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Da NBA Ao Campo: por Que Chapu Nocioni Escolheu uma Fazenda na Argentina para Investir

O campeão olímpico de Atenas 2004 compartilha como aplicar a mentalidade de alto rendimento aos negócios e por que o setor agrícola o atraiu

5 min

Em sua fazenda em La Pampa, no interior da Argentina, as regras são claras: você semeia, cuida e colhe. Não há VAR para revisar nem árbitro para reclamar. Andrés “Chapu” Nocioni aprendeu que fazer negócios no país exige a mesma adaptabilidade que o levou de uma cidade de 20.000 habitantes a defender contra LeBron James na NBA.

“É complicado projetar um negócio quando as regras mudam permanentemente”, diz o jogador de basquete que conquistou uma medalha de ouro olímpica e hoje aplica essas lições ao mundo empresarial.

Aos 46 anos, o ex-jogador do Chicago Bulls combina seu trabalho como comentarista da ESPN com palestras sobre liderança empresarial e a gestão de sua exploração agrícola. Em uma entrevista exclusiva à Forbes, durante o Santa Fe Business Forum, Nocioni analisa como a experiência esportiva se traduz em ferramentas para empreendedores e explica por que escolheu o agronegócio em vez das startups tecnológicas.

A Universidade do Chicago Bulls

“Quando cheguei à NBA, estava muito desconfortável. Não me sentia em uma zona de conforto, mas geralmente é uma zona em que se tem uma grande oportunidade de crescer”, recorda Nocioni sobre sua chegada a Chicago em 2004. “Porque quando você está confortável em um lugar, você está estagnado.”

Essa primeira lição se tornou o pilar de sua filosofia empresarial: buscar deliberadamente o desconforto para gerar crescimento. Durante seus oito anos na NBA (514 partidas entre Chicago Bulls, Sacramento Kings e Philadelphia 76ers), desenvolveu uma metodologia que hoje aplica em palestras corporativas.

“O que levo de Chicago é que tive que crescer muito como pessoa, muito como jogador e tentar me adaptar ao ambiente”, explica à Forbes. Sua estratégia foi usar a linguagem corporal antes das palavras: “Minha maneira de entrar nesse time foi dar tudo dentro de uma quadra para me fazer respeitar como pessoa”.

Três regras de ouro para empreendedores

Durante sua participação no Santa Fe Business Forum, Nocioni sistematizou seus ensinamentos em três princípios fundamentais:

Buscar o desconforto: Para empreendedores que querem se expandir internacionalmente, recomenda: “Busquem o desconforto, um desafio, como entrar em outro mercado. Geralmente é desconfortável porque você terá uma concorrência que estará no seu nível ou acima”.

Ter objetivos claros: “O objetivo não tem que ser sempre o mesmo. Sempre é possível estabelecer diferentes tipos de objetivos com um objetivo maior no final”, diz ele. “Para mim, é preciso focar, não se dispersar. Tentar sempre voltar ao seu caminho.”

Voltar à base: Quando as coisas se complicam, Nocioni prescreve retornar ao conhecido. “Sempre que você se sentir inseguro, sempre que estiver em um lugar não tão confortável, o melhor é voltar à base, voltar ao que você mesmo pode dar, ao que sabe, ao que entende.”

A transformação de Nocioni em investidor começou em um vestiário de Chicago. Durante uma palestra corporativa da NBA sobre educação financeira, enquanto seus colegas “estavam dormindo”, ele se aproximou do palestrante. “Era um senhor do JP Morgan que falava espanhol e, na verdade, me abriu um mundo totalmente diferente“, conta.

Essa conversa mudou sua perspectiva sobre o dinheiro: “Era um momento em que eu não pensava no econômico. Como o cheque entrava todos os dias, eu colocava no banco e lá ficava”. O consultor lhe ensinou conceitos de gestão de risco, crescimento de capital e investimentos que aplicaria anos depois.

Ao contrário de outros atletas argentinos como Manu Ginóbili (investidor em Ualá, Kavak e sócio da Newtopia VC), Nocioni escolheu um caminho mais tradicional. “Manu mergulhou de cabeça. Tive contato com ele e conversamos sobre o tema”, afirma. “Talvez eu tenha ido mais para o que era produtivo naquele momento, porque era o que eu conhecia.”

A aposta no agro argentino

Seu principal investimento é uma fazenda em La Pampa que administra por meio de arrendamento. “Realizei um sonho e comprei uma fazenda”, explica, embora reconheça as dificuldades: “Aprendi que é complicado projetar um negócio quando as regras mudam permanentemente.” Para Nocioni, o setor agrícola representa o potencial genuíno da Argentina.

“Somos um país notavelmente rico em alimentos”, assegura. “Nosso objetivo agora é tentar passar de produtor de matéria-prima a produtor de produto elaborado.”

Sobre a possibilidade de entrar em startups, mostra-se aberto, mas cauteloso: “Eu gostaria. Teria que ver a maneira de conseguir.”

A experiência mais valiosa de Nocioni para o mundo empresarial vem de lidar com a pressão extrema. “Acredito que da pressão se pode sair muito maior, muito mais elevado, muito mais forte se souber suportá-la como deve ser”, explica.

“O sucesso é o caminho para conseguir um objetivo”, define. “Porque você está fazendo algo com paixão, com qualidade, com estudo, com preparação, e isso já é um sucesso em si mesmo.”

A Argentina das oportunidades

Apesar das dificuldades para fazer negócios no país, Nocioni mantém uma visão otimista. “A Argentina tem muitos setores com crescimento extraordinário”, afirma. “Quando você começa a conversar com as pessoas, muitos falam da capacidade que a Argentina tem como capital humano, sobretudo em empreendedores e empresas que se tornam unicórnios.”

Sua crítica ao debate público é direta: “Estou cansado de ouvir nomes e nomes em vez de saber exatamente qual é a proposta ou qual é a ideia. Vamos parar de falar de pessoas e falar mais de ideias.”

Com sua experiência única como atleta de elite transformado em empreendedor, Nocioni oferece uma perspectiva diferente sobre o empreendedorismo argentino: disciplina, adaptabilidade e, acima de tudo, a capacidade de transformar a pressão em uma aliada para o crescimento. “Disciplina, constância. A rotina é disciplina”, sintetiza. “Isso faz com que uma empresa cresça e uma pessoa como atleta também.”

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