O mercado de trabalho dos Estados Unidos voltou a mostrar força em agosto e afastou, ao menos por enquanto, os temores de uma deterioração mais intensa da maior economia do mundo. Foram criadas 162 mil vagas de trabalho fora do setor agrícola no mês, resultado muito acima das projeções. O resultado pode devolver à inflação o papel de principal variável para a decisão de juros do Federal Reserve (Fed) em setembro.
Segundo o relatório de emprego divulgado nesta sexta-feira (4) pelo Escritório de Estatísticas do Trabalho (BLS), a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%. O resultado do payroll superou com ampla margem as estimativas do mercado, que apontavam para a abertura de cerca de 50 mil a 56 mil postos.
A surpresa ganha ainda mais relevância após a fraqueza observada nos meses anteriores. O dado de julho foi revisado de uma perda de 23 mil postos para a criação de 21 mil, enquanto junho passou de 20 mil para 31 mil vagas. Juntas, as revisões acrescentaram 55 mil empregos aos números divulgados anteriormente.
“A surpresa positiva do payroll em agosto, somada à estabilidade da taxa de desemprego em patamar baixo, retira o risco de deterioração do mercado de trabalho trazido pelos dados de junho e julho. Para o Fed, o relatório confirma que o mercado de trabalho não oferece riscos no momento, reforçando o foco nos dados de inflação”, avalia Andressa Durão, economista do ASA.
Ou seja, os números de agosto sugerem uma economia que continua capaz de gerar empregos, mesmo sob condições financeiras restritivas. Para o Fed, a força do mercado de trabalho reduz a preocupação com uma possível desaceleração da economia. Na avaliação dos economistas, o Federal Reserve deixou claro que uma surpresa significativa nos próximos indicadores de preços poderia alterar o cálculo da política monetária.
“O resultado surpreendeu o mercado e mostra que o mercado de trabalho americano continua sólido, sem sinais claros de enfraquecimento”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
O movimento
A composição do payroll ajuda a explicar a recuperação registrada em agosto. Serviços de alimentação e bares lideraram a geração de empregos, com 59 mil novas vagas, muito acima da média mensal de 12 mil observada nos 12 meses anteriores.
A educação dos governos locais adicionou outros 42 mil postos e praticamente compensou a queda registrada no mês anterior. A indústria de transformação também avançou, com a criação de 16 mil empregos.
O movimento, contudo, não foi uniforme. O setor de informação eliminou 23 mil postos, com perdas concentradas em atividades ligadas à infraestrutura computacional, processamento de dados, hospedagem na web, publicação e radiodifusão de conteúdo.
Andressa Durão destaca que o número de agosto reverteu parte da fraqueza dos meses anteriores. Com as revisões, a média móvel trimestral da geração de empregos avançou de 38 mil em julho para 71 mil em agosto. “O número forte no mês foi principalmente puxado por uma recuperação do segmento Lazer e Hotelaria, depois de dois meses em queda, e do emprego público”, afirma.
No setor privado, a média móvel da criação de vagas acelerou de 53 mil para 75 mil, permanecendo acima da faixa considerada neutra pela economista.
Por que o desemprego não caiu?
Apesar da criação de 162 mil postos, a taxa de desemprego continuou em 4,1%. Além disso, a taxa de participação na força de trabalho aumentou para 61,6%.
Em outras palavras, mais pessoas passaram a procurar emprego ou ingressaram no mercado, ampliando a oferta de trabalhadores e impedindo que a forte criação de vagas se traduzisse imediatamente em queda do desemprego.
Para Andressa Durão, a combinação entre geração de vagas e maior participação é relevante porque interrompe uma tendência observada desde o início do ano, quando a taxa de participação vinha recuando.
E o salário?
Se a quantidade de empregos surpreendeu para cima, os salários apresentaram um quadro mais moderado — elemento relevante para o Fed. O ganho médio por hora avançou 0,3% em agosto, em linha com as expectativas. Em 12 meses, a alta foi de 3,1%, ligeiramente superior à projeção de 3%, mas abaixo dos 3,2% registrados anteriormente.
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, trata-se do menor ritmo anual de crescimento salarial desde maio de 2021. A desaceleração dos salários funciona como um contraponto à força do payroll. Um mercado de trabalho capaz de gerar empregos sem produzir uma nova aceleração expressiva das remunerações seria, em princípio, uma combinação mais confortável para o Fed.
“Os salários seguem acomodados e mantendo trajetória descendente, acumulando alta nos últimos 12 meses de 3,1%, menor ritmo desde maio de 2021″, aponta Valério.
Fed entra na reta final para decidir os juros
Antes da divulgação do payroll, os investidores haviam reduzido as apostas em uma nova alta dos juros americanos. O movimento ganhou força depois que Christopher Waller, diretor do Fed, afirmou na quinta-feira (3), durante um evento da Reuters, que estaria inclinado a defender a manutenção das taxas caso os próximos indicadores confirmassem uma redução das pressões inflacionárias.
A probabilidade atribuída pelo mercado a uma alta dos juros na reunião de setembro havia recuado para aproximadamente 52%, ante 63,2% na quarta-feira (2), segundo a ferramenta FedWatch, da CME. O payroll, no entanto, acrescenta uma nova peça ao quebra-cabeça.
A reação inicial dos mercados, com valorização do dólar e alta dos rendimentos dos Treasuries, refletiu a percepção de que a resistência do emprego dá ao Fed mais espaço para manter uma postura dura contra a inflação.
Para Kayo, da Nomad, a resposta dos ativos mostra que os investidores passaram a dar mais peso à possibilidade de aperto monetário. Com o mercado de trabalho sólido, diminui o contrapeso que uma desaceleração da atividade poderia representar na decisão do banco central.
Valério, do Inter, concorda. “Nesse momento, os dados de mercado de trabalho perdem relevância e, como as estatísticas têm sugerido nos últimos meses, o mercado de trabalho americano não sugere a necessidade de alta de juros, tampouco de redução de juros.”
A atenção dos investidores se desloca agora para os próximos dados de preços dos Estados Unidos. As leituras de inflação ao consumidor e ao produtor serão fundamentais para determinar se o payroll forte será suficiente para inclinar a balança em direção a juros mais altos.
Juros altos já atingem a economia real
A incerteza sobre inflação e política monetária tem pressionado os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, elevando o custo do crédito para famílias e empresas.
Um dos efeitos mais visíveis aparece no mercado imobiliário. A taxa média das hipotecas de 30 anos ultrapassou 6,71% nesta semana, alcançando o maior nível em mais de um ano, segundo dados da Freddie Mac.
O encarecimento do financiamento ameaça impor uma pressão adicional sobre um setor imobiliário que já enfrenta dificuldades. Quanto mais tempo os rendimentos dos Treasuries permanecerem elevados, maior tende a ser a transmissão da política monetária para hipotecas, crédito corporativo e demais modalidades de financiamento.