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Salto Alto: a Trajetória dos Sapatos dos Reis até os Escritórios

A peça que moldou a silhueta da moda por séculos se reinventa para acompanhar as novas demandas de liberdade, conforto e autenticidade

8 min

Ao longo dos séculos, o salto alto foi mais do que um calçado: é símbolo de status, feminilidade e poder. Mas, nos últimos anos, ele vem sendo questionado — não apenas como peça estética, mas como representante de códigos sociais em transformação. Entre os jovens, especialmente, o salto perdeu protagonismo. Segundo o relatório global da Lyst, houve uma queda de 67% nas buscas online por “high heels” (“saltos altos”, em português) nos últimos dois anos, enquanto modelos flats e sneakers ocupam cada vez mais espaço nos guarda-roupas e nas passarelas.

Essa mudança não representa o fim do salto alto, mas uma ressignificação. No imaginário da moda, esse sapato segue carregado de poder simbólico e se mantém presente nas coleções de luxo, adaptando-se às exigências da mulher contemporânea. É o que afirma Guilherme Kfouri, diretor criativo da Alexandre Birman: “Elegância não é mais sinônimo de sacrifício, e sim de inteligência de design. O salto do futuro será híbrido: belo, desejável e confortável”.

Neste cenário, revisitar a trajetória histórica do salto é essencial para entender não apenas a moda, mas as transformações culturais, sociais e econômicas que moldaram — e seguem moldando — os objetos de desejo da indústria do luxo.

As origens do salto alto

O salto alto surgiu no século 17 como item de vestuário masculino. Era usado por nobres europeus — especialmente por Luís 14, que chegou a legislar sobre a altura e a cor dos saltos em sua corte. “É evidente que o salto alto sempre foi símbolo de riqueza e poder”, afirma Gloria Kalil, jornalista e consultora de moda. “As classes dominantes usavam salto porque podiam se dar ao luxo de não trabalhar”. No campo ou em atividades domésticas, era impossível calçar sapatos tão impráticos quanto simbólicos.

Mais do que uma questão de estilo, o salto alto era um marcador social. Como observa Kalil, “antigamente, o status era ter riqueza e não trabalhar”. O salto, nesse contexto, era parte da linguagem do poder. Mas essa estética não permaneceu masculina por muito tempo: com a Revolução Industrial, o ideal de masculinidade mudou. Trabalhar passou a ser símbolo de virilidade e produtividade — e os homens abandonaram os saltos, que foram progressivamente associados ao vestuário feminino. “O salto passou a ser visto como símbolo de ócio, refinamento e sedução feminina”, explica Kalil.

Esse movimento marca o início de uma longa história na qual o salto alto se tornaria ícone da feminilidade moderna — e, paradoxalmente, símbolo de poder em um universo que agora era feminino, mas carregava a herança de um domínio estético masculino.

Getty ImagesRetrato do rei Luís 14; na imagem é possível vê-lo usando saltos altos

A transição para a moda feminina

A adoção do salto pelas mulheres, entre os séculos 18 e 19, não foi apenas estética — foi política. “Quando as mulheres adotaram o salto, não foi uma simples apropriação, foi um gesto de ocupação de espaços antes masculinos”, avalia Guilherme Kfouri. A estética do poder foi reinterpretada com sensualidade, autonomia e refinamento. O salto passou a representar não só status, mas identidade feminina em construção.

No entanto, esse objeto de desejo também teve períodos de declínio. Durante a Revolução Francesa, por exemplo, a busca por igualdade e o espírito pragmático da época levaram à rejeição dos saltos. O mesmo ocorreu em períodos de guerra, quando sapatos funcionais ganharam prioridade. “Em momentos de crise — econômica, política ou social — o salto tende a ser questionado”, observa Kfouri. “O conforto prevalece, mas o salto sempre ressurge com novas linguagens”.

Com o advento do século 20 e a ascensão da alta-costura, o salto voltou com força. A imagem da mulher glamourosa dos anos 1950 — com saltos finos e vestidos ajustados — reforçou a ideia do salto como arma de sedução e poder. Marilyn Monroe, que declarou que “não sabia quem inventou os saltos altos, mas todas as mulheres lhe deviam muito”, ajudou a consolidar o salto como ícone aspiracional.

A era do alto luxo e as passarelas

O salto alto atingiu seu apogeu como símbolo de luxo nas mãos das grandes maisons francesas e italianas no século 20. Designers como Roger Vivier, na Dior, e Salvatore Ferragamo elevaram o salto a status artístico, combinando inovação técnica com savoir-faire artesanal. “Essas casas dominaram a narrativa do luxo, transformando o salto em extensão da feminilidade moderna”, analisa Kfouri.

Na cultura pop, ícones como Audrey Hepburn, Madonna e Carrie Bradshaw (de Sex and the City) transformaram o salto em símbolo de estilo, liberdade e desejo. “Marilyn usou o salto como arma de sedução; Madonna, como força performática; Carrie, como expressão de consumo aspiracional”, diz Kfouri. Cada uma, à sua maneira, reforçou o salto como objeto de identidade e projeção pessoal.

Getty Images/Michael OchsMarilyn Monroe, atriz e modelo, chegou a afirmar que mulheres _deviam muito_a quem inventou os saltos altos

O design dos saltos também evoluiu. Marcas como Christian Louboutin, Jimmy Choo e Manolo Blahnik se tornaram sinônimos de luxo e desejo, criando peças que não eram apenas sapatos, mas fetiches. A presença do salto nas passarelas se consolidou como código de sofisticação e status — o acessório que completa o “look de poder”.

O salto no mundo corporativo e a imagem da mulher de negócios

No ambiente corporativo, o salto alto foi, por décadas, parte do uniforme da mulher de negócios. “O salto altera a postura, eleva o olhar e transforma a presença”, diz Kfouri. Essa imagem, associada ao “power dressing”, simbolizava autoridade e sofisticação — uma forma não verbal de marcar presença em espaços tradicionalmente masculinos. Contudo, essa percepção vem sendo desconstruída: muitas executivas já não sentem necessidade de adotar códigos clássicos como o salto para afirmarem poder, optando por peças confortáveis que não comprometem sua imagem profissional.

Ainda assim, o salto não perdeu seu valor simbólico — mas se tornou uma escolha estética, não uma imposição. Há um novo perfil de consumidoras que vê o salto como extensão de sua identidade, e não como código de pertencimento. Marcas de luxo têm investido em modelos que unem presença visual e funcionalidade. “O desafio é equilibrar escultura e ergonomia”, explica Kfouri. “Trabalhamos com materiais flexíveis, palmilhas específicas e estruturas que garantem estabilidade. O luxo de hoje está na experiência de uso”.

O mercado de calçados de luxo: números e perspectivas

Site da marca Alexandre BirmanSaltos Alexandre Birman

O mercado global de calçados de luxo foi avaliado em US$ 43,6 bilhões (R$ 238 bilhões) em 2024, segundo a Business Research Insights, com expectativa de atingir US$ 57,8 bilhões (R$ 315 bilhões) até 2033. No Brasil, ao longo de 2025, o segmento movimentou US$ 242,6 milhões (R$1,3 bilhão), com crescimento projetado de 3,15% ao ano, conforme dados do Statista.

Nesse cenário, marcas brasileiras se destacam. Na Birman, por exemplo, a personalização é tendência consolidada: “Fazemos modelos made to order, com escolha de materiais, cores e detalhes exclusivos”, conta Kfouri. A cliente pode até moldar uma forma específica para seu pé, resgatando o valor do feito sob medida.

A sustentabilidade também se tornou prioridade. “Não é mais opção, é responsabilidade”, afirma o Diretor Criativo. A marca revisou sua cadeia produtiva com foco em materiais de menor impacto e durabilidade, sem comprometer a estética. Impressão 3D e prototipagem digital são recursos cada vez mais comuns no processo criativo. Esse movimento reflete uma mudança no consumo de luxo: produtos desejáveis, sim, mas com propósito, conforto e responsabilidade.

O futuro dos sapatos com salto

O salto alto do futuro será, ao mesmo tempo, sofisticado e funcional. “Já está sendo redefinido”, diz Kfouri. “A mulher contemporânea quer liberdade para escolher como e quando usar salto”. O desafio para os designers é criar peças que respeitem essa autonomia sem perder a magia e a escultura que tornam o salto objeto de desejo.

Tecnologias como palmilhas ergonômicas, materiais eco-friendly e design personalizado vêm ganhando espaço. O salto se torna um símbolo de expressão individual, com novos códigos — mais fluidos, mais humanos e, sobretudo, mais autênticos. “O salto continua sendo um símbolo de expressão individual, mas agora com novos códigos bem mais fluidos, mais humanos, e sem dúvidas, mais autênticos”, conclui Guilherme.

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