Manoel Morgado, o médico que “mora no mundo”

João Moraes Barros
Manoel Morgado a bordo do catamarã Good Karma durante a travessia do Atlântico em junho de 2019

“O ponto emocional mais importante para mim no Everest não foi o cume. Foi antes, quando amanheceu, às 4h30. A sombra do Everest se projetava no vale. Finalmente vi onde eu estava. Desde as 9h da noite, escalava sem ter a menor ideia de onde eu podia estar; à minha frente, só um pequeno foco da headlamp, meu mundo se resumia a isso. A noite estava bonita. Não tinha vento. Eu tinha consumido pouco oxigênio, estava bem fisicamente, forte. Naquele momento, no nascer do sol, veio a certeza do cume. Daí, comecei a chorar, entupiu a máscara… Tive que parar, centrar. Não era hora daquela emoção. Era o começo do jogo de paciência: você está a menos de 200 metros do cume, e sabe que vai demorar umas três horas ainda. Uma vez no topo, fiquei 15 minutos. Fiz foto, uma prece agradecendo à vida por estar lá e comecei a descida. A previsão da tarde era de vento forte, a meta era voltar em segurança ao acampamento. Queria apenas seguir vivo. A alegria pelo feito só mesmo quando voltei ao Acampamento Base e reencontrei meus amigos. Aí, a alma se abre para a felicidade de ter realizado um enorme sonho.”

As palavras são do guia de montanha Manoel Morgado, ao recordar as emoções de estar a 8.848 metros de altitude no dia 17 de maio de 2010 – na ocasião, aos 53 anos, o sexto e mais velho brasileiro a concluir a façanha. O relato foi feito três dias após transformar outro sonho em realidade, em 11 de junho de 2019: atravessar o Oceano Atlântico com um veleiro. A bordo do Good Karma (um catamarã francês Lagoon 380 de 38 pés), Morgado saiu em 15 de maio de Nova York, velejou por seis dias até Bermudas, onde baixou âncora por uma semana. Lançou-se ao mar de novo para mais 13 dias de bons ventos até a Ilha do Faial, nos Açores (Portugal). Dali, tocaria o barco até Lisboa por uma semana.

Arquivo Pessoal
Ao ver a sombra do Everest naquele maio de 2010, Manoel teve certeza de que faria o cume

Formado em medicina na Escola Paulista em 1980 (com especialização em pediatria em 1982), o gaúcho de Farroupilha – que aos 11 anos já morava em São Paulo – planeja para os próximos meses navegar no Mediterrâneo ocidental, beliscar a costa da Itália, visitar um amigo em Malta, ir para Croácia, Grécia, Turquia e voltar para a Tunísia, onde estaciona o barco em meados de outubro para voltar a trabalhar. Há três anos, desde que comprou o barco, Morgado intercala semestres de labuta e de férias. O trabalho dele é guiar grupos para caminhar em lugares dos mais espetaculares disponíveis neste planeta, como o Acampamento Base do Everest, o cume do Kilimanjaro e as estepes da Mongólia.

Arquivo Pessoal
Manoel Morgado no cume do Everest

Morgado nunca volta de viagem – porque não tem casa. Após se separar da mulher no fim da década de 1980, em São Paulo, ele comprou uma passagem para sair do país em 15 de março de 1989 – só de ida. Faz pouco mais de 30 anos que Morgado está na estrada. Sem parar. “Nunca tive a vontade de morar em lugar nenhum. Tenho essa necessidade incessante de mudar de lugar. Acho que Katmandu deve ser onde eu me sinto mais em casa. Mas, depois de quatro dias ali, tenho que ir pra montanha. Gosto muito do Khumbu [região do Everest, nordeste do Nepal], conheço muita gente, amo aquele lugar. Somando todos os meus [67!] trekkings ao Acampamento Base do Everest, já fiquei três anos nessa trilha. Pode parecer clichê, mas me sinto à vontade no mundo.”

Em 1992, um amigo de faculdade do montanhista pediu que ele organizasse uma viagem para um grupo de nove pessoas ao Nepal. Nascia a Altas Viagens (semente da atual Morgado Expedições), agência que propunha desde o início destinos e vivências fora da curva. “Determinei que guiaria o tempo inteiro, jamais ficaria em escritório; que nunca ia ser grande, teria 120, 140 clientes ao ano; que ia oferecer algo muito personalizado, sempre focado e com energia para dar ao grupo. Rodei o mundo. Ficava guiando ou fazendo as minhas viagens, totalmente nômade. Agora tenho o Good Karma, uma casa móvel.”

O fato de passar metade do ano no mar, de férias, não altera o habitat que mais toca seu coração. “As experiências de mar e de montanha são muito diferentes. Em comum, elas proporcionam o meu contato íntimo com a natureza. Tudo que faço é influenciado por ela. É a natureza quem decide o que, quando e como vou fazer. O que sinto falta no barco é de atividade física. E o que sinto falta do mar quando estou na montanha é meu guarda-roupa, composto por um short e duas camisetas – sem contar que passo meses descalço. Mas, por mais bonita que seja a paisagem do mar, por mais bonitas que sejam as praias, a montanha é a minha paixão, não tenho dúvida.”

Mesmo sem residência fixa, o montanhista envolve-se com as populações dos lugares que mais frequenta – a ponto de organizar iniciativas em prol dessas comunidades. “Anos atrás li “Three Cups of Tea” [de Greg Mortenson e David Oliver Relin] e ele me serviu de inspiração para desenvolver alguns pequenos projetos sociais. Ainda que pequenos, eles têm um grande impacto na rotina das pessoas: fiz três pontes ligando um vilarejo nepalês a outro, onde fica o posto de saúde, e à escola na época das chuvas, já que as antigas e precárias pontes eram varridas pela enxurrada e as crianças ficavam sem aula; em outro vilarejo, conseguimos água potável; em um terceiro, construímos uma micro-hidrelétrica, sem represa, e ligamos energia elétrica; na época do terremoto [em abril de 2015, de magnitude 7.8 na escala Richter, que deixou cerca de 10 mil mortos], nos envolvemos na reconstrução de escolas, de casas, ajuda com remédio, barracas, comida, doação de dinheiro; na África, fizemos um poço para 3 mil pessoas na Tanzânia para evitar a caminhada de 15 km para buscar água; água potável também em um projeto no altiplano na Bolívia; contenção das margens de um rio no Marrocos, que sempre transbordava e destruía a colheita, entre outros projetos.”

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A PALAVRA DE QUEM FOI – E QUER IR DE NOVO

O tipo de experiência incomum proporcionada pelos roteiros da Morgado Expedições há décadas atrai um público seleto. Gente acostumada a viajar, mas que se impressionou com o ineditismo das emoções sentidas nos grupos liderados por Manoel – e que, mais do que clientes, acabaram se tornando amigos do incansável andarilho. Entre eles, o paulistano Antonio Marcos Moraes Barros, de 77 anos, CEO da holding que detém o controle acionário das empresas CBC e Taurus.

Décio Galina
Acampamento Base do Everest, a 5.364 metros de altitude

“Meu filho André e meu neto João fizeram várias viagens com o Manoel, incluindo o trekking do Everest; a subida do Elbrus, na Rússia; e dias de caiaque em Papua-Nova Guiné. Sempre acompanhei de perto essas programações sem, no entanto, considerar realizá-las. Pratiquei esporte minha vida toda – hipismo se tornou o esporte da família, depois velejei e, por dez anos, competi em automobilismo na categoria Porsche GT3 –, mas subir montanhas e fazer caminhadas mais radicais não estavam no meu radar”, revela Marcos. Em 2015, porém, o executivo foi convencido pelo neto João a realizar sua primeira incursão nessa área. “Estávamos em setembro, e havia a oportunidade de subir o Kilimanjaro [ponto culminante da África, 5.895 metros, na Tanzânia]. A decisão foi rápida: ‘Vamos!’ André, João e eu. O que me fez aceitar a ideia foram as orientações do meu filho, já bem preparado e experiente, e a confiança nos roteiros da agência”, confessa Marcos. “Fomos guiados por Agnaldo Gomes, da equipe de Manoel, uma caminhada difícil e exigente, principalmente no aspecto psicológico, para enfrentar situações de risco e exaustão frequentes ao longo da percurso – mas chegamos lá. Eles organizam a infraestrutura de acomodações, alimentação e transporte – tudo funciona perfeitamente.”

“A boa experiência no Kilimanjaro foi o gatilho para que eu passasse a considerar novas caminhadas, como a que aconteceu em 2017, na Mongólia. Ampliamos o grupo familiar, fomos em sete pessoas. Foi uma viagem extraordinária a partir de Ulan Bator [capital mongol]. Uma jornada bem mais difícil do que imaginávamos, mas com vários encantos. Caminhamos 140 quilômetros. Transitamos por vales e montanhas deslumbrantes, em áreas remotas, numa cultura de hábitos milenares completamente desconhecida para todos nós. Dessa vez, fomos liderados pelo próprio Morgado. Foram extraordinários os encontros que tivemos com os nômades locais. Eles são hospitaleiros e nos receberam com muita generosidade. Participamos também do Naadam [olimpíada com os três esportes nacionais: luta, corrida de cavalo e arco e fecha].

Arquivo Pessoal
Antonio Marcos, CEO do Grupo CBC, na Mongólia

As viagens surpreendentes e bem-sucedidas encorajaram Marcos a dar um passo ainda mais desafiador: marcou para dezembro uma viagem com o filho e o neto (e contratou Morgado com exclusividade para sua família) para fazer o trekking do Vale de Gokyo – o caminho mais lindo (e mais difícil) até o Acampamento Base do Everest, no Nepal. “Vão ser 17 dias, caminhando entre 4.500 e 5.400 metros, bem puxado. Já estou me preparando com exercícios diários, aeróbicos, caminhadas e corridas com subidas e descidas e fortalecimento principalmente das pernas, numa intensidade crescente ao longo do preparo. Também estou com um nutricionista para orientar a minha alimentação. Devo essas experiências ao Morgado, em quem aprendi a confiar e a quem respeito. Hoje ele é nosso amigo.”

Piloto comercial e instrutor de voo de helicópteros, o engenheiro químico e empresário Giulio Pieter Formenti, de 58 anos, curitibano, descendente de pai italiano e mãe holandesa nascida em Java, fundador das empresas Isogama Química, 7Lub e Thorus Aero Service, também ficou encantado com a primeira viagem com a Morgado Expedições. Giulio teve o primeiro contato com a agência ao pesquisar a melhor forma de realizar uma expedição no Himalaia.

Décio Galina
Trekking no Vale do Khumbu, no Nepal

“Depois de vários contatos para entender o contexto, as dificuldades, os detalhes de preparo, a segurança, enfim, tudo que pudesse contribuir para reduzir nossa ansiedade, começamos a aprofundar o contato e criar uma relação de confiança. Conheci Manoel pessoalmente em Katmandu, no dia 20 de abril de 2017. Lá, se iniciou nossa jornada de ambientação para a expedição rumo ao Acampamento Base do Everest. Fui com minha esposa, Uliana Mageroski.” Giulio admite que foram vários momentos emblemáticos na trilha nepalesa, alguns ainda mais expressivos. “O maior de todos foi ter a percepção da magnitude do Himalaia, a imponência do Everest em seu reino. Para completar o quadro, numa visão de contraste imenso, o pequeno, humilde e forte povo nepalês, caminhando como formiguinha pelas trilhas.” O empresário revela que após concluir o roteiro, de volta à rotina de trabalho, percebeu que a viagem repercutiu em um “foco maior no planejamento, na identificação da realidade e na obstinação em sobrepujar os obstáculos.”

Arquivo Pessoal
Acampamento Base do Everest, a 5.364 metros de altitude

As impressões de Marcos e Giulio fazem eco nas palavras do empresário João Mynarski, de 59 anos, gaúcho de Porto Alegre, descendente de poloneses, italianos e alemães, fundador da Mynarski International Valuation, a maior empresa de avaliação e gestão de ativos da América Latina. A primeira viagem que fizeram com a Morgado Expedições foi para o cume do Kilimanjaro. “Depois do Kili [como a montanha é apelidada], eu e minha esposa Denise pensamos que trekking em altitude não seria para nós. Dois meses mais tarde começamos a sentir saudades. Decidimos voltar para novas expedições e desde então viajamos para o Annapurna e o Acampamento Base do Everest [ambos no Nepal], Ladakh [Índia] e Jbel Mgoun [Marrocos]. Na trilha para o Acampamento Base, nosso primeiro contato com os Himalaias, as montanhas mais altas do mundo exerceram uma atração muito grande sobre nós. São visuais maravilhosos e imponentes. Sem falar no contato com o budismo [religião de Morgado], que o Manoel apresenta muito bem. Todos ficam encantados com a cultura, o estilo de vida, a filosofia e os monastérios que visitamos para receber as bênçãos do lama. No final, o tour de helicóptero refaz tudo o que fizemos e subimos até 6.200 m, em frente ao Everest. É inesquecível. Adoro rever as fotos.”

Reportagem publicada na edição 69, lançada em julho de 2019

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