Os passos precisam ser curtos, a altura exige. Mas a prudência não é só porque há pouco oxigênio a mais de 5 mil metros de altura – a verdade é que não se pode ter pressa para contemplar os 360 graus de uma paisagem que fica mais ampla a cada pegada acima. A mescla do azul de um céu dos mais limpos do mundo com um sem-fim de tonalidades de ocre salpicadas por neve das cordilheiras que rasgam o Deserto de Atacama (Chile) se intensifica na ascensão lenta do Cerro Toco (5.604 m), um dos destaques do horizonte atacamenho, onde a principal estrela é o Licancabur (5.920 m). Uma vez no topo do Toco, maravilhas do norte chileno e do sudoeste boliviano se fundem como um enorme quebra-cabeça andino, reunindo a exuberância de cartões-postais como o Salar de Atacama e a Laguna Blanca.
A exigente caminhada começa a 4.900 metros, depois de uma viagem de carro de pouco mais de uma hora desde São Pedro de Atacama (2.400 metros) – quer dizer, a subida é rápida, recomenda-se estar bem aclimatado à altitude, deixando para realizar tal aventura após três dias na região, no mínimo. Bem pertinho da parede do Cerro Toco dá para entender que o trekking é só pirambeira acima, quase não há trechos planos. Alcancei o cume em menos de duas horas de pernada (passada cadenciada, com o uso de bastões de caminhada), fazendo três paradas breves para hidratação – tudo sob a liderança da experiente (e exclusiva) guia Macarena Barrientos. Lá no topo, uma hora passou em um segundo – tempo investido acomodado em diferentes pedras que funcionam como poltronas de teatro diante de cenários fantásticos, em silêncio, deixando a vista perder o foco na imensidão colorida. Praticamente não há vento, às vezes uma brisa bate como se alguém assoprasse em seus olhos para acordá-lo.
Reforma e vistas do Lincancabur
Encarar longas subidas não é a sua praia? Não se preocupe – vai amar o Deserto de Atacama do mesmo jeito. Afinal, uma das regiões mais lindas do continente se revela de diversas formas: em passeios curtos e longos a pé, de carro, a cavalo ou de bicicleta. Alcançar o cume do Cerro Toco é só uma das dezenas de atividades outdoors disponíveis no cardápio de emoções do Tierra Atacama, propriedade de 2007 que reabriu as portas dia 1º de abril, após 13 meses de reforma e US$ 20 milhões investidos. A integração com a natureza e a valorização das tradições locais pautaram as modificações feitas em áreas comuns e nas acomodações – em ambas, destaque para enquadramentos cinematográficos do onipresente Licancabur.

Seja no bar apreciando o drinque autoral do dia (com ou sem álcool), seja nas suítes, o formato cônico perfeito dessa montanha-símbolo fisga o olhar e demora a soltá-lo. A brincadeira é acompanhar sua mudança de cores ao longo do dia – em maio, o Licanca (como é chamado pelos íntimos) dava um show logo nos primeiros segundos da manhã, quando os raios da alvorada desenhavam seu contorno na contraluz, antes de o sol dar as caras.

Mesmo com a reforma, as enormes janelas de vidro alinhadas em duas seções paralelas (de frente para o Licanca, claro) seguem como o cartão de visitas do hotel – verdadeiros mirantes para os vulcões e o céu noturno entupido por estrelas reluzentes. Um dos melhores e mais exclusivos hotéis de São Pedro de Atacama, o Tierra foi projetado pelos arquitetos chilenos Rodrigo Searle e Matías González em um terreno onde funcionou um curral secular de gado – as antigas paredes de tijolos de 150 anos foram preservadas.
Tanto na construção como na reforma, Teresa Moller foi encarregada do paisagismo, enquanto a decoração de interiores ficou sob responsabilidade de Carolina Del Piano (que também atuou no Tierra Patagonia, em Torres del Paine, no extremo sul do Chile, um dos hotéis mais lindos e fundidos à natureza no continente). O que eram 32 acomodações viraram 28 remodeladas, dando espaço para quatro grandes suítes Deluxe.

Nas áreas comuns, as maiores modificações se notam na nova localização do bar (justamente para valorizar a vista para o Licanca), uma nova lojinha e o spa todo remodelado, com novos espaços. A piscina cercada por espreguiçadeiras segue com protagonismo na área externa – e nem preciso dizer qual é a vista que ela descortina. A inspiração atacamenha é evidente no uso de materiais locais, como madeira, pedra, tecidos artesanais e tons terrosos que remetem ao deserto. O viés contemporâneo está marcado pelo mobiliário elegante e minimalista, combinado à perfeição com peças de artesanato andino. “Algo que não mudou foi o carisma de nosso staff, algo valorizado muito pelo hóspede, que costuma dizer que ‘o staff faz a diferença’”, garante a gerente Maria Jose Galleguillos, que está no grupo Tierra desde 2015 e chegou à unidade do Atacama em plena obra, em setembro passado.

“Nossa infraestrutura também é um diferencial, sem dúvida, graças às lindas vistas que temos dos arredores.” Faço eco às palavras de Maria Jose: a qualidade dos guias, o esforço dos funcionários pelo bom serviço (inclusive falando português) e a conexão que o Tierra proporciona com o deserto são diferenciais que justificam a hospedagem nesse local tão especial. Na gastronomia, destaque para as Notches del Fuego, com carnes (guanaco, porco, peixe) e legumes assados na brasa e as (ótimas!) pizzas.
Lagunas altiplânicas e piedras rojas
A rotina de hospedagem no Tierra Atacama (programe-se para ficar ao menos quatro noites) transporta o turista a um universo paralelo extremamente agradável. Logo ao chegar, debruça-se sobre uma mesa de madeira lisa e clara, muito bonita, com o mapa das redondezas gravado no tampo. Os olhos se arregalam imediatamente frente ao enorme leque de passeios que parecem levar a outros planetas. Sua primeira missão é escolher os roteiros que se dividem entre “meio dia” e “dia inteiro”, em veículos novos e confortáveis, exclusivos para os hóspedes que rodam sempre em pequenos grupos (às vezes, com um guia só para você, como foi o meu caso ao encarar o Cerro Toco). As escolhas também consideram as condições físicas dos hóspedes, sempre garantindo o bem-estar durante momentos de desfrute extremo.

Isso posto, sem querer me meter muito na sua programação, peço que, em hipótese alguma, você deixe de ver dois lugares: Lagunas Altiplânicas e Piedras Rojas, combinados em um roteiro de “dia inteiro” do Tierra. O programa tem longos deslocamentos rodoviários deserto afora – e isso é uma boa notícia. Assim como a Patagônia, o Atacama é compreendido quando se experimentam suas dimensões em extensas viagens de estrada em linha reta, quando o pensamento escapa e você se pega seduzido por visuais que beiram sonhos.
Refiro-me a essa dupla de belezas porque sei que, naturalmente, você não vai abrir mão (com toda razão, diga-se) de clássicos da região, como o tripé que já vale a viagem: Valle de La Luna (dunas, crateras e vales secos – destaque para a formação Anfiteatro –, na Cordilheira do Sal, excelente no pôr do sol, local já usado pela Nasa para testar equipamentos destinados a Marte); Geysers de El Tatio (são cerca de 80 ativos – terceiro maior campo de gêiseres do mundo –, erupções de vapor e jatos de água quente de até 10 metros de altura, a 4.320 metros de altura, perfeito para o amanhecer); e Salar do Atacama (cenário surreal, uma crosta branca e rachada que atrai três espécies de flamingos – Andino, Chileno e de James – para se alimentarem na água salgada da Laguna Chaxa: comem pequenos crustáceos que contêm pigmentos que dão a cor rosa aos elegantes pássaros, maravilhosos duplamente quando refletidos no espelho-d’água do nascer e do pôr do sol).
Mesmo quase enlouquecendo com a beleza deste tripé, você ainda irá se surpreender e sorrir à toa ao se deparar com o azul-turquesa das Lagunas Altiplânicas, a mais de 4.100 metros de altitude: Miscanti e Miñiques, que dividem a cena dramática com os vulcões homônimos (Miscanti com 5.622 metros e Miñiques com 5.910). Leve binóculos para apreciar o vai e vem da fauna local – camuflados na paisagem, às vezes não aparecem, mas os bichos estão ali: vicunhas, chinchilas-da-montanha, raposas-vermelhas, aves aquáticas e a águia-chilena.

Piedras Rojas é outra pancada: de novo, você se vê nocauteado por um quadro de cores e de formas inéditas. Paisagens vulcânicas, formações rochosas avermelhadas e lagunas coloridas, congeladas. Esse passeio exige uma caminhada maior: quase quatro quilômetros (ida e volta), a mais de 4.200 metros de altura, e a tendência é ventar (às vezes, muito). No meu caso, nada de vento, caminhada prazerosa em terreno plano de pedras soltas – mas soube que, dois dias antes, bateu um vento que mal dava para ficar em pé.
Troca de experiências, drinques e SPA
Outros dois roteiros merecem destaque em sua programação, pode acreditar: flutuação no Laguna Cejar – graças à altíssima concentração de sal (cerca de 40% superior à do mar), o corpo flutua sem esforço – é como voar, em outras palavras. E a caminhada pelo Valle de Guatin: trilha rochosa em uma impressionante floresta de cactos gigantes, cruzando cursos-d’água e passando por cachoeiras. É ali que os rios Puritama (quente) e Purifica (frio) se encontram, formando o Vilama, que dá vida ao ecossistema do Guatin. Os cactos são da espécie Eulychnia iquiquensis, endêmica do norte do Chile. Conhecidos como candeeiros (por causa do formato de candelabro), os adultos podem alcançar oito metros de altura, com idades superiores a 800 anos (os mais baixos, de três metros, têm cerca de 300 anos).

As experiências vividas e as interjeições usadas para descrever as emoções de um dia no Atacama são trocadas no lobby do Tierra, conforme os grupos chegam dos passeios. Papo em dia, brinde feito com o drinque do dia, hora de relaxar no Spa Uma (“água” no idioma aimará) – além dos tratamentos, aquele rodízio delícia entre saunas, banheira de hidromassagem ao ar livre e na piscina coberta aquecida, de borda infinita, com jatos de água nas costas e na cabeça. Corpo e mente em deleite, largados ao prazer do silêncio em uma espreguiçadeira, assimilando memórias frescas, impactados por tanta coisa linda do deserto. Não importa o número de vezes que você vá ao Atacama, a certeza é uma só – a de voltar. Até breve, Tierra.