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2 “Maus Hábitos” Que Podem Levar Ao Sucesso

Nem todo mau hábito precisa ser eliminado. Segundo a psicologia, dois deles podem virar superpoderes secretos

7 min

Em contextos profissionais ou sociais, a força costuma ser facilmente identificável. Geralmente a reconhecemos em pessoas confiantes diante de situações com potencial de fracasso, ou que não se abalam emocionalmente com facilidade, mesmo quando recebem críticas sobre seu desempenho. Maus hábitos também são facilmente apontados, mas, em vez de serem compreendidos, costumam ser combatidos. Pessoas que aparentam ser muito sensíveis são aconselhadas a “endurecer”, a acreditar mais em si mesmas ou, no mínimo, a parar de pensar demais.

No entanto, a verdade é que a psicologia há muito tempo indica que as fragilidades que percebemos em nós mesmos ou nos outros podem, quando bem utilizadas, se tornar ferramentas bastante poderosas para o aprendizado e o sucesso. O problema não é a existência desses hábitos, mas a forma equivocada como se interpreta a função que eles cumprem.

Duas dessas características, ser muito sensível a críticas e conviver com um monólogo interno constante de autodúvida, costumam ser vistas como negativas. Ainda assim, quando analisadas sob uma perspectiva psicológica, fica claro que cada uma delas representa uma força secreta. Veja como, segundo as pesquisas.

1. O hábito de ser “sensível demais”

Uma característica que carrega grande estigma silencioso é ser “sensível demais” (thin-skinned). Isso significa ser especialmente suscetível a críticas e costuma ser interpretado como falta de força ou de capacidade de lidar com pressão. Essa característica não combina bem com ambientes que valorizam assertividade e decisões rápidas, pois alguém que demonstra vulnerabilidade à crítica tende a ser visto como menos competente.

Do ponto de vista psicológico, porém, a sensibilidade à crítica não é necessariamente uma reação emocional, mas uma forma de detecção aprimorada de feedback.

Um estudo de 2025 sobre sensibilidade à rejeição constatou que algumas pessoas são mais atentas a sinais negativos no ambiente, como mudanças de tom ou desaprovação. Essa sensibilidade negativa pode ser desagradável em certos momentos, mas também fornece informações mais precoces e específicas sobre falhas de desempenho ou desalinhamento.

A sensibilidade a feedback negativo é considerada um fator preditivo de melhoria, especialmente em contextos de aprendizagem. Um estudo de 2019 mostrou que indivíduos mais emocional ou cognitivamente envolvidos com feedback tendem a mudar mais rapidamente. Eles abandonam estratégias ineficazes mais cedo ou ajustam expectativas de forma mais precisa.

Isso não significa que pessoas sensíveis sejam superiores por sentirem mais. O benefício vem do efeito dessa sensibilidade ampliada. O desconforto emocional funciona, essencialmente, como um amplificador de sinais. Para pessoas altamente sensíveis, esse desconforto aumenta a atenção dada a erros que outros poderiam racionalizar ou simplesmente ignorar.

Pense em profissões que envolvem melhoria contínua, como escrita, design ou liderança. Nesses campos, o sucesso raramente está em acertar de primeira. Ele depende de perceber quando algo não está funcionando e fazer ajustes pequenos, porém significativos.

Nesse sentido, pessoas menos sensíveis à crítica podem parecer mais confiantes, mas também estão mais sujeitas a repetir erros. Isso acontece porque tendem a seguir caminhos que já não funcionam, descartando rapidamente o feedback recebido.

Já pessoas sensíveis pagam, em geral, um custo emocional maior logo no início. Embora a crítica doa mais, ela lhes oferece algo valioso: acesso à informação. Isso costuma resultar em maior autoconhecimento e, ao longo do tempo, em melhor calibragem e menos repetição de erros.

Ainda assim, sensibilidade sem regulação não é um ativo. A sensibilidade crônica à ameaça pode prejudicar o desempenho, especialmente quando o incômodo emocional se transforma em um julgamento global sobre si mesmo, em vez de dados relacionados à tarefa. O benefício só aparece quando a sensibilidade vem acompanhada da capacidade de processar a informação e seguir em frente, sem fixação.

Em outras palavras, o ponto central de ter “pele fina” não é estar constantemente ferido, mas perceber impactos rapidamente. Quando bem administrada, essa habilidade pode impulsionar o aprendizado.

2. O Hábito da Autodúvida

Enquanto a sensibilidade excessiva indica maior vulnerabilidade ao feedback externo, a autodúvida persistente revela vulnerabilidade à avaliação interna. E poucas características são tão condenadas ou desencorajadas em situações sociais quanto essa.

Confiança costuma ser associada à competência, especialmente em ambientes sociais. Seguindo essa lógica, a autodúvida pode ser interpretada como insegurança ou, nos piores casos, como prova de incompetência. Pessoas que questionam o mérito de suas decisões são frequentemente incentivadas a confiar mais em si mesmas, ouvir menos a voz interna e projetar segurança, mesmo quando não têm certeza.

Um estudo de 2024 sobre metacognição (a capacidade de avaliar o próprio pensamento) mostrou que pessoas que questionam regularmente suas conclusões tendem a ser mais precisas ao longo do tempo. Isso ocorre porque são menos propensas ao excesso de confiança e mais inclinadas a buscar informação, mantendo-se abertas a rever crenças diante de dados que as contradizem.

Essa conclusão é reforçada por pesquisas em neurociência sobre monitoramento de erros. Pessoas que apresentam sinais neurais mais fortes relacionados a erros costumam identificar falhas mais rapidamente e corrigir o rumo com mais eficiência. Esses sinais estão intimamente ligados a padrões de pensamento autocrítico, justamente aqueles que muitos são incentivados a eliminar.

A autodúvida persistente, quando focada no aspecto cognitivo e não na fixação emocional, preserva a cautela das crenças e evita os riscos de conclusões precipitadas. Isso é especialmente importante em áreas onde os resultados são incertos ou demoram a aparecer, como ciência, medicina, empreendedorismo ou arte.

A verdadeira força da autodúvida, portanto, não está em minar a confiança, mas em manter a humildade epistêmica. Pessoas que frequentemente duvidam de si mesmas tendem a ensaiar decisões, testar ideias sob estresse e considerar possíveis falhas. Com isso, tornam-se mais receptivas a correções.

Isso ajuda a explicar um achado contraintuitivo observado em diversas áreas: profissionais de alto desempenho frequentemente relatam menor confiança subjetiva do que seus pares. Eles enxergam mais riscos, percebem lacunas no próprio conhecimento e, por isso, se preparam com mais rigor.

O risco, claro, é a paralisia. A autodúvida se torna disfuncional quando se desconecta da ação. Quando o questionamento substitui o engajamento, em vez de aprimorá-lo, surge um tipo de estagnação. A dúvida produtiva impulsiona checagens, ajustes e melhorias; a improdutiva gira em ciclos sem resolução. A diferença não está na presença da dúvida, mas na função que ela exerce.

Por que esses “maus hábitos” funcionam

Juntas, a sensibilidade excessiva e a autodúvida persistente descrevem um perfil psicológico comum: sensibilidade elevada. Um hábito sintoniza o indivíduo com sinais externos; o outro aprimora o monitoramento interno.

Perceber mais, sentir mais e questionar mais pode ser emocionalmente exaustivo. Ainda assim, trata-se de uma força psicológica potente em contextos cheios de nuances e em que as consequências só aparecem depois.

O sucesso, especialmente em ambientes baseados em conhecimento, raramente é concedido a quem se sente mais forte. Ele costuma favorecer quem aceita a vulnerabilidade pelo tempo necessário para aprender mais rápido do que os outros.

O objetivo não é cultivar fragilidade ou exaltar a insegurança, mas compreender que aquilo que parece fraqueza à primeira vista pode, nas circunstâncias certas, se tornar uma ferramenta de precisão.

*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.

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