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Diretor de Think Tank Chinês Diz Que “Desdolarização” com Brasil Precisa Avançar

Para Henry Huiyao Wang, economista e presidente do Center for China and Globalization, relações comerciais entre os países já possui base sólida

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O futuro da relação econômica entre Brasil e China está entrando em uma nova e profunda fase de cooperação, que transcende a tradicional troca de commodities. Esta foi a principal mensagem de Henry Huiyao Wang, economista, ex-conselheiro de Estado chinês e fundador e presidente do think thank Center for China and Globalization (CCG), durante a Conferência Anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), nesta segunda-feira (13), em São Paulo.

Em sua primeira visita ao Brasil, Wang reforçou que o agronegócio brasileiro tem o potencial de ser o maior beneficiário de longo prazo da turbulência comercial entre Estados Unidos e seu país. No entanto, apontou que o próximo passo para consolidar essa parceria está na infraestrutura, na inovação e na “desdolarização.”.

Reconhecido como um dos atuais articuladores da diplomacia acadêmica da China, Wang lidera o think tank com sede em Pequim, que se dedica a temas como governança global, comércio internacional, migração, investimentos e o papel chinês na economia mundial.  Fundado em 2008, o CCG se define como não governamental, embora mantenha interlocução frequente com formuladores de políticas públicas e diplomatas.

A organização afirma financiar suas atividades por meio de doações de empresas privadas chinesas, corporações multinacionais e subsídios de pesquisa, sem repasses diretos do governo chinês.

Finanças e a ‘desdolarização’ do comércio

Wang falou que a “desdolarização” nas relações comerciais já possui uma base sólida e que pode ser acelerada, segundo ele. O Banco Central do Brasil (BCB) e o Banco Central da China (People’s Bank of China ou PBC) assinaram um Memorando de Entendimentos (MoU) em 2023 para aperfeiçoar a cooperação em serviços financeiros relacionados ao mercado e negócios em Renminbi (RMB), nome oficial da moeda chinesa.

Gigi Meira(da esq. para dir.) Marcos Caramuru, embaixador e membro do Comitê Consultivo do CEBC; Zhu Qingqiao, embaixador da China no Brasil; Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do CEBC; e Henry Huiyao Wang.

Este acordo permite que as operações comerciais dispensem a liquidação via câmbio em dólar, fazendo a troca diretamente de reais para RMB. Espera-se que isso reduza os custos, já que um importador brasileiro não precisará mais comprar dólares para pagar o exportador chinês, que por sua vez não precisará converter o dólar para sua moeda local.

Wang defendeu o fortalecimento da liquidação em RMB, que já abrange mais de 30% do comércio bilateral, e propôs a criação de factoring em RMB em São Paulo para mitigar o risco de taxa de câmbio, reforçando a tendência nas relações Sul-Sul.

A China e o Brasil, como membros do Brics e líderes do Sul Global, são vistos pelo ex-conselheiro como “forças estabilizadoras” globais, essenciais para defender o multilateralismo contra o protecionismo.

Investimento em logística: o gargalo a ser superado

Mas há o desafio da logística. Wang disse que esse é o gargalo mais crítico para acelerar a produção e a exportação. Segundo ele, os investidores de seu país estão prontos para ajudar a resolver este problema que eleva o Custo Brasil.

A proposta de Pequim é aprofundar a colaboração em infraestrutura, mirando os corredores logísticos, o que significa o desenvolvimento de portos inteligentes e corredores para otimizar o fluxo de produtos agrícolas. E investir no que ele chama de projetos emblemáticos, ou seja, apostar na colaboração em grandes projetos, como trens de alta velocidade entre grandes cidades.

Para Wang, a parceria bilateral entre o Brasil e a China está evoluindo de “parceiros em commodity e comércio” para “colaboradores em manufatura, inovação, crescimento verde e governança global.”

“Acho que temos uma conquista compartilhada e que estamos aprofundando nossos laços”, diz Wang.

DivulgaçãoPrimeira fábrica da montadora chinesa no Brasil fica em Camaçari, na Bahia

O investimento chinês está se diversificando para setores de alto valor agregado. Em 2024, as empresas chinesas investiram em um número recorde de 29 projetos, totalizando US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 23 bilhões na cotação atual), segundo o governo federal, com grande ênfase em mobilidade elétrica por meio de veículos elétricos (VEs), com aportes feitos por companhias chinesas como a BYD e a Great Wall Motors.

O valor de 2024 representou um salto de 115% em relação a 2023, marcando o maior crescimento relativo dos investimentos na área de eletricidade desde 2019. Segundo Wang, a China tem feito um esforço para colaborar em áreas como IA, robótica e automação destinadas a impulsionar a transição do Brasil para a Indústria 4.0, usando o país como um hub para o mercado latino-americano.

“O investimento chinês no Brasil é superior a US$ 79 bilhões desde 2007. Também tem acompanhado a capacidade e continua a ser diversificado”, diz Wang.

Oportunidade duradoura para o Brasil

Wang reconhece que a tensão EUA-China criou uma janela de oportunidade duradoura para o Brasil. Com uma necessidade crescente de alimentos para seus 1,4 bilhão de habitantes, o país asiático garante a demanda futura, consolidando o Brasil como um “bom fornecedor” e um fator de estabilidade para a segurança alimentar chinesa. “Parece que isto vai ser um desequilíbrio de longo prazo entre a China e os EUA e o Brasil pode estar provavelmente no meio para se beneficiar,” diz Wang.

Em 2024, as exportações do agronegócio brasileiro para a China atingiram US$ 49,7 bilhões (R$ 271,71 bilhões na cotação atual), correspondendo a 30,2% do total das exportações agropecuárias de US$ 164,4 bilhões (R$ 898,79 bilhões). Os produtos agropecuários mais exportados para a China incluíram soja, milho, açúcar, celulose, algodão e carnes bovina, suína e de frango.

No caso da soja, em valores, o país respondeu por 73% das exportações. A oleaginosa é usada principalmente na produção de ração animal e óleo vegetal. Já as exportações de carne bovina para a China foram muito significativas, representando cerca de 50% do total do valor exportado pelo Brasil desta proteína.

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