Celebrado no dia 13 de setembro, o Dia da Cachaça chega em 2025 em um momento de plena ascensão para o destilado nacional. Se por muito tempo a bebida enfrentou preconceito, sendo vista com “nariz torto” pelos próprios brasileiros, o cenário atual é de redescoberta e valorização.
A cachaça, que hoje gera cerca de 600 mil empregos e movimenta R$ 15,5 bilhões anualmente no país segundo o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), vive uma fase de maior profissionalização. Os produtores estão mais estratégicos, os consumidores mais curiosos e o mercado em franca expansão.
Essa transformação, que viu o número de estabelecimentos registrados crescer mais de 35% desde 2021, é fruto de um trabalho conjunto. “É toda uma movimentação coletiva que está gerando resultados para todos”, analisa a sommelière Isadora Fornari, uma das maiores especialistas em cachaça do Brasil.
Com mais de 15 anos de experiência, incontáveis consultorias e cerca de 300 profissionais formados no currículo, ela viu de perto a mudança. “Quando comecei, era muito difícil, era quase implorar para as pessoas provarem. Hoje, até os mais fechados se abrem para um drink com cachaça”.

O movimento passa por diversos pilares. Primeiro, produtores artesanais (que representam 70% da produção nacional) mais atentos à logística e ao marketing. Restaurantes e bares também estão cada vez mais investindo em cartas robustas e até em rótulos próprios de cachaça, como o que Isadora desenvolveu para o Copacabana Palace e o grupo Origem, de Salvador. Além disso, uma nova geração de consumidores está mais aberta e sem os preconceitos do passado. “A cachaça sempre foi meu veículo de ensinar as pessoas a gostarem do Brasil. A nossa riqueza e diversidade estão no produto”, finaliza.
A seguir, a especialista dá dicas de rótulos e ensina os segredos para apreciar o melhor do destilado.
5 cachaças para conhecer o Brasil
A convite da Forbes, Isadora Fornari selecionou cinco rótulos com perfis distintos que oferecem um excelente panorama da diversidade da cachaça brasileira.
1. Para beber todo dia: Da Tulha Jequitibá
Com aroma de flores brancas, amêndoas e um leve cítrico, esta cachaça é “super acessível e feita com esmero, em um dos poucos alambiques com mais de 90 barris com mais de 10 anos de envelhecimento”, descreve a especialista.
2. Inovação: Alba (variedades de cana)
Pouco se fala sobre os tipos de cana-de-açúcar, e é exatamente isso que a Alba explora – especialmente com variações nativas, como a cana caiana, roxa, amarela e java. “A destilaria trouxe o teste à fogo e a gole desde o início do cultivo em microlotes e fermentação longa fechada e destilação sem pressa em banho maria”, explica Isadora. O projeto revela que canas mais escuras entregam aromas terrosos, enquanto as mais claras trazem uma nota cítrica, mostrando a importância da matéria-prima.
3. Mistura de Brasil: Capoeira 6 Madeiras
Um blend ousado e delicioso que combina Jequitibá, Amburana, Pau-Brasil, Carvalho europeu e Freijó. O resultado são camadas cheias de personalidade e, como define Isadora, “puro suco de Brasil diretamente do cerrado”.
4. Goles de Ouro: 5 Almas
Um blend potente e amável, composto por cachaças de cinco destilarias lideradas por mulheres visionárias do setor: Célia Della Colletta (Alzira), Elk Barreto (Sanhaçu), Ilíada Terra (Cana e Lua), Adeylza (Paramirim) e Cris Amin (Tiê). Cada uma trouxe um elemento que resultou em uma belíssima evolução no paladar.
5. Só lá fora (por enquanto): Vinícius
“Um dos rótulos e garrafas mais bonitos dos últimos tempos”, segundo Isadora, é um produto fresco, leve e floral, mas com estrutura e um retrogosto pulsante. Por enquanto, só é encontrada na Europa, mas vale a pena ficar de olho.
Guia Rápido: Como Apreciar uma Boa Cachaça
Beber cachaça não é como beber vinho. Para extrair a melhor experiência de um destilado de qualidade, Isadora dá algumas dicas essenciais que desmistificam o serviço.
- A temperatura certa: Cachaça não deve ser servida “quente”. A temperatura ambiente pode potencializar a percepção de álcool e impedir a percepção dos sabores. O ideal é que ela esteja levemente refrescada. Uma boa dica é deixá-la um pouco na geladeira antes de servir.
- Não beba como vinho: A principal regra para destilados é evitar a oxigenação excessiva, que mascara os aromas delicados e ressalta o álcool. “Destilado você toma do jeito oposto ao vinho”, explica Isadora.
- A técnica do gole perfeito: Coloque um gole pequeno na boca e feche os lábios imediatamente. Passeie com a bebida pela boca, engula ainda com os lábios fechados, respire pelo nariz e só então solte o ar pela boca. “Assim você faz um ciclo onde a bebida não encontra o ar, e a percepção de sabor e o retrogosto persistem muito mais”.
- Diluir é bem-vindo: Adicionar uma pedra de gelo não é nenhum sacrilégio, pelo contrário. “Conforme a água vai diluindo a cachaça, cada gole vai ficando diferente e vai apresentando camadas que antes o álcool não permitia”, ensina. É uma ótima forma de explorar a evolução da bebida no copo, assim como se faz com um bom whisky.