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Cientistas Avaliam Spray Nasal Como Alternativa para Frear o Envelhecimento Cerebral

Com duas doses, pesquisadores comprovaram efeitos significativos em camundongos

4 min

Por muitos anos, a deterioração cerebral foi vista como um efeito inevitável do envelhecimento. Esse processo não acontece de maneira repentina, mas progride aos poucos, ligado a mecanismos inflamatórios que comprometem áreas essenciais, como o hipocampo, prejudicando memória, aprendizagem e adaptação.

Em estágios mais severos, esse fenômeno também está relacionado a enfermidades como o Alzheimer. Os pesquisadores definem esse quadro como neuroinflamação e, até recentemente, ele era considerado sem possibilidade de reversão.

Agora, no entanto, especialistas da Universidade Texas A&M apresentam uma possível alternativa terapêutica. O envelhecimento cerebral pode ser parcialmente revertido, pelo menos em modelos experimentais. E o método é simples, sem necessidade de procedimentos invasivos ou tratamentos extensos: um spray nasal.

O grupo, coordenado pelo pesquisador Ashok Shetty, ao lado de Madhu Leelavathi Narayana e Maheedhar Kodali, criou um aerossol com base em vesículas extracelulares, partículas biológicas microscópicas originadas de células-tronco, que funcionam como transportadoras de comunicação entre células do corpo.

Essas vesículas carregam microRNAs, moléculas capazes de regular mecanismos genéticos e de sinalização cerebral que, segundo Narayana, “atuam como reguladores principais” de diversas vias celulares. As conclusões foram divulgadas na revista Journal of Extracellular Vesicles.

Atuação sobre inflamações

Administradas por via nasal, as vesículas extracelulares conseguem atravessar parcialmente a barreira hematoencefálica, responsável por proteger o cérebro, e alcançar áreas cerebrais, onde são absorvidas por células imunológicas locais.

Nessas regiões, os microRNAs passam a modular ou bloquear sistemas que sustentam a inflamação crônica associada ao envelhecimento cerebral.

Com duas aplicações, o tratamento foi relacionado a uma redução expressiva da inflamação cerebral, melhora na função das mitocôndrias, encarregadas de gerar energia celular, e fortalecimento do desempenho da memória.

Além disso, as alterações ocorreram em um intervalo relativamente curto e persistiram por um longo período após o tratamento. “Estamos devolvendo aos neurônios a sua centelha”, declarou Narayana.

Ensaios humanos ainda são necessários

Os experimentos comportamentais envolveram camundongos de laboratório com 18 meses, equivalentes, aproximadamente, a humanos de 60 anos, conforme o estudo, nos quais os resultados foram confirmados. Ainda assim, será necessário validar essas descobertas em seres humanos.

Os animais submetidos ao tratamento apresentaram progresso evidente: maior habilidade de orientação, reconhecimento de estímulos conhecidos e respostas mais rápidas diante de novas situações em comparação com o grupo de controle.

Os efeitos também ocorreram tanto em machos quanto em fêmeas, algo incomum em pesquisas biomédicas.

Demência como desafio mundial

De acordo com a Alzheimer’s Disease International, cerca de 69,2 milhões de pessoas vivem atualmente com demência no mundo. Esse total pode alcançar 82 milhões em 2030 e 152 milhões em 2050.

Na América Latina, os registros podem passar de 6,41 milhões em 2020 para 20,55 milhões em 2050. Na Europa, o avanço projetado é de 12,71 milhões para 21,64 milhões no mesmo intervalo.

Segundo a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer, o Brasil possui hoje mais de 2 milhões de pessoas convivendo com demências, e a expectativa é de que esse número alcance 5,5 milhões até 2050. O diagnóstico, porém, continua sendo um obstáculo, com estimativa de que oito em cada 10 casos permaneçam sem identificação formal.

“Nosso objetivo é um envelhecimento cerebral satisfatório: manter as pessoas ativas, alertas e conectadas. Não apenas viver mais tempo, mas viver de forma mais inteligente e saudável”, sintetizou Shetty.

A equipe já solicitou patente nos Estados Unidos e se prepara para avançar para testes clínicos em humanos.

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