No início de julho, a Hyundai exibiu com orgulho seu robô Atlas, da Boston Dynamics, chutando uma bola de futebol na Copa do Mundo da FIFA. Agora, seus trabalhadores estão em uma greve com o objetivo de garantir que nenhum emprego humano seja perdido para robôs humanoides. Essa é provavelmente a primeira greve da história motivada por robôs humanoides, embora haja outras questões em jogo nas atuais negociações sindicais.
Até agora, a maior parte dos debates sobre robôs humanoides tomando o lugar de humanos era uma discussão sobre o futuro. Uma projeção de algo que talvez acontecesse um dia, com alguém, em algum momento lá na frente.
Nesta semana, cerca de 35 mil trabalhadores da Hyundai transformaram essa abstração em uma realidade bastante concreta.
A greve afeta as fábricas de montagem da Hyundai Motor na Coreia do Sul, responsáveis por aproximadamente metade da produção global da empresa.
Vários pontos estão na mesa, incluindo salários e participação nos lucros, mas essa disputa também traz algo novo: é a primeira greve em uma fábrica de automóveis explicitamente provocada por um plano de colocar robôs humanoides na linha de produção. Até onde eu sei, é a primeira greve em qualquer lugar e em qualquer setor voltada a impedir que humanoides entrem no mercado de trabalho.
O que os trabalhadores querem
A principal reivindicação do sindicato é bastante clara e direta: nenhum robô entra em um local de trabalho da Hyundai sem um acordo prévio entre trabalhadores e empresa.
Em janeiro, a Boston Dynamics anunciou o novo Atlas e afirmou que toda a produção do primeiro ano — “dezenas de milhares” de robôs — iria integralmente para a Hyundai. Depois, em maio, a Hyundai anunciou que implantaria mais de 25 mil robôs em fábricas da Hyundai e da Kia, começando pelos Estados Unidos.
Nenhuma data de implantação foi definida para as fábricas coreanas da Hyundai, de modo que o sindicato está negociando de forma preventiva, tentando assegurar proteções antes que os robôs humanoides apareçam, e não depois. Afinal, uma vez que os robôs estejam na linha de produção, dificilmente eles entrarão em greve.
A conta ficou bem mais favorável às máquinas
Acompanhe a economia do negócio e você entenderá o desafio enfrentado pelos trabalhadores.
O Atlas custava mais de US$ 200 mil. Agora, no início da produção, as unidades custam entre US$ 130 mil e US$ 140 mil, segundo estimativas. Mas a Hyundai projeta que esse valor caia para cerca de US$ 30 mil quando a produção acumulada ultrapassar 50 mil unidades, em grande parte graças a uma simplificação de quase uma ordem de grandeza na construção e nos materiais do Atlas, revelada com exclusividade pela Forbes. E a empresa planeja fabricar 30 mil robôs por ano até 2028, tendo destinado US$ 26 bilhões às operações nos Estados Unidos, incluindo uma fábrica de robótica e uma unidade de atuadores da Hyundai Mobis dimensionada para 350 mil unidades por ano.
O Atlas não consegue fazer tudo o que um humano faz, mas é um dos robôs humanoides mais capazes do planeta: forte, móvel e conectado ao software de gestão da produção da fábrica.
A Hyundai, que recentemente comprou a última fatia da Boston Dynamics que ainda não possuía, está, portanto, a caminho de se tornar potencialmente ao mesmo tempo a maior fabricante e a maior cliente de robôs humanoides do mundo. (Sim, a Tesla também seria uma concorrente aqui, mas seu robô Optimus está — ao menos por enquanto — longe de ser tão capaz quanto o Atlas.)
Um robô altamente capaz de US$ 30 mil, que trabalha em três turnos e nunca abre uma reclamação trabalhista, nunca pede aumento e nunca precisa se aposentar, é bastante atraente do ponto de vista da gestão.
Isso vai abrir um precedente importante
Essa greve vai custar à Hyundai alguma perda de produção e de receita. Mas o mais importante aqui é o precedente que ela abre.
Tesla, BMW, Mercedes-Benz, Toyota, BYD e Chery estão todas despejando dinheiro em automação com humanoides e inteligência artificial. A GM já avalia seus fornecedores pelo nível de automação e recentemente acrescentou 50 “cobôs” (robôs colaborativos) a uma fábrica onde havia acabado de cortar mais de mil empregos.
Todas essas empresas têm um sindicato, uma força de trabalho ou um ministério do trabalho provavelmente de olho no que está acontecendo na Coreia do Sul.
Seja qual for o desfecho, a era em que se discutia de forma abstrata se robôs humanoides tirariam empregos dos humanos acabou. A grande pergunta agora é: em que isso tudo vai dar?
Procurei a assessoria de imprensa da Hyundai para um comentário e atualizarei esta matéria conforme houver resposta.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com