Como as fintechs estão ajudando a promover a desconcentração bancária no Brasil

Para especialistas, faz muito mais sentido para o consumidor contratar serviços financeiros de empresas com as quais já se relacionam no dia a dia .

Matheus Riga
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As startups do setor financeiro fazem parte do segmento que levantou o maior volume de investimentos em 2021: US$ 2,6 bilhões até julho deste ano

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O setor financeiro tem sido um dos principais alvos do ecossistema de inovação, que tem levado tecnologia e automação para serviços como concessão de crédito, financiamento imobiliário e renegociação de dívidas. As fintechs – startups de base tecnológica que oferecem essas soluções – estão ganhando espaço cada vez maior no mercado como alternativa aos bancos tradicionais.

O tamanho do setor no Brasil, e seu consequente potencial, tem levado empreendedores a criarem negócios com uma velocidade impressionante. Prova disso é que, atualmente, o segmento é o segundo com o maior número de startups: são 774, 5,96% das 13 mil presentes em operação no país, segundo a Abstartups (Associação Brasileira de Startups).

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As fintechs não são representativas apenas em quantidade. Elas também têm sido as mais atraentes para os fundos de venture capital nacionais e estrangeiros. De acordo com a companhia de inovação aberta Distrito, o setor financeiro foi o que registrou o maior volume de investimento neste ano. Em 93 rodadas de captação, as fintechs levantaram US$ 2,6 bilhões até julho, mais do que o triplo registrado pelo segundo lugar, ocupado pelas proptechs – startups do mercado imobiliário -, que receberam US$ 851,4 milhões em 14 aportes.

MERCADO AQUECIDO

O holofote sobre as fintechs, segundo o diretor-executivo da ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs), Renan Schaefer, pode ser explicado pela facilidade que essas empresas oferecem aos consumidores, que muitas vezes tinham de enfrentar processos muito engessados nos bancos tradicionais. “Com agilidade, automação e tecnologia, essas startups possibilitaram que serviços fossem feitos de maneira mais personalizada e menos burocrática”, afirma. “Isso gera uma maior inclusão financeira, fazendo com que mais pessoas ingressem no sistema.”

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Na mesma linha de raciocínio, o diretor de inteligência da Liga Ventures, Raphael Augusto, diz que o aquecimento do setor está relacionado à configuração do sistema financeiro brasileiro. “É um mercado tradicionalmente concentrado e com serviços que ficaram estacionados ao longo do tempo, sem atender diretamente às demandas da maioria dos clientes”, afirma. “As fintechs chegaram justamente para quebrar esses monopólios, melhorando o mercados e atendendo os clientes em outro nível. Por isso estão chamando a atenção de investidores e crescendo rapidamente.”

O sócio da fintech Martello Educação Financeira, Danilo Mendes, acredita que as novas regulamentações promovidas pelo Banco Central (BC) e o constante desenvolvimento da tecnologia propiciou um aumento no número de fintechs nos últimos anos. “É um mercado muito aquecido e cheio de oportunidades”, diz. “No nosso caso, enxergamos muito potencial para o mercado de educação e planejamento financeiro.”

CONCENTRAÇÃO BANCÁRIA

A concentração bancária no Brasil, inclusive, foi um dos motivos que  levou o BC a criar a #AgendaBC, um conjunto de iniciativas de inovação, desburocratização e democratização do sistema financeiro. O lançamento do sistema de pagamentos e transferências Pix e o open banking, por exemplo, surgiram a partir dessa iniciativa. “No sentido de promover inovação e competitividade no setor, a agenda do [Roberto] Campos Neto [atual presidente do BC] está indo numa direção perfeita”, avalia Schaefer.

Com um ambiente mais propício para a criação de plataformas financeiras e fintechs, a concentração bancária tem se reduzido gradualmente, embora ainda esteja em níveis altos. De acordo com o “Relatório de Economia Bancária”, realizado pelo BC em 2020, os cinco maiores bancos do país (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica, Itaú Unibanco e Santander) foram responsáveis por 81,8% das operações de crédito realizadas no país em 2020, assim como por 79,1% dos depósitos. Em 2018, esses números eram 84,8% e 83,8%, respectivamente.

Wagner de Moraes, sócio-fundador da A&S Partners, empresa focada na construção de fintechs para corporações, diz que essa concentração diminui a qualidade dos serviços financeiros, o que abre espaço para o surgimento de mais startups do setor. “Ela é extremamente nociva para o país”, afirma. “Com essa hegemonia, as tarifas são elevadas e a qualidade dos serviços é muito ruim.” Segundo suas estimativas, o número de companhias de tecnologia no segmento deve triplicar nos próximos três anos.

“FINTECHZAÇÃO”

A iniciativa privada é um dos agentes do mercado que deve impulsionar o crescimento do número de fintechs no Brasil. Com a crescente inovação no setor, corporações estão comprando ou desenvolvendo internamente suas próprias startups de serviços financeiros. A varejista Magazine Luiza, por exemplo, optou pela primeira estratégia e adquiriu a Hub Fintech por R$ 290 milhões em dezembro de 2020. A colombiana Rappi, por outro lado, escolheu a segunda opção e criou o seu braço de serviços bancários Rappi Bank, integrado ao seu aplicativo.

Esse fenômeno, de criação de fintechs dentro de casa, é chamado de “fintechzação” e deve se intensificar nos próximos anos. “As empresas perceberam que não precisam mais realizar parcerias com bancos para oferecer serviços financeiros. Elas podem criar os seus próprios bancos por meio de tecnologia e sistemas”, afirma Moraes, que já liderou pelo menos sete projetos de estruturação de bancos digitais. Entre os clientes da empresa estão, por exemplo, a varejista de moda Marisa e a companhia de cosméticos Natura.

O valor de ter esse tipo de serviço financeiro, conta o especialista, é poder aproveitar uma base de clientes já familiarizada com o ecossistema de produtos da empresa, elevando o relacionamento com esses consumidores. Augusto, da Liga Ventures, também vê benefícios nessa estratégia. “Da perspectiva do cliente, faz muito mais sentido ter um relacionamento financeiro com uma companhia que está presente no seu dia a dia”, afirma. “As startups vão ajudar nesse movimento de transformação, até porque as corporações não têm como objetivo final serem bancos, mas apenas prestarem esse serviço.”

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