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Bill Gates Diz Ter Considerado Relação com Epstein “Aceitável” Apesar de Condenação em 2008, Afirmam Democratas

Gates participou de uma entrevista transcrita perante o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA

9 min

O bilionário Bill Gates disse ao Congresso nesta quarta-feira (10) que considerava “aceitável” fazer negócios com Jeffrey Epstein na época em que os dois mantiveram relações profissionais, mesmo após a condenação do financista por crimes sexuais em 2008. A informação foi repassada por parlamentares democratas a jornalistas, em meio ao aumento do escrutínio sobre a relação entre o cofundador da Microsoft e o financista falecido.

Gates participou de uma entrevista transcrita perante o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

O depoimento ocorreu a portas fechadas e não foi gravado em vídeo, embora a transcrição deva ser divulgada publicamente. Além disso, a Fundação Gates também realiza sua própria apuração sobre o bilionário, que, segundo relatos, ainda está em andamento.

Em sua declaração de abertura, o empresário afirmou ao Congresso que “nunca presenciou nem teve qualquer indicação de que Epstein estivesse envolvido em atividades criminosas em andamento” e disse estar “profundamente arrependido” por ter conferido mais credibilidade a Epstein por meio da associação entre os dois. Ele também expressou arrependimento pelos negócios realizados com o financista e afirmou que “jamais deveria ter se reunido com Epstein em primeiro lugar”.

Gates nunca foi acusado de qualquer irregularidade relacionada ao condenado, mas manteve uma longa relação profissional com ele. O magnata encontrou com Epstein diversas vezes entre 2011 e 2014 para discutir planos de criação de um fundo patrimonial, projeto que acabou não sendo concretizado.

O bilionário já classificou sua relação com Epstein como “um enorme erro” e confirmou ter tido casos extraconjugais com mulheres que eram conhecidas pelo financista. No entanto, seu escritório negou acusações feitas por Epstein nos chamados “arquivos Epstein”, classificando-as como “absolutamente absurdas”.

Entre elas, estavam alegações de que Gates usava drogas, participava de “encontros ilícitos”, contraiu uma doença sexualmente transmissível e, posteriormente, teria fornecido antibióticos de forma “furtiva” à então esposa, Melinda French Gates.

O presidente do Comitê de Supervisão da Câmara, o deputado republicano James Comer, afirmou aos jornalistas que os parlamentares perguntariam a Gates: “O que ele viu? Sabia do que estava acontecendo? Esteve envolvido em algo disso?”. Ele ressaltou, porém, que “ninguém está acusando Bill Gates de qualquer irregularidade”.

Parlamentares democratas relataram, durante uma pausa na sessão de perguntas desta quarta (10), que Gates admitiu saber da condenação de Epstein em 2008 por solicitação de prostituição, mas mesmo assim fez negócios com ele para obter ajuda na captação de recursos. Segundo a deputada Melanie Stansbury, Gates testemunhou que “via essa relação limitada como um meio aceitável de acessar doadores ricos”.

O que aconteceu durante o depoimento de Gates?

Democratas disseram que Gates declarou não ter presenciado qualquer abuso quando esteve com Epstein e que não conheceu nenhuma mulher por intermédio dele. Ainda assim, admitiu ter mantido contato com o financista mesmo sabendo que ele era um criminoso sexual registrado e que havia se declarado culpado de crimes.

Segundo Stansbury, Gates afirmou que “acreditava que conseguir bilhões de dólares para a saúde global valia a pena”.

Os parlamentares também relataram que Gates citou pessoas que ocupavam “posições-chave” e que ajudaram Epstein a influenciá-lo. Além disso, voltou a negar as acusações mais graves presentes nos arquivos Epstein, alegando que o financista costumava enviar e-mails para si próprio e “escrever coisas que não eram verdade”.

Os congressistas apresentaram versões diferentes sobre a postura de Gates durante o depoimento. O deputado Raja Krishnamoorthi afirmou que o bilionário foi “um pouco combativo” e “não tão franco e transparente quanto poderia ser”. Outros, porém, o descreveram como colaborativo e disposto a responder às perguntas.

“Qualquer testemunha, ocasionalmente, será um pouco combativa”, disse o deputado Robert Garcia ao comentar a divergência. Segundo ele, Gates contestou algumas perguntas, mas “está respondendo”.

Declaração de abertura de Gates sobre Epstein

“Senhor presidente, membro de maior hierarquia da minoria, membros do Comitê,

Obrigado pela oportunidade de comparecer perante vocês hoje.

Estou aqui para responder às perguntas sobre minhas interações com Jeffrey Epstein e contribuir para o importante trabalho deste Comitê. Apoio a divulgação de todos os arquivos Epstein e sinceramente espero que, por meio dos esforços de vocês e de outros defensores dessa causa, os sobreviventes dos crimes de Epstein possam obter a justiça que merecem.

Antes de tudo, quero afirmar de forma muito clara: nunca presenciei nem tive qualquer indicação de que Epstein estivesse envolvido em atividades criminosas em andamento. Nunca fui à sua ilha, ao seu rancho ou à sua residência na Flórida. Nunca vitimizei ninguém. Embora ele possa ter tentado desenvolver uma relação pessoal comigo, eu nunca tive interesse nisso e jamais correspondi.

Fui apresentado a Epstein em 2011 por pessoas em quem confiava no âmbito do meu trabalho profissional e filantrópico. Epstein alegava que poderia arrecadar bilhões de dólares para a saúde global junto a pessoas para as quais prestava serviços tributários e de planejamento sucessório. Eu sabia que ele havia enfrentado problemas legais anteriormente, mas não compreendia plenamente a dimensão dos crimes que havia cometido. Aceitei essa apresentação sem realizar a análise cuidadosa que deveria ter feito.

Durante quase duas décadas, meu foco em tempo integral foi a saúde global e a educação. Sempre fui guiado pela crença de que todas as vidas têm igual valor e de que toda criança deve ter a oportunidade de viver uma vida saudável, independentemente de onde tenha nascido. Dediquei meus recursos e meu tempo a essa missão, mas minha riqueza, sozinha, não consegue preencher a enorme lacuna de financiamento que ainda existe. Por isso, incentivar outras pessoas de grande patrimônio a investir em saúde global tornou-se um elemento tão importante do meu trabalho.

Minhas interações com Epstein começaram com um número limitado de reuniões preliminares — três em 2011 e duas em 2012 — durante as quais conversei sobre os objetivos do meu trabalho. Passamos a ter discussões mais extensas em 2013 e 2014. Essas conversas tinham como foco identificar possíveis estruturas de doação, como fundos orientados por doadores, e maneiras de envolver pessoas que ele afirmava estar interessadas em fazer contribuições significativas. Desde o início, deixei claro que Epstein jamais teria qualquer papel nesses projetos nem receberia compensação financeira.

Em 2014, depois que Epstein reuniu um grupo que descreveu como potenciais doadores, percebi que as discussões anteriores — que deveriam ter se transformado em apoio filantrópico relevante — não levariam a lugar algum. Ficou claro que ninguém naquele grupo tinha interesse suficiente para avançar. Naquele momento, concluí que Epstein jamais cumpriria suas promessas. Informei que não seguiríamos adiante e interrompi toda comunicação e reuniões com ele. Nenhuma estrutura de doação foi criada e nenhum recurso foi arrecadado. Nossas interações terminaram em dezembro de 2014, quatro anos antes de novas reportagens e documentos judiciais revelarem a extensão de seus crimes.

Foi nesse mesmo período que um funcionário estava deixando meu escritório privado. Esse colaborador contratou Epstein para negociar e assessorá-lo nos termos de sua saída. Eu não pedi — nem queria ou precisava — que Epstein participasse desse assunto. Ainda assim, sua participação resultou em trocas de e-mails, telefonemas e reuniões com membros da minha equipe e comigo. No entanto, o acordo final não foi diferente daquele que já havia sido definido meses antes de Epstein se envolver.

Foi depois disso que descobri que Epstein havia tomado conhecimento de informações sensíveis sobre minha vida pessoal, incluindo o fato de eu ter sido infiel no meu casamento. Esses relacionamentos extraconjugais não tinham qualquer relação com minhas interações com Epstein, mas foram dolorosos para minha família.

Como o público pode ver agora, com base nos documentos divulgados, Epstein tentou usar informações sobre minhas infidelidades — além de diversas mentiras que acrescentou à narrativa — para me pressionar a retomar o contato com ele. Não teve sucesso, mas isso mostra algumas das maneiras pelas quais procurou explorar nossas interações para promover seus próprios interesses.

Eu jamais deveria ter me encontrado com Epstein. Com o que sei hoje, entendo que, mesmo que ele tivesse apresentado os novos doadores que prometia, isso não justificaria qualquer associação com ele.

Hoje percebo que ele buscava construir uma imagem de legitimidade para si próprio, utilizando conexões com pessoas respeitadas e influentes para afastar suspeitas e tentar reconstruir sua reputação. Eu estava tão concentrado na possibilidade de captar recursos para a saúde global que permiti que esse objetivo se sobrepusesse ao meu bom senso. Essa é uma constatação dura e reforçou para mim a importância de estar mais atento à forma como acesso e reputação podem ser manipulados por pessoas agindo de má-fé.

No trabalho que realizo, a reputação é a base para desenvolver parcerias que salvam vidas. Encontrar-me com Epstein foi um grave erro de julgamento e colocou esse trabalho em risco. Seu comportamento era incompatível com todos os meus esforços para contribuir para um mundo em que todos tenham a oportunidade de viver uma vida saudável e produtiva. Se o tempo que passei com Epstein lhe conferiu alguma credibilidade, lamento profundamente.

Aprendi uma lição importante e hoje sou muito mais cuidadoso em relação às pessoas com quem me relaciono, mesmo que de forma limitada.

Estou à disposição para responder a todas as perguntas sobre minhas interações com Epstein e sobre os temas apontados no convite do presidente deste Comitê.

O trabalho deste Comitê é essencial. Espero sinceramente que aqueles que foram prejudicados pelos crimes de Epstein recebam a justiça que merecem.

Obrigado.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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