Uma reunião quase secreta ajudou a batizar um dos vinhos mais ambiciosos da América do Sul. Desde 2016 à frente da LVMH América Latina (e há mais de 30 anos no grupo), Davide Marcovitch lembra quando o projeto de um novo rótulo em Mendoza, na Argentina, ainda buscava um nome. A ideia era reforçar o vínculo com o lendário Château Cheval Blanc, em Bordeaux, mas havia dúvida dentro do board da companhia.
A questão caiu por terra numa conversa direta de um grupo de executivos do conglomerado de luxo com o próprio Bernard Arnault, CEO do grupo LVMH. “Por que vocês não assumem que é um Cheval? É o nome mais lógico”, cravou Arnault. Nascia ali, com aval do homem mais poderoso do luxo global, o Cheval des Andes.
Em uma avant-première para convidados, no fim de novembro, a vinícola apresentou o Cheval des Andes 2022, safra que será lançada no ano que vem, com preço sugerido de R$ 850. Refinado, o vinho é um corte de Cabernet Sauvignon (65%), Malbec (30%) e Petit Verdot (5%), com longo potencial de guarda — mas pronto para ser bebido desde já.
O rótulo, considerado o Grand Cru dos Andes, ajudou a colocar a Argentina no mapa dos grandes vinhos do mundo. A safra 2017 recebeu 100 pontos do crítico James Suckling, e a 2022 já chegou ao mercado internacional com 98 pontos em sua lista. Para o diretor geral de Cheval des Andres, Pierre Polbos, a força do projeto está justamente na simplicidade da proposta: “Fazemos só um vinho, e isso é a definição de um Grand Cru. Acreditamos muito na dualidade das uvas Cabernet Sauvignon e da Malbec”.
A inspiração original do vinho veio do sonho de Pierre Lurton, presidente de Château Cheval Blanc e de Cheval des Andes, de seguir as antigas vinhas de Malbec de Bordeaux até a Argentina. Ao conhecer o vinhedo de Las Compuertas, plantado em 1929 em Mendoza, ele resumiu a sensação em uma frase: “Será uma viagem às raízes de Bordeaux”. Em 1999, Cheval Blanc firmou uma joint venture com a argentina Terrazas de los Andes, dando origem oficial ao projeto.

Desde então, o vinho é produzido apenas a partir de vinhedos próprios de altitude. Juntos, somam 50 hectares, em solos e topografias distintos, que expressam o contraste entre a tradição clássica de Mendoza e uma visão mais contemporânea de precisão no campo.
A filosofia é levar à Argentina a mesma lógica de longevidade de Cheval Blanc: vinhos que “viajam pelas décadas”, nas palavras de Lurton. Em vez de potência pura, o objetivo é elegância, equilíbrio e a combinação da exuberância da Malbec argentina com a temperança da Cabernet Sauvignon e o toque estrutural da Petit Verdot.
Para Marcovitch, o Cheval des Andes consolida essa ponte entre Bordeaux e os Andes sob a lógica do luxo moderno. E, com a safra 2022 pronta para chegar às prateleiras brasileiras, a definição de Arnault ganha contornos ainda mais literais: trata-se, de fato, de um Cheval — só que com sotaque de Mendoza.