Em um cenário de transformação no mercado global do luxo, no qual narrativas autênticas e propósitos claros ganham mais valor do que logotipos, a brasileira Misci acaba de alcançar um marco: a indicação como Marca do Ano no Latin American Fashion Awards (LAFA) 2025. Para o diretor criativo e fundador Airon Martin, a conquista vai além do reconhecimento estético. “Evoluir e manter a identidade é o principal desafio para qualquer marca. Esse tipo de iniciativa coloca o Brasil num lugar de destaque”, afirma.
O Latin American Fashion Awards — criado para reposicionar a moda latino-americana no mapa do luxo — oferece à Misci visibilidade estratégica e portas abertas para novos mercados. “Nós e todos os criativos brasileiros merecemos essa visibilidade. É algo que o próprio Estado brasileiro deveria incentivar, ou até mesmo a Apex. Ainda bem que há um grupo de pessoas fora do Brasil fazendo o que nós mesmos poderíamos fazer”, pontua o estilista.
Criada em 2018, a Misci nasceu com um propósito claro: projetar um design sofisticado e global sem abrir mão das raízes brasileiras. Palhinha trançada, iconografia indígena e cromatismos tropicais aparecem não como ornamentos, mas como linguagem central de suas coleções. “Desde o dia 1, colocamos design brasileiro na nossa etiqueta. Antes mesmo do #brazilcore, já fazíamos boné verde e amarelo”, relembra Airon, reforçando que a marca trabalha referências nacionais com “todos os códigos sofisticados para construção de um produto e imagem de desejo global”.
O palco global da moda latino-americana
Realizado pela primeira vez em 2023 na República Dominicana, o Latin American Fashion Awards nasceu para celebrar talentos e marcas do México, Caribe, América Central e do Sul, reunindo um júri de peso e mais de 1.500 inscrições de 23 países. Nomes como Alexandre Birman, Alexandre Herchcovitch, Adriana Degreas, Farm Rio e PatBo marcaram presença no primeiro evento. A próxima edição, marcada para novembro de 2025, promete reunir mais de 30 países e uma audiência de imprensa de quase 3 bilhões de pessoas. O Brasil não fica muito atrás quando se trata de números de destaque: são mais de 40 profissionais brasileiros entre os semifinalistas em 14 categorias, muitas que contemplam nosso país pela primeira vez.
Para marcas emergentes, trata-se de um passaporte de credibilidade e um trampolim de negócios. Airon vê no LAFA uma vitrine de oportunidades: “Ano passado, fomos a única marca emergente da América Latina a entrar para a lista do BoF. Estamos aos poucos construindo uma comunidade global, sendo transparentes com as nossas origens, e essa indicação reforça esse compromisso”. Segundo ele, o prêmio não muda a estratégia da Misci, que “é de exatas, apesar de eu ser muito de humanas (risos)”, mas amplifica seu alcance.

O impacto de um reconhecimento como esse vai além da notoriedade: abre portas para colaborações com grandes nomes, aproxima compradores internacionais e coloca marcas brasileiras na pauta de veículos especializados no mundo todo. Para Airon, o LAFA também cumpre um papel político: “Reposiciona a América Latina como criadora e exportadora de potências criativas, e não só como inspiração para europeus ou exportadora de commodities”.
Com um portfólio que transita entre moda e design, a Misci integra um grupo de marcas que estão rompendo o imaginário de que luxo latino-americano é “exótico” ou “folclórico”. É, nas palavras de Airon, “mostrar luxo nacional para o mundo” — e ser reconhecida por isso em uma plataforma internacional eleva o valor simbólico dessa proposta.
Luxo de identidade e propósito
A trajetória da Misci é marcada por um conceito que Airon chama de “luxo de identidade”: uma estética que nasce de referências culturais próprias e se traduz em peças únicas, com técnicas e matérias-primas tipicamente brasileiras. “A moda europeia sempre se apropriou de todas as culturas possíveis para formar sua identidade — da renda egípcia ao traçado indiano. Antes de qualquer coisa, eu gostaria de perguntar: o que é de fato europeu? Sendo eles os principais colonizadores estéticos e culturais”, provoca.
Essa perspectiva dialoga com um movimento maior do consumo de alto luxo, no qual clientes buscam autenticidade, artesanato e sustentabilidade. Airon observa que essa tendência é particularmente desafiadora no Brasil, onde “há falta de incentivo para a indústria” e projetos que precisam de escala dependem de investimentos ainda escassos. Mesmo assim, a marca tem se destacado com coleções que resgatam técnicas tradicionais e envolvem comunidades locais, além de participações em semanas de moda internacionais.
No mercado global, o luxo de identidade não é apenas um diferencial estético: é também uma resposta ao desejo por narrativas reais. “Somos sobretudo uma empresa de design, que analisa e constrói a partir disso”, diz Airon. Ao transformar símbolos e materiais brasileiros em objetos de desejo, a Misci constrói um storytelling capaz de competir com as grandes maisons.
Esse posicionamento já rendeu frutos: em 2024, a marca chamou a atenção de personalidades como Oprah Winfrey, que adquiriu peças da coleção, impulsionando a visibilidade e o tráfego do e-commerce. O episódio evidenciou a força de uma narrativa autêntica aliada a um produto com apelo internacional.

Brasil no mapa do luxo global
A indicação da Misci e dos demais brasileiros ao LAFA reforça um cenário mais amplo: o fortalecimento da moda brasileira como força criativa no panorama latino-americano. Airon cita nomes como Nídia Aranha, com quem colabora, e reconhece o trabalho de outros estilistas que, assim como ele, levam referências nacionais para um público internacional.
No mesmo movimento, designers como Karoline Vitto — semifinalista do LVMH Prize — e criadores como Maurício Duarte e Tamã exploram fibras nativas, sustentabilidade e diversidade corporal, conectando estética e ativismo. Esse ecossistema vem ajudando o Brasil a romper fronteiras e reposicionar sua imagem no mercado global do luxo.
O próprio formato do LAFA contribui para esse avanço: por ser gratuito e acessível, cria oportunidades para criativos que antes esbarravam em barreiras financeiras e culturais. Para Airon, esse é um exemplo de política de valorização cultural que poderia ser replicada internamente. “Fazendo o que o próprio Estado poderia estar fazendo”, diz, ao lembrar que visibilidade e reconhecimento são ativos estratégicos para qualquer indústria criativa.