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Por Que a Alta Joalheria Segue Como Pilar Sólido no Mercado de Luxo

As grandes maisons e designers autorais mostram que o segredo da longevidade está em combinar artesanato, exclusividade, herança e inovação

11 min

Mais do que adornos, joias carregam história, emoção, identidade e, acima de tudo, permanência. O fascínio das joias é permanente, mas também é mutável ao longo do tempo. Na Pré-História, os acessórios funcionavam como proteção; na Antiguidade, representavam o desenvolvimento das sociedades; na Idade Média, assumiram um forte caráter religioso. “Hoje, combinam quase todos esses significados: tradição, status social, simbolismo emocional”, analisa Natalia Vargas, especialista em tendências na WGSN na América Latina, bureau que tem observado comportamentos – atuais e futuros – dentro da joalheria.

“Um deles é pensar no design funcional além do estético: joias ergonômicas e lúdicas, que podem ser usadas como uma ferramenta de apelo sensorial, nas quais um rotativo ou dobrável pode servir como um regulador de emoções.” Outro movimento importante é pensar sobre a valorização desse investimento. Com a alta do ouro e o período de incertezas econômicas, essa dupla conduz os consumidores a pensar nas joias como investimentos seguros.

“A alta joalheria se mantém resiliente porque combina herança e atemporalidade, o que faz com que seu prestígio simbólico seja preservado. É um nicho de mercado que consegue ter vertentes diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Cartier com sua expertise secular, Van Cleef com sua estética delicada, Tiffany como um clássico icônico da joalheria tradicional”, observa Natalia. As coleções mais recentes das grandes maisons foram apresentadas nos últimos dois meses em cenários deslumbrantes como Quioto, Paris, Londres e Maiorca e mostram como tradição, legado e herança seguem entrelaçados nesse universo de brilho e poder simbólico. Entre as tendências que marcaram a temporada, destacam-se as pedras incomuns – espinélios, granadas verdes, opalas raras – e o uso poético da natureza como inspiração, além das transformable jewels, que acompanham o estilo de vida versátil da nova geração de consumidores.

Entre as maisons mais tradicionais do planeta, a Cartier reinterpretou, para a temporada, um de seus códigos mais icônicos – a pantera, símbolo de força e elegância. “Criar uma linha distinta a partir da sobriedade é o paradoxo da simplicidade sofisticada. É a arte de olhar as coisas de forma diferente, mas também de equilibrá-las com precisão”, diz Jacqueline Karachi, diretora de criação de alta joalheria da marca. “O desafio na alta joalheria de Cartier está na transcrição técnica da intenção estética original. Tudo depende da precisão e da maestria de nossos artesãos, que dão vida a peças excepcionais e carregadas de emoção”, acrescenta Alexa Abitbol, diretora das oficinas de alta joalheria.

DivulgaçãoColar Panthères Reflexio, de Cartier – uma duplicação de pedras preciosas forma a peça central: uma turmalina verde de 74,10 quilates e uma gota de coral de 14,91 quilates

A não menos tradicional Chanel buscou inspiração em uma frase de sua criadora, Gabrielle Bonheur “Coco” Chanel (1883-1971): “Se você nasceu sem asas, não faça nada para impedi-las de crescer.” A coleção Reach for the Stars une opulência e leveza com joias em preto e branco ou pedras coloridas, inspiradas em símbolos como cometas, asas e leões. Destaque para o colar Twin Stars, que se transforma em pulseiras e colares, combinando diamantes e tanzanitas. Em tempo: a coleção ecoa o espírito moderno da Bijoux de Diamants, lançada por Gabrielle em 1932.

DivulgaçãoO colar Dreams Come True, da Chanel, foi inspirado nas curvas femininas e no caimento longo e sensual de um vestido de alta-costura. Em ouro branco, ouro negro revestido e diamantes naturais polidos, a peça é transformável: os pingentes podem ser removidos para uma versão mais curta

Com uma abordagem mais intensa, a Bvlgari celebra a opulência italiana com sua coleção Polychroma, exaltando cores, pluralidade e formas com pedras preciosas raras. São 60 peças milionárias – o maior número já apresentado pela maison –, redefinindo os limites do luxo na alta joalheria. “A inspiração vem de uma rica tapeçaria de influências culturais, combinando sugestões artísticas e arquitetônicas de todo o mundo”, conta Lucia Silvestri, diretora criativa de joias da Bvlgari.

DivulgaçãoColar Tanzanita Falls, de Bvlgari – a estética moderna de Tubogas e cinco tanzanitas notáveis se unem para criar uma obra-prima atemporal, com processo artesanal de criação que soma mais de 800 horas

Na Van Cleef & Arpels, a coleção Flowerlace celebra a leveza da natureza e a alta-costura com joias inspiradas em flores, tema recorrente da maison. Inspiradas nos clipes Silhouette dos anos 1930, as criações equilibram cheios e vazios com linhas delicadas: anéis, brincos e pingentes transformáveis em ouro amarelo e diamantes.

DivulgaçãoPingente com clipe Flowerlace, de Van Cleef & Arpels, em ouro amarelo e diamantes

A Tiffany & Co., sob o guarda-chuva do grupo LVMH desde 2021, une a tradição americana com uma nova dose de ousadia e modernidade. Fundada em Nova York em 1837, a maison reimagina seu icônico Bird on a Rock, de Jean Schlumberger, em sua nova coleção de alta joalheria, através da lente de Nathalie Verdeille, Chief Artistic Officer of Jewelry and High Jewelry. “Estudamos os pássaros observando cuidadosamente as suas posições, as suas penas, as estruturas das suas asas – para criar formas dinâmicas que parecem pousar sobre quem as usa”, fala Nathalie. A coleção inclui dois conjuntos de alta joalheria: um centrado nas tanzanitas – pedra preciosa icônica da Tiffany & Co., introduzida em 1968 – e outro que celebra a turquesa, profundamente enraizada no patrimônio de design da maison.

DivulgaçãoBrincos Bird on a Rock, Tiffany & Co., em ouro amarelo 18k e platina com tanzanita de mais de 52 quilates, safira rosa e diamantes

A Louis Vuitton, por sua vez, tem se firmado como potência em alta joalheria com coleções arquitetônicas e criativas, repletas de detalhes que remetem ao monograma da casa. E a Dolce & Gabbana, com seu espírito barroco e maximalista, mistura iconografia religiosa, referências sicilianas e pedras coloridas em peças que são quase talismãs.

Brasil: identidade autoral

Mas não é só no circuito tradicional do luxo que a alta joalheria se reinventa. O Brasil vem ocupando um espaço cada vez mais relevante nesse cenário, com designers que combinam sofisticação técnica, identidade autoral e uma conexão única com as riquezas naturais do país.

Fernando Jorge é um dos grandes nomes dessa nova geração. Sua marca homônima, criada em 2010, vestiu Fernanda Torres no Globo de Ouro em 2025. Sua assinatura é o design em joias que combinam curvas sensuais e pedras brasileiras em lapidações inovadoras. Sua coleção mais recente, Vertex, combina arquitetura e leveza de uma maneira impressionante, repleta de diamantes. Pedras geométricas lapidadas em baguete se movem e se curvam com uma graça engenhosa – uma fusão de contrastes: estrutura e fluidez, passado e presente. “Eu faço joias para quem ama joias. Mas, como minha formação é de design, tem muita gente que fala: ‘não gosto de joias, mas gosto das suas’. Minhas peças são muito atentas ao corpo, não são figurativas. É uma coisa brasileira, da joia usada sobre a pele. Na minha opinião, a peça tem que ser desejável, você tem que querer usar.”

DivulgaçãoNa coleção Vertex, de Fernando Jorge, diamantes lapidados em baguete se movem e se curvam com uma graça engenhosa

Ara Vartanian é outro designer com destaque. Há 23 anos no mercado, aposta na força bruta das gemas e em criações que desafiam o convencional, com peças de presença marcante. “Todas as minhas peças são numeradas, muitas são únicas. São joias feitas em ateliê, em pouca escala. Vi o caminho da joalheria se abrir nos últimos 10 anos, observando homens usando anéis e colares, a juventude usando joias como amuletos e procurando peças de marcas específicas. Uma vez presenciei um casal na minha loja em Miami comprando peças que eles pretendiam trocar entre si. Acho isso o máximo”, diz Ara, analisando o mercado.

DivulgaçãoAliança Polvo, com esmeralda, de Ara Vartanian

Joia como linguagem cultural

A Sauer, joalheria carioca com mais de 80 anos, segue com sua relação com as pedras brasileiras, o savoir-faire artesanal e o olhar artístico, preservando códigos e atualizando símbolos para que continuem relevantes. “Nos últimos anos, temos visto uma redescoberta da joia como linguagem cultural. A joalheria deixou de ocupar o espaço da celebração e do status para se tornar mais um território de expressão estética e intelectual. As joias, por sua natureza, são objetos permanentes, capazes de atravessar gerações, e hoje esse valor de permanência e memória tem uma relevância especial no mundo da moda e do design que vivem em ritmo acelerado”, observa Stephanie Wenk, diretora criativa da marca. Sua última coleção, Brennand, inspirada no universo do artista Francisco Brennand (1927-2019), traz 12 joias que misturam cerâmica, pedras preciosas e materiais naturais, como limestone e madeira, lançadas na The Armory Show (NY) e na ArtRio (RJ), disponíveis no Brasil e em Nova York.

DivulgaçãoBrincos Ovo, Sauer: cerâmica Brennand, diamantes e ouro amarelo 18k

E ainda temos por aqui, em um mercado em ebulição, Silvia Furmanovich, reconhecida internacionalmente por seu trabalho artesanal com madeira marchetada, destaca-se por um olhar apurado para técnicas ancestrais e materiais inusitados. Destacam-se ainda nomes como Marina Vicintin, com joias minimalistas que exploram a pureza das formas. “Joias passam por gerações, vão ficar com você para sempre. Minhas filhas usam joias que usei na idade delas. E essa geração, que quer causar menos impacto, compra menos e melhor”, fala Marina.

DivulgaçãoBrincos em papier mâché com formato octagonal, estampa de flor e paisly, safira rosa, topázio azul e diamante, ouro amarelo 18k, Silvia Furmanovich

Emar Batalha, que traz uma abordagem romântica e feminina, valorizando o design elegante e a brasilidade em suas criações, traz pérolas como protagonistas de sua última coleção. “O que me encanta nelas é a singularidade. Nenhuma é igual à outra. Carregam em si o valor das imperfeições e da naturalidade, e é exatamente isso que as torna tão especiais dentro do meu trabalho”, diz a designer.

Cris Ruas se destaca na joalheria brasileira com criações autorais que unem arte, natureza e gemas preciosas. Após anos na moda, hoje trabalha com ouro, diamantes e pedras coloridas. Já chegou a Miami e Londres, e atua no Brasil via e-commerce e ateliê próprio. Em sua coleção Ice, une acrílico transparente e gemas preciosas em peças que evocam o gelo e a ideia de capturar o efêmero. Com brincos, colares e anéis superbold, as joias trazem pedras como topázio, ametista e turmalina, flutuando no acrílico como memórias congeladas.

A última coleção da Priya Joias veio do desejo de trazer autenticidade às peças, explorando cores vibrantes e formas inesperadas. “Apostamos na turquesa e no coral, pedras que traduzem energia, leveza e conexão com a natureza, mas também quisemos destacar o design diferenciado que já faz parte da essência da Priya, como no nosso querido zíper, que se tornou um ícone da marca”, fala Nathália Schneider da Fonseca. A Prasi, das amigas cariocas Mariana Prates e Helena Sicupira, traz joias inspiradas pelo design e pela arquitetura brasileira.

DivulgaçãoO zíper, um ícone da Priya, destaca o design diferenciado que já faz parte da essência da marca

É fato que o fascínio pelas joias permanece – e talvez esteja mais forte do que nunca. Em um cenário de incertezas, elas representam segurança, herança, conexão afetiva e exclusividade. A alta joalheria, em especial, carrega o valor do feito à mão, do tempo investido, da raridade dos materiais e da história por trás de cada peça. É arte usável, com alma e propósito. Para a nova geração de consumidores de luxo, isso importa. Cada vez mais conectados a valores como autenticidade e transparência, eles buscam peças que contem histórias. A alta joalheria – internacional e brasileira – segue relevante não apenas por sua beleza, mas por sua capacidade de conectar passado, presente e futuro – em forma de brilho eterno.

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