Pela TV, a pit lane é só o lugar das paradas de box. De perto, no fim de semana do Grande Prêmio de São Paulo, ela é uma pequena cidade em operação: mecânicos debruçados sobre os carros, pneus empilhados à porta das garagens e, no meio do movimento, Emerson Fittipaldi, Gabriel Bortoleto e Mattia Binotto, chefe da Audi.
O GP é também um dos maiores palcos de negócios do país. Em 2025, reuniu mais de 400 empresas, entre patrocinadores e clientes de hospitalidade, e 303 mil pessoas em três dias, com impacto econômico de R$ 2,3 bilhões na cidade, segundo a FGV.
A área mais disputada é o Paddock Club, sobre os boxes. Ali, as marcas recebem convidados em lounges próprios – entre eles o do grupo LVMH, que reúne clientes da Louis Vuitton e da Moët Hennessy, dona da Moët & Chandon, champanhe oficial da categoria. O ronco dos motores é constante, mas não incomoda: faz parte da experiência, assim como a gastronomia de padrão internacional.
Mas o paddock vai além dos negócios. Entre executivos, celebridades e criadores, conversas que começam pela corrida viram parcerias e, não raro, amizades. É um ambiente de conexão e celebração, em que estar junto vale tanto quanto a vista para a pista.
Uma história que começou em Reims
A relação entre champanhe e automobilismo nasceu no GP da França de 1950, em Reims-Gueux, vizinho da região de Champagne. Paul Chandon-Moët e o primo, o conde Frédéric Chandon de Briailles, ofereceram uma garrafa ao vencedor, Juan Manuel Fangio – que a dividiu com o segundo colocado.
O banho veio por acidente. Nas 24 Horas de Le Mans de 1966, a rolha da garrafa de Jo Siffert estourou e molhou o público. No ano seguinte, Dan Gurney repetiu o gesto de propósito, e Jackie Stewart o levou à Fórmula 1 dois anos depois.
De 1966 a 1999, a Moët foi a fornecedora oficial da categoria – período que, no Brasil, coincide com as eras de Fittipaldi, Piquet e Senna. “A Moët & Chandon esteve presente em momentos históricos do esporte, sendo o champagne escolhido para brindar as vitórias de Ayrton Senna”, afirma Julian Quintero, managing director da marca no Brasil.
A ligação não ficou só na memória. No Palácio Tangará, ponto de encontro antes do shuttle para Interlagos, os primeiros brindes do dia aconteceram diante de uma garrafa assinada por Senna, trazida a São Paulo para a ocasião.

A volta ao pódio
A partir de 2000, o pódio passou pela Mumm, pela Chandon, pela Carbon e, de 2021 a 2024, pelo italiano Ferrari Trento. O retorno definitivo da Moët veio em 2025, num acordo de dez anos entre a F1 e a LVMH estimado em US$ 1 bilhão, que inclui Louis Vuitton e TAG Heuer.
Um novo público
A volta coincide com uma mudança no perfil de quem acompanha a categoria. Em 2025, 43% do público do GP de São Paulo tinha entre 18 e 29 anos, segundo a FGV. As mulheres, que eram 21% em 2021, já passam de um terço.
A Moët aposta em ampliar as ocasiões de consumo, com presença em gastronomia, moda, música e cinema. “Preservamos um ritual histórico, mas o inserimos em um universo que está em constante transformação”, diz Quintero. Em São Paulo, a expectativa da marca é dobrar o consumo de champanhe durante a semana do GP.
No dia da corrida, o ritual chega ao pódio em Jeroboams feitos para a etapa: três para o banho, três de presente aos pilotos e três assinados pelos vencedores, que seguem para o acervo da Moët. 76 anos depois de Reims, o gesto dos Chandon com Fangio virou ritual (e negócio).
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