O presidente americano Donald Trump iniciou uma frente de embate político contra as universidades de elite dos Estados Unidos. Em abril, sua equipe anunciou a revogação da autorização do governo federal que permite à Universidade de Harvard matricular estudantes internacionais: uma medida extrema, justificada por acusações vagas de “ameaça à segurança nacional” e tolerância ao antissemitismo no campus.
Trump quer redirecionar US$ 3 bilhões em recursos públicos hoje destinados à pesquisa acadêmica para escolas técnicas, numa tentativa de redefinir, por decreto, o papel da educação superior americana. A resposta foi imediata e as universidades acionaram a Justiça, conseguindo uma liminar que suspendeu os efeitos da decisão. Mas o dano político já está feito.
Ao mirar Harvard e, por extensão, outras universidades que promovem diversidade, pesquisa crítica e liberdade acadêmica, Trump transforma a educação em arma eleitoral. A consequência é o ataque a estudantes internacionais, pesquisadores e professores que formam a base da excelência científica dos EUA.
Por que isso importa?
As universidades de ponta dos Estados Unidos como Harvard, Stanford e MIT, são mais do que centros de ensino superior: são motores estratégicos da economia e da inovação global. Seu prestígio está diretamente ligado à sua capacidade de atrair os melhores talentos do mundo, especialmente por meio de suas comunidades internacionais de estudantes e pesquisadores.
Estudantes estrangeiros ocupam além das cadeiras nas salas de aula. Eles publicam em revistas científicas, desenvolvem patentes, fundam startups, alimentam ecossistemas de tecnologia e renovam o capital intelectual do país. Interromper esse fluxo é minar silenciosamente a vantagem competitiva que fez dos EUA a principal potência em ciência, educação e empreendedorismo nas últimas décadas.
A perspectiva pessoal: eu estive lá
Há mais de uma década, fui estudante internacional em Stanford, no mestrado de tecnologia aplicada à educação. Cheguei com um visto, uma bolsa e uma imensa vontade de aprender, contribuir e transformar. Como milhares de outros estudantes estrangeiros, fui acolhida por um sistema que, à época, reconhecia o valor da diversidade intelectual.
Hoje, vejo com tristeza e indignação a forma como esses jovens estão sendo tratados. Ter a vida suspensa por decisões políticas arbitrárias é injusto e desumano. E revela uma miopia perigosa para um país que se orgulha de sua vocação global.
O risco estratégico
A retórica anti-universidade e anti-imigração de Trump pode render aplausos em setores mais conservadores, mas representa um erro estratégico grave. Ao minar a reputação dos EUA como destino para talentos internacionais, o país corre o risco de perder sua principal vantagem competitiva: o capital humano.
Países como Canadá, Alemanha e Austrália já intensificam esforços para atrair esses mesmos estudantes, oferecendo vistos mais acessíveis, políticas de permanência e um ambiente mais estável. A fuga de cérebros, que sempre foi em direção aos EUA, pode rapidamente mudar de rota.
A resposta das universidades
As ações de Harvard e Stanford foram rápidas e firmes. Ambas recorreram à Justiça, denunciaram a arbitrariedade das medidas e reafirmaram seu compromisso com a diversidade e a liberdade acadêmica, pilares do seu prestígio global. Mais do que autodefesa institucional, trata-se da preservação de um sistema que conecta pesquisa, inovação e conhecimento.
O setor privado e os grandes financiadores de pesquisa — de empresas de tecnologia a fundações filantrópicas — têm um papel crucial nesse contexto. Não se trata apenas de proteger a reputação das universidades, mas de garantir a continuidade de um ecossistema que impacta diretamente a economia, a competitividade global e o futuro da liderança em ciência e negócios. Silenciar-se diante desse tipo de ataque é abrir espaço para um modelo de país que desvaloriza a inteligência como ativo estratégico.
O que está em jogo
Como mulher, fundadora, mãe e ex-estudante internacional, afirmo com convicção: o maior trunfo dos Estados Unidos nunca foi apenas seu poder econômico ou militar, mas sua capacidade de atrair os melhores talentos do mundo e de lhes dar espaço para crescer.
Se os EUA optarem por fechar suas portas, não será o mundo que sairá perdendo. Será a América que se tornará menor, menos diversa, menos criativa, e menos relevante.
*Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Iona integrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva, Iona atuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício. Iona é também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.
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