A Commandaria é, provavelmente, a denominação de origem, classificação legal que indica a procedência e as características específicas de um vinho, a mais antiga ainda em uso. Seu nome faz referência a uma região conquistada durante uma das cruzadas, expedições militares cristãs ocorridas entre os séculos 11 e 13, há 700 ou 800 anos.
Mais recentemente, no século 20, a região viveu uma existência tranquila e pacífica, com produtores pouco vistos fora do Chipre, país do Oriente Médio. Mas, nas últimas décadas, a região tem vivido um novo dinamismo. Pequenos produtores familiares, com novas ideias, começaram a elaborar a nova onda da commandaria.
Algumas oliveiras no Chipre possuem mais de 2 mil anos de idade. Isso significa que, mesmo sendo a commandaria o tipo de vinho nomeado mais antigo do mundo, algumas dessas árvores já cresciam há mais de mil anos antes que a commandaria se tornasse famosa. Mesmo sendo um tipo de vinho antigo, até recentemente, havia apenas um pequeno número de grandes produtores produzindo-o. Ter uma longa história não garante fama.
Vinho Commandaria
O commandaria é um vinho doce feito no Chipre, com duas principais variedades de uvas autóctones utilizadas: a tinta mavro e a branca xynisteri. Após a colheita, as uvas são deixadas ao sol para secar. Em seguida, o vinho é fermentado até atingir um nível de doçura desejado e, geralmente, é fortificado. Pode-se compará-lo a um vinho do Porto doce, a um da Ilha da Madeira, ou ainda a um vin santo, da Itália, ou vin de paille, da França, mas essas comparações são limitadas. O commandaria tem um estilo próprio.
Uma das pioneiras da chamada “commandaria de viticultor” é a vinícola Karseras, localizada em Doros, uma vila no sul do Chipre, que foi oficialmente fundada como produtora de commandaria em 1998. No entanto, a família já cultivava uvas muito antes disso.
A vinícola foi fundada por Panayiotis Karseras e sua esposa Lenia. Um dos quatro filhos do casal, também chamado Panayiotis Karseras, junto com o neto Filippos Karseras, atualmente administra a produção.

Apesar de ser uma vinícola jovem, sua história é longa. “Minha família faz vinho, literalmente, desde sempre. A Universidade nos informou que os primeiros Karseras em nossa região foram mencionados no século 11”, explicou Karseras.
A produção familiar a partir dos vinhedos que possuem ocorre há muito. No entanto, não era comercial. Esse mercado foi dominado durante a maior parte do século 20, por quatro grandes empresas, até o que se pode chamar de renascimento da indústria vinícola cipriota, justamente na época em que os Karseras iniciaram sua vinícola.
A vinícola Karseras é uma das catorze vilas nas encostas meridionais da cadeia de montanhas Troodos que produzem commandaria, e é inteiramente dedicada à produção desse vinho. Eles não produzem vinho de mesa em escala comercial.
A propriedade tem cerca de 15 hectares de vinhas, distribuídas por seis das 14 vilas produtoras de commandaria. A principal variedade cultivada é a mavro (tinta), com um pequeno percentual de xynisteri (branca).
Hoje, existem dois tipos distintos de commandaria: fortificada e não fortificada. Ambas são produzidas a partir de uvas muito doces e secas ao sol. Tradicionalmente, a versão fortificada era a única utilizada comercialmente, mas agora também é permitida a produção da versão não fortificada, que parece ser a preferida entre os pequenos produtores.
Karseras é um defensor convicto da abordagem não fortificada. “Quando há adição de destilado, mata tudo”, diz ele. Na sua vinícola, eles utilizam tanques de aço inoxidável para a vinificação, depois deixam o vinho envelhecer em barris e, por fim, em garrafa.

A “Family Edition” de sua commandaria passa dois anos em barril e é levemente filtrada antes do engarrafamento. Para essa versão, são utilizadas entre 90% e 95% de uvas mavro, com o restante de xynisteri.
O vinho é vendido em uma garrafa curiosa, baixa e arredondada, com um rótulo original que traz a imagem de um homem idoso, com cabelos ralos e barba longa. Mas esse é justamente o motivo do nome da versão. O homem no rótulo é um retrato do fundador da vinícola, que também foi padre da vila por 60 anos: o Padre Panayiotis Karseras. O vinho é relativamente leve, doce — claro —, mas de forma moderada, e muito elegante, com uma acidez refrescante bastante marcante.
Para o vinho de maior prestígio, chamado “Platinum”, eles não fazem nenhuma filtragem. Em vez disso, ele é envelhecido por vinte anos. A safra atual é de 2005. É intensamente doce, com 155 gramas de açúcar por litro.
Ainda assim, apresenta corpo relativamente leve, com um estilo muito elegante, repleto de sabores intensos de geleia doce de damasco, damascos frescos, mel e especiarias. Como não é filtrado, o vinho pode apresentar um leve depósito.
No pátio externo da vinícola, há uma fileira de oliveiras com aparência antiga. Talvez não tenham milhares de anos, mas certamente já estavam lá — e já eram velhas — quando o Padre Panayiotis, fundador da vinícola, nasceu. Uma história que merece ser preservada com cuidado.
* Per and Britt Karlsson são colaboradores da Forbes EUA, onde escrevem sobre negócios e viagens envolvendo vinhos.