissional.
Na sequência, assumiu a gestão de viagens, projetos e contratos das empresas do Grupo Camargo Corrêa, onde permaneceu por oito anos. Até decidir abrir o próprio negócio.
“Quando você sai de duas estruturas grandes, empresas muito bem estruturadas, e vai empreender, é um choque. Você tem que se reinventar”, me contou.
A primeira grande virada veio depois de uma viagem a Curaçao. Encantada pela ilha, Janaína enxergou ali uma oportunidade de negócio. Dois anos depois, assumiu a representação de turismo do destino para o mercado brasileiro, trabalho que desenvolve há mais de uma década, com foco em estratégia, posicionamento e desenvolvimento de mercado.
O Marrocos entrou em sua vida profissional algum tempo depois, quando foi apresentada ao Grupo Xaluca, empresa familiar de hospitalidade com forte presença no sul do país. O grupo, que opera hotéis e experiências na região do deserto, procurava uma profissional para desenvolver estrategicamente o mercado brasileiro e viu em Janaína o perfil ideal para esse trabalho.
Antes de formalizar a parceria, os representantes do Xaluca fizeram questão de que ela conhecesse pessoalmente o país, sua cultura, sua estrutura turística e as experiências oferecidas pelo grupo. Janaína aceitou o convite e viajou ao Marrocos para conhecer de perto o destino que passaria a representar.
Três meses depois, retornou acompanhada de jornalistas brasileiros. Começava ali um trabalho de posicionamento do Marrocos no Brasil, construído em parceria com o Grupo Xaluca, que acabaria abrindo caminho para o Desert Woman Summit.
O projeto já havia realizado edições voltadas ao público europeu quando, em 2023, Janaína decidiu desenvolver uma versão para as brasileiras. Reformulou o formato, até então mais concentrado no bem-estar, e ampliou a programação para incluir empreendedorismo, negócios, conteúdo, cultura e autoconhecimento.
O resultado é um encontro que chegou à terceira edição brasileira em setembro de 2026, reunindo mulheres de diferentes gerações, profissões e momentos de vida.
Por dentro do Desert Woman Summit
Durante os dias que passei no Saara, acompanhei de perto essa dinâmica. Havia momentos de conteúdo e troca profissional, mas também experiências culturais, rituais, encontros com comunidades locais e conversas que se estendiam muito depois do fim das atividades.
O deserto muda completamente a nossa percepção de tempo. Longe da rotina, das reuniões e das notificações que organizam nossos dias, sobra espaço para prestar atenção em coisas que normalmente passam despercebidas.
Foi interessante observar como as relações foram se transformando ao longo da viagem. Mulheres que chegaram sem se conhecer passaram a dividir experiências pessoais, falar sobre carreira, família, escolhas e recomeços. Em alguns momentos, as conversas foram leves e divertidas. Em outros, bastante emocionantes.
Essa proximidade faz parte da proposta de Janaína, que acredita na importância de tirar mulheres em posições de liderança de seus ambientes habituais para estimular outras formas de conexão.
Outro aspecto importante do projeto é o trabalho com comunidades femininas locais. O Desert Woman Summit se aproximou de cooperativas de mulheres berberes, pertencentes aos povos originários do Norte da África, que preservam tradições artesanais e encontram nessas atividades uma fonte de renda e autonomia.
Muitas vivem em condições de vulnerabilidade na região do deserto. A aproximação com o grupo brasileiro busca dar visibilidade ao trabalho dessas mulheres e contribuir para o fortalecimento econômico das comunidades.
Janaína também prepara uma nova etapa dessa iniciativa: a comercialização, no Brasil, de peças produzidas pelas artesãs berberes, por meio de uma plataforma online ligada ao Desert Woman Summit. A ideia é criar um canal de vendas para esses produtos, ampliando o acesso das cooperativas ao mercado brasileiro e gerando novas oportunidades de renda para as mulheres da região.
Nesta terceira edição, Luiza Brunet assumiu o papel de embaixadora de uma das frentes de apoio às mulheres locais, ampliando o alcance da iniciativa.
O contato com essas comunidades foi um dos momentos mais marcantes da viagem. Conhecer outras realidades, ouvir histórias e observar o trabalho desenvolvido por essas mulheres trouxe uma perspectiva diferente para tudo o que estávamos vivendo ali.
Janaína conseguiu reunir, em um mesmo projeto, sua experiência no turismo, sua capacidade de conectar pessoas e um olhar atento para o empreendedorismo feminino. E encontrou no Marrocos, país com o qual construiu uma relação profissional e afetiva ao longo de uma década, o cenário para colocar tudo isso em prática.
Voltei do Marrocos com novas amizades, muitas histórias e a certeza de que algumas das melhores conversas daquela viagem aconteceram longe dos microfones, das palestras e dos cartões de visita.
*Jornalista com passagem pelo O Estado de S. Paulo, Sofia Patsch cobre há uma década lifestyle, social e comportamento. Já foi intitulada “curadora de pessoas”.
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