Wally Funk, aviadora pioneira que entrou para a história ao viajar ao espaço aos 82 anos, seis décadas depois de ser impedida de se tornar astronauta da NASA por ser mulher, morreu no Texas, nos Estados Unidos, aos 87 anos.
A morte foi anunciada em um comunicado publicado na quinta-feira (9) nas redes sociais pela cidade de Grapevine, subúrbio de Dallas, onde Funk morava. Segundo a nota, ela morreu em casa na noite anterior. A causa da morte não foi divulgada.
Barrada do primeiro corpo de astronautas da NASA por ser mulher, Funk voltou a ganhar destaque em julho de 2021, quando embarcou no voo inaugural da nave New Shepard, da Blue Origin, como convidada de honra do bilionário Jeff Bezos, fundador da Amazon, ao lado de outros dois passageiros.
“Nunca pensei que conseguiria ir”, disse ela em uma entrevista em vídeo publicada no site da Blue Origin quando a primeira tripulação de Bezos foi anunciada, semanas antes do lançamento.
A mulher mais velha a viajar ao espaço
A viagem suborbital de dez minutos tornou Funk, então com 82 anos, a pessoa mais velha a alcançar o espaço, superando o recorde do astronauta aposentado do programa Mercury John Glenn, que tinha 77 anos quando voltou ao espaço em 1998, já como senador dos Estados Unidos, a bordo de um ônibus espacial da NASA.
Os outros dois passageiros do primeiro voo de turismo espacial de Bezos foram seu irmão, Mark Bezos, e um estudante holandês de 18 anos recém-formado no ensino médio, que se tornou a pessoa mais jovem a chegar ao espaço.

Ao deixar a cápsula da New Shepard, pouco depois do pouso seguro no deserto do Texas, Funk disse aos jornalistas: “Esperei por isso durante muito tempo” e acrescentou: “Quero ir de novo. Logo.”
Com um sorriso largo, o macacão de voo azul-royal e os cabelos brancos bem curtos, Funk conquistou imediatamente uma nova geração de admiradores nas redes sociais e fora delas. A então porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, chegou a chamá-la de “a nova queridinha da América”.
Seu recorde como a pessoa mais velha a viajar ao espaço durou pouco menos de três meses. Em outubro de 2021, o ator William Shatner, intérprete do Capitão Kirk na série de ficção científica “Star Trek“, embarcou no segundo voo da New Shepard e assumiu a marca aos 90 anos.
O veterano da Força Aérea dos EUA, Ed Dwight, voltou a superar o recorde, também aos 90 anos, em uma missão da Blue Origin realizada em 2024. Ainda assim, Funk permanece nos registros como a mulher mais velha a viajar ao espaço.
Muito antes de realizar seu maior sonho, Funk já havia treinado mais de 3 mil pilotos, acumulado mais de 19 mil horas de voo e construído uma trajetória marcada pela quebra de barreiras para as mulheres na aviação.
A história de Wally Funk
Nascida em 1939, Mary Wallace Funk foi a primeira instrutora de voo mulher em uma base militar dos Estados Unidos, a primeira inspetora da FAA (Administração Federal de Aviação) e a primeira investigadora de segurança aérea do NTSB (Conselho Nacional de Segurança nos Transportes).
Em 1961, Funk tornou-se a mais jovem entre as 13 mulheres aprovadas na mesma rigorosa bateria de testes físicos e psicológicos aplicada aos sete homens selecionados para o programa Mercury, da NASA, responsável por levar os primeiros americanos ao espaço entre 1961 e 1963.

Classificada entre as melhores participantes do programa, ela superou muitos dos candidatos homens em diversos testes. Ainda assim, o grupo feminino — que ficou conhecido como Mercury 13 — acabou excluído do corpo de astronautas da NASA simplesmente por ser formado por mulheres.
Segundo o Washington Post, John Glenn, um dos sete astronautas originais do programa Mercury e o primeiro americano a orbitar a Terra, chegou a depor no Congresso contra a inclusão de mulheres no programa espacial.
Enquanto isso, a União Soviética, principal rival dos Estados Unidos na corrida espacial durante a Guerra Fria, abriu espaço para mulheres desde os primeiros anos de seu programa. Valentina Tereshkova tornou-se a primeira mulher a viajar ao espaço em 1963. Já a primeira astronauta americana a alcançar a órbita, Sally Ride, só faria seu voo vinte anos depois, em 1983.
Última integrante sobrevivente do Mercury 13, Funk tornou-se a única do grupo a realizar o sonho de viajar ao espaço.