Costumo perguntar a investidores adultos quais são seus valores em relação ao dinheiro. Quase sempre, os valores, os medos e os hábitos dessas pessoas têm origem na forma como o tema era tratado dentro de casa durante a infância. Alguns dos hábitos que encontro são bastante saudáveis, mas, com frequência, os investidores precisam de ajuda para ajustá-los de modo que estejam alinhados aos seus objetivos financeiros.
Sinceramente, é muito mais fácil ensinar bons hábitos desde o início do que reaprender e corrigir comportamentos mais tarde. Veja como ensinar hábitos financeiros saudáveis a crianças pequenas, entre cinco e doze anos.
Incentive a Curiosidade Sobre Questões Financeiras
Normalmente, as crianças começam a perceber a existência do dinheiro entre os cinco e os oito anos de idade e passam a fazer perguntas como: “Por que precisamos de dinheiro?” ou “De onde vem o nosso dinheiro?”. Em vez de dizer para elas não se preocuparem com isso ou evitar a conversa, tente perguntar o que elas próprias acham.
Depois que a criança tentar encontrar uma resposta por conta própria, você pode dar uma explicação honesta, sem julgamentos.
Uma abordagem como essa transmite a mensagem de que é seguro recorrer a você para tirar dúvidas sobre dinheiro e de que o assunto não precisa ser tratado como um tabu.
Transforme o Orçamento e a Poupança em Algo Divertido
Quando comecei a compreender melhor o que era dinheiro, recebia semanalmente uma mesada em espécie equivalente, aproximadamente, ao valor do almoço escolar. Por tarefas extras, cuidar de crianças ou tomar conta dos cães dos vizinhos, eu ganhava uma quantia adicional que podia usar para compras de lazer ou para guardar para o futuro.
Era um dinheiro sobre o qual eu tinha total autonomia. Se quisesse comprar um brinquedo ou um jogo, precisava juntar os recursos necessários, o que me ajudou a entender o valor do tempo e do esforço dedicados ao trabalho.
Na era dos pagamentos digitais, percebo que muitos pais abandonaram a prática de dar mesada em dinheiro e passaram simplesmente a pagar tudo o que os filhos querem ou precisam. Embora o dinheiro em espécie já não tenha a mesma relevância de antes, existem outras formas de ensinar as mesmas lições que aprendi na infância.
Você pode utilizar um aplicativo voltado para crianças ou registrar o saldo digital delas em algum local visível, como um quadro branco, para que consigam acompanhar facilmente quanto possuem, sem precisar de um celular ou acesso a uma conta bancária. Nesse caso, você atuaria como uma espécie de banco, intermediando as compras.
Dê o Exemplo
Se você tem hábitos financeiros inadequados, mesmo que ache que seu filho não esteja prestando atenção, isso pode influenciar a forma como ele enxerga o dinheiro.
Quando encontro investidores que não acumularam uma poupança significativa para a aposentadoria, frequentemente descubro que seus pais também não davam muita importância ao planejamento para essa fase da vida. Eles costumam dizer coisas como: “Quero trabalhar para sempre”, “Provavelmente vou morrer jovem” ou “Meu pai ainda trabalha, então provavelmente também estarei trabalhando nessa idade”.
Em vez disso, procure demonstrar bons hábitos. Mostre que você pensa no seu próprio futuro para incentivá-los a pensar no deles.
Quando surgir a oportunidade, explique que uma parte do seu salário é destinada a investimentos, seguros, aposentadoria, impostos e pagamento de dívidas antes de ser utilizada em gastos de lazer ou compras por prazer.
Converse Sobre o Que Eles Observam no Mundo
Você não é a única influência na vida de uma criança. Ela pode ouvir diferentes mensagens na mídia que consome, com professores, amigos e outros familiares.
Imagine que um amigo ofereça um lanche ou um presente ao seu filho e comente que sua família é rica. Isso pode gerar entusiasmo pelo gesto recebido, mas também dúvidas sobre o que significa ser rico.
Mais uma vez, comece pela curiosidade. Pergunte como a situação o fez sentir e o que ele acredita que significa ser rico. Se a criança achar que riqueza é simplesmente possuir mais coisas, essa é uma oportunidade para ampliar sua visão.
Enfatize que a quantidade de dinheiro não torna uma família melhor do que outra e que existem muitas formas de riqueza. É possível ser rico em tempo, amor, felicidade e atividades que proporcionam satisfação.
Essa também pode ser uma maneira delicada de abordar comparações e incentivar uma relação mais saudável com o dinheiro.
Evite transmitir seus próprios julgamentos ou preconceitos sobre a outra criança. Você pode simplesmente dizer que foi gentil da parte dela compartilhar algo e que o mais importante é a forma como tratamos as pessoas.
E, se a situação tiver deixado seu filho desconfortável, isso pode abrir espaço para uma conversa sobre limites pessoais.
Por fim, reforce os valores da sua própria família. Se a generosidade é um valor importante, compartilhe isso. Mas, se naquele momento economizar e gastar com sabedoria for algo prioritário para vocês, explique também essa perspectiva.
Evite Levar Problemas Financeiros de Adultos para Dentro de Casa
Algumas situações relacionadas ao dinheiro podem causar grande sofrimento emocional ao longo da vida. Familiares idosos podem precisar de cuidados permanentes pagos, você pode realizar um investimento elevado que acaba perdendo todo o valor, uma herança pode gerar conflitos entre parentes ou um divórcio pode resultar em uma divisão de bens ou no pagamento de pensão que pareça injusto.
Quando algo desse tipo acontece, é fácil ficar completamente absorvido pelo problema.
Por isso, é essencial não levar essas questões financeiras de adultos para crianças pequenas. Elas provavelmente não compreenderão a situação e podem acabar associando o dinheiro a sentimentos de medo, ressentimento ou raiva.
Hábitos financeiros saudáveis são construídos por meio de momentos cotidianos, conversas e exemplos práticos. Ao manter uma postura aberta, intencional e guiada por valores, você oferece ao seu filho as ferramentas necessárias para desenvolver uma relação segura, equilibrada e consciente com o dinheiro ao longo da vida.
Matéria originalmente publicada em Forbes.com