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Armazenagem: Ferramenta de Sustentabilidade e Segurança Alimentar

Investimento em infraestrutura adequada de armazenagem garante a minimização das perdas pós-colheita, contribuindo para a segurança alimentar e a preservação dos recursos naturais

4 min

Perdas pós-colheita são um dos principais gargalos da agricultura moderna, que enfrenta o desafio de aumentar a produção de alimentos de forma sustentável e segura para o meio ambiente. Um estudo robusto realizado pela FAO em 2009 apontou que a produção mundial de alimentos deverá crescer 70% para garantir a segurança alimentar global até 2050. Em um cenário de recursos naturais escassos, como água, terra agricultável e energia, o desafio é ainda maior. Nesse contexto, mitigar as perdas pós-colheita torna-se um aliado essencial para assegurar a segurança alimentar global.

Anualmente, mais de dois bilhões de toneladas de grãos são produzidos no mundo para consumo direto por humanos ou para a produção de ração animal. Esses grãos são armazenados em diferentes momentos da cadeia produtiva, em variados tipos de estruturas, tais como silos metálicos, silo-bolsa, armazéns, contêineres e até mesmo em pilhas no chão. Perdas durante a armazenagem podem ocorrer por diversos motivos, entre eles a proliferação de pragas e insetos, fungos e bactérias, além de fatores ambientais, como temperatura e umidade do grão.

Do total de perdas que ocorrem na cadeia produtiva de alimentos, estima-se que 24% acontecem durante a armazenagem. Perdas pós-colheita podem variar de 1 a 2% em países desenvolvidos, onde os grãos são processados e armazenados em estruturas adequadas, com sistemas de aeração e secagem, chegando a 20 a 50% em países menos desenvolvidos, onde não há sistemas adequados de processamento e armazenagem. É possível que, devido à infraestrutura precária de uma unidade de armazenagem, as perdas em determinada estrutura (por exemplo, um silo metálico ou armazém) possam chegar a 100%.

Perdas pós-colheita impactam negativamente a sociedade, a economia e o meio ambiente, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa (GEE) e o desperdício de recursos naturais utilizados na produção de grãos, como água, energia e terra agricultável. O investimento em infraestrutura adequada de armazenagem para o recebimento e processamento dos grãos garante a minimização das perdas pós-colheita, contribuindo para a segurança alimentar e a preservação dos recursos naturais utilizados na produção.

No mundo, é estimado que cerca de 40% da superfície terrestre é utilizada para pastagens ou agricultura, o que faz da produção agropecuária a principal forma de uso da terra globalmente. A mudança no uso da terra, especialmente o desmatamento, responde pelo maior índice de emissões de CO₂ na agricultura. De todas as atividades humanas, a agricultura, e em especial a produção de grãos, é responsável pelo maior consumo de recursos hídricos, respondendo por cerca de 70% do uso global.

Nesse cenário, é imprescindível dar atenção à redução das perdas pós-colheita, garantindo o melhor aproveitamento dos recursos utilizados na produção agrícola e contribuindo para a preservação dos recursos naturais. Dessa forma, devemos incluir uma terceira dimensão no plano atualmente bidimensional de crescimento populacional e produção de grãos: o armazenamento de grãos.

Visando à diminuição das perdas pós-colheita em nossa fazenda no Mato Grosso do Sul, investimos em infraestrutura de armazenagem on-farm, com silos metálicos equipados com sensores de temperatura e controle de aeração automatizado. A realização do processo de aeração automática assegura a correta aeração do grão, sendo fundamental para sua conservação e proporcionando maiores períodos de armazenagem.

O acompanhamento da temperatura do grão dentro dos silos também permite identificar a presença de massas de calor, que indicam quando cuidados fitossanitários podem ser necessários, ajudando a preservar a qualidade do grão. Com o investimento na estrutura de armazenagem e em tecnologia de monitoramento, foi possível atingir perdas inferiores a 2% durante o armazenamento na nossa fazenda, chegando a zero em alguns anos.

Isso demonstra a importância e o valor agregado dos investimentos em infraestrutura adequada para o recebimento da produção agrícola. Diante de tal importância, defende-se a destinação de recursos para linhas de financiamento, a juros subsidiados, que promovam a construção de armazéns on-farm no país, auxiliando na sustentabilidade, na preservação do meio ambiente e na segurança alimentar.

*Luiza Fatorelli é graduada em International Business, Finance and Economics pela University of Manchester e mestre em Agronegócio pela FGV, Embrapa e USP. Atua há 10 anos à frente das operações da Fazenda SJ Margarida, em Bela Vista (MS).

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