Marcio Kogan e seu filho Gabriel compartilham a paixão pela arquitetura

Victor Affaro
Marcio e Gabriel Kogan, no Studio mk27, em São Paulo

Quando Marcio Kogan nasceu, no começo da década de 1950, surgiam também, pelas mãos de seu pai, o engenheiro Aron Kogan, os primeiros arranha-céus da cidade de São Paulo (um deles, o Edifício Mirante do Vale, preservou o título de prédio mais alto do Brasil até 2014). “Minhas lembranças mais vivas com meu pai [Aron faleceu quando Marcio tinha 8 anos] eram ir às obras e visitar as lajes – que eram todas abertas e davam muito medo”, conta Marcio, em uma tarde chuvosa no seu Studio mk27, escritório fundado no fim dos anos 1970 nos Jardins. Apesar de crescer sem a presença física do pai, ele viveu até os 30 anos em uma obra de sua autoria, uma casa de caráter ultramodernista: “Ela era muito parecida com a Villa Arpel, do filme ‘Meu Tio’, do francês Jacques Tati. Era um lugar extremamente tecnológico para a época. Eu brinco que o Tati copiou minha casa.”

A CASA QUASE CAIU

“Com dez anos de formado, fiquei desesperado: eu tinha toda a instrumentação para fazer um trabalho melhor, mas não tinha um cliente que me proporcionasse isso, o que criava um círculo vicioso”, lembra Marcio. Na sequência, filosofa: “Muitas vezes, acontecimentos randômicos são capazes de reverter uma situação”. E foi o que aconteceu com ele no início dos anos 2000: “Comecei a fazer obras com mais relevância. Uma delas foi a casa Gama Issa, premiada dentro e fora do país, além de ser finalista do World Architecture Award, em Berlim. Depois disso vieram a loja Uma do Shopping Higienópolis, um museu em São Paulo… É coisa do destino. Me formei querendo trabalhar com habitação social e a vida foi me levando para esse outro caminho”, analisa. Desde 2001, seu escritório recebeu mais de 250 prêmios, entre os mais recentes o Prix Versailles e o IAB SP.

LEIA MAIS: Conheça a vinícola Chateau La Coste, em Provença, um paraíso de arte e arquitetura

“Todo projeto sai da prancheta com nota sete; o cliente é quem decide se vai ser quatro ou dez. Ele tem esse poder”, diz Marcio Kogan

Mesmo com todas as conquistas, Marcio, que é conhecido por seu perfeccionismo, considera que em todos os projetos “sai um pouco de sangue”: “Na hora de fazer, é preciso ter a paciência de estudar muito, se dedicar totalmente. Depois vem a realização, que também é penosa. E, é claro, tem o cliente, que pode te jogar para cima ou para baixo – costumo dizer que todo projeto sai da prancheta com nota sete; o cliente é quem decide se vai ser quatro ou dez. Ele tem esse poder”.

E LA NAVE VA

Fascinado pelo cinema autoral de Federico Fellini (1920-1993), Marcio flertou com a sétima arte: “Houve um tempo em que eu não sabia se ia ser cineasta ou arquiteto, mesmo já formado em arquitetura. E depois de fazer o longa “Fogo e Paixão” [de 1988], junto com [o arquiteto] Isay Weinfeld, defini minha carreira. Não gostei do filme, acabou o dinheiro e fiquei seis meses fora da minha profissão, voltei para a estaca zero”, lembra. “No fundo, foi bom. O cinema me trouxe elementos que entram na arquitetura, como as proporções alongadas, a importância da luz e o trabalho em equipe”.

Victor Affaro
O escritório de Marcio Kogan recebeu mais de 250 prêmios desde 2001

Com 67 anos e “casado” com a capital paulista, de onde “não pensa em se mudar nunca”, Marcio também se casou com a artista Raquel Kogan. Dessa união nasceu Gabriel, hoje com 35 anos. Gabriel lembra como a profissão dos pais influenciou sua vida: “As viagens com meus pais giravam em torno da arquitetura. Eu ia para a Disney para ver prédios. Uma criança fazer ‘arquiturismo’ é meio bizarro, não?”, diverte-se.

Para o pai coruja, “a arquitetura veio de forma natural para Gabriel”: “Ele tem um olhar muito melhor que o meu na idade dele, uma visão apurada que se reflete nos projetos. Além disso, é muito estudioso”. Apesar de ter seguido esse “caminho natural”, à semelhança do pai, Gabriel também teve seus momentos de dúvida em relação à carreira. “No começo, eu não queria estudar arquitetura. Por algum tempo, pensei em fazer jornalismo. Também quis estudar história. Por fim, acabei entrando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Trabalhei com Paulo Mendes da Rocha e depois vim para o Studio mk27”, conta Gabriel, que paralelamente se desenvolveu como pesquisador, teórico e professor (acaba de iniciar um mestrado na USP sobre as relações entre as arquiteturas japonesa e brasileira).

Victor Affaro
Gabriel Kogan divide seu tempo entre projetos, aulas e pesquisas

Coincidentemente, a “segunda cidade no mundo” de seu pai é Tóquio: “Em dezembro, fui pela sexta vez. É meu destino de férias de fim de ano. Na primeira vez que cheguei lá, me senti descendo de uma espaçonave em um planeta onde ninguém te entende – mas no fim tudo se encaixa, tudo dá certo. E você fica encantado pela civilização, pela sofisticação e pela educação do povo japonês”.

Marcio Kogan é membro honorário do AIA (American Institute of Architects) e professor da Escola da Cidade, em São Paulo, e do Politecnico di Milano. Uma carreira construída com pedras, suor e um pouco de sangue.

Veja, na galeria de fotos abaixo, obras projetadas por Marcio e Gabriel Kogan:

  • Casa Redux foi assinada por Marcio Kogan e Samanta Cafardo. Projeto Casa Redux: Diana Radomysler, Beatriz Meyer, Carlos Costa, Laura Guedes, Mariana Ruzante, Mariana Simas, Oswaldo Pessano, Suzana Glogowski, Henrique Bustamante

  • micasa Vol. C foi assinada por Marcio Kogan e Marcio Tanaka, ganhadora do Prix Versailles 2019. Projeto micasa Vol. C: Carlos Costa, Diana Radomysler, Laura Guedes, Mariana Simas, Oswaldo Pessano e Tamara Lichtenstein

  • Casa na Mata foi assinada por Marcio Kogan e Samanta Cafardo

  • Projeto Casa na Mata: Diana Radomysler, Carlos Costa, Eline Ostyn, Laura Guedes, Mariana Ruzante, Mariana Simas, Oswaldo Pessano e Fernanda Neiva

  • Projeto da lanchonete do Z Deli, no centro de SP, assinado por Gabriel Kogan e Guilherme Pianca

Casa Redux foi assinada por Marcio Kogan e Samanta Cafardo. Projeto Casa Redux: Diana Radomysler, Beatriz Meyer, Carlos Costa, Laura Guedes, Mariana Ruzante, Mariana Simas, Oswaldo Pessano, Suzana Glogowski, Henrique Bustamante

Reportagem publicada na edição 75, lançada em março de 2020

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Inscreva-se no Canal Forbes Pitch, no Telegram, para saber tudo sobre empreendedorismo.

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil ([email protected]).