A arte de Marcos Chaves se insere na tradição do ready-made, termo usado pelo artista francês Marcel Duchamp (1887-1968), pai da arte conceitual, ao utilizar objetos, como rodas de bicicleta e até urinóis, para desafiar as noções tradicionais do que é arte, revolucionando-a para sempre. Com humor, ironia e muita perspicácia, a obra de Chaves altera a função original de objetos, palavras e sons transformados em esculturas, instalações, fotografias e vídeos que adquirem novo significado diferente do original.
“Construir a obra de arte pode ser, para ele, extrair um objeto comum de seu ambiente funcional, combiná-lo a outros, mudar seu contexto lógico, acrescentar palavras e outros meios vindos de fora do campo estrito da visualidade, como jogar com associações mentais, com o humor e com o acaso”, explica a pesquisadora de arte e PHD da Rice University, em Houston, Ginevra Bria, autora do ótimo texto de apresentação da individual “Blue Blood” deste grande nome da arte brasileira conceitual.
Na individual, Chaves expõe três objetos: “Jaws” (1992), uma bolsa feminina em veludo vermelho com as alças abertas simulando a gigantesca mandíbula do tubarão mais famoso de Hollywood; uma obra de parede sem título, também de 1992, que na verdade é um par de sandálias sexy, de salto alto em veludo vermelho. Preso à parede com suas solas uma contra a outra, o par simula o desenho identificável por todos de um coração ou das trompas de Falópio do útero feminino. O terceiro ready-made, de 2025, é “Our Love Will Grow Vaster Than Empires” (em tradução livre, nosso amor crescerá mais que os impérios). A bonita inscrição, de autoria do poeta inglês do século 17, Andrew Marvell, está gravada sobre veludo vermelho e a peça está presa à parede por um canivete suiço vermelho, claro.
Os impérios aos quais o artista se refere acima estão impressos nos tapetes vermelhos, gastos, ornando três velhos palácios europeus da elite sangue azul (blue blood), tema central desta individual que nos leva a refletir sobre as contradiçoes de nossos desgatados símbolos do poder político e religioso. Chaves fotografou – sem que os vigilantes do museu soubessem –os tapetes encarnados do Palazzo Doria Pamphilij, onde desde o século 16 vive, até hoje, a nobre linhagem de políticos e papas no centro de Roma, símbolo do poder do cristianismo. Constam também obras registradas em outra arquitetura cheia de majestade, o Chateau de Fontainebleau, residência dos reis franceses a partir do século 12. Nele, Chaves capturou uma imagem formando desenho geométrico de um dos cantos da escadaria que leva ao único trono existente de Napoleão Bonaparte, que se auto-coroou imperador do reino de França em 1804.

Também forrada com tapetes vermelhos, o local que fecha a série é a Ópera Garnier. O teatro municipal de Paris foi projetado pelo arquiteto Charles Garnier no período de Napoleão III (sobrinho de Bonaparte), último monarca da França até a dissolução do reino em fins de 1800. O interior dourado de sua arquitetura neo-clássica é a sede da companhia da Ópera de Paris, criada em 1669 pelo absolutista Luís 14, o Roi Soleil (Rei Sol), que se julgava – e seu povo e seus mandatários diziam crer – ser o déspota representante de Deus na Terra…
Ao longo do tempo estes tapetes ganharam marcas indeléveis com o peso dos corpos, de suas passadas e do régio mobiliário. Essas “escaras” na trama e no urdume “impressas” pela ação de centenas de anos no próprio pelo dos tapetes denunciam, figurativamente, alianças políticas, favores concedidos, segredos, sentenças, enfim, a injustiça e a farsa do alto poder. Diz o artista: “Gosto da ideia de degradê, da cor que vai sumindo, e de seu significado em francês que é de algo degradado, coisa gasta, decadente. Com o uso ao longo do tempo, é possível ver nesses tapetes europeus suas várias camadas, em que a trama sobressai, criando um grid (ou trama).

Também ficam visíveis marcas do peso sobre o chão em que o tapete está colocado, formando baixos-relevos. Essa ideia de coisa gasta e a geometria que surge são o que gosto nesse trabalho, que acaba por quase ser uma homenagem à pintura, como se eu estivesse pintando com a fotografia e com o próprio pelo do tapete”. Na maior instalação na galeria, o artista cobriu toda a área de uma sala de nosso espaço paulistano com a obra “Eva”, versão proveniente da intervenção “I Only Have Eyes For You”, montada, em 2013, na Fundação Eva Klabin, no Rio, que originou a ideia e pesquisa da atual exposição.
Atualmente, o carioca Marcos Chaves (1961) vive e trabalha em sua cidade natal. O artista já expôs em várias individuais no Brasil e no exterior. Participou da 15ª Bienal de Havana, 2024; 17ª Bienal de Cerveira, Portugal, 2013; 54ª Biennale de Veneza, 2011; e, em 2008, da Manifesta 7, Itália. Suas obras integram vários acervos, entre eles, Centro de Arte de Caja de Burgos, Espanha; Instituto Itaú Cultural, São Paulo; MAM-Rio; e em Miami, The Ella Fontanals-Cisneros Collection.

SERVIÇO
Marcos Chaves: Blue Blood
Texto de apresentação por Ginevra Bria, PHD
Até 16 de agosto de 2025
Galeria Nara Roesler, São Paulo
Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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