O presidente-executivo do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou nesta sexta-feira que observa uma pressão na inadimplência e no crédito no sistema financeiro no país, mas ressaltou que está seguro com as linhas do banco.
“Eu vejo um horizonte de maior pressão de crédito, de custo de crédito, de índices de inadimplência um pouco maiores, mas eu tenho a segurança de que a nossa carteira é uma carteira muito mais controlada do que o mercado”, afirmou o CEO em coletiva à imprensa, um dia após a divulgação do balanço do terceiro trimestre, com lucro líquido recorrente de R$7,1 bilhões, alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado, em linha com as previsões no mercado.
No final de setembro, a carteira de crédito do Bradesco somou R$1,15 trilhão, aumento de 11,1% ano a ano, enquanto o índice de inadimplência acima de 90 dias no terceiro trimestre ficou em 4,6%, de 4,1% um ano antes. O custo do crédito, representado pela despesa de provisões (PDD) expandida, cresceu 24,3%, a R$10,6 bilhões. Dados do Banco Central mostraram que a inadimplência no segmento de recursos livres no país chegou a 6,6% em agosto.
O diretor de relações com investidores do Bradesco, André Carvalho, destacou o crescimento do banco na carteira de grandes empresas (+14,8% ano a ano), citando o foco em clientes com bons ratings, enquanto na pessoa física o banco tem crescido em linhas com garantias, como consignado, veículos e imobiliário, enquanto, no cartão de crédito, tem se concentrado na alta renda.
“Olhando para frente, onde é que vamos crescer mais carteira de crédito? Consignado é um candidato forte de crescimento. Veículo é outro. Ou seja, a nossa direção está muito bem definida”, acrescentou, reforçando que, dado o cenário macro desafiador, o foco do banco está voltado para linhas com garantias.
O banco continuou no terceiro trimestre com expansão da carteira de crédito acima do topo do guidance para o ano, de expansão de 8,5% a 10,5%. “Isso prova que temos tração comercial, capacidade comercial, e nós crescemos onde (o banco) se propôs a crescer”, afirmou, reforçando que a instituição não quer crescer em crédito pessoal sem garantia, por exemplo.
Noronha ressaltou, contudo, que o Bradesco não está fora do mercado brasileiro e comparou o movimento do banco a um barco a vela. “Com o vento de popa, você vai mais rápido, ele te empurra numa determinada velocidade. Agora, se você pegar o vento de proa, aí você vai mais devagar”.
Ele destacou que, em um cenário macro com comprometimento de renda maior e, obviamente, endividamento maior das próprias empresas com o nível atual da taxa de juros, o banco tem mais cautela, anda mais devagar.
“Se tivesse o vento de popa, economia com crescimento maior e a taxa de juros abaixo de 10%…(o banco) poderia estar crescendo 20% a carteira de crédito e entregando um lucro líquido talvez R$400 milhões, R$500 milhões a mais…porque teria crescido mais no ‘top line’ (receita).. Mas isso está fora do nosso controle.”
Apesar do ambiente desafiador, o CEO afirmou que espera um quarto trimestre melhor para a margem bruta do banco, ressaltando que o desempenho da margem líquida no terceiro trimestre foi afetado pelo aumento do custo do crédito. No terceiro trimestre, a margem financeira bruta do banco cresceu 14,2%, para R$21,4 bilhões. A margem líquida mostrou acréscimo de 5,7%, para R$10,7 bilhões.
Ele também ressaltou que, embora o banco não tenha ainda umguidance para o lucro de 2027, “deve continuar crescendo”, visto a expectativa de expansão de receitas. “Eu trabalho com expectativa de crescimento, sim”, reforçou.
Na bolsa paulista, por volta de 11h05, as ações preferenciais do banco recuavam 2%, enquanto o Ibovespa, referência do mercado acionário brasileiro, subia 0,1%.
“Embora o Bradesco continue entregando ganhos de eficiência, acreditamos que a qualidade dos ativos permanece sendo o principal ponto de debate para a ação”, afirmaram analistas do Citi em relatório após a divulgação do balanço. “A contínua deterioração dos indicadores de crédito em um ambiente macroeconômico cada vez mais desafiador levanta dúvidas sobre o quanto a qualidade dos ativos ainda pode piorar e quais serão as implicações para os lucros de 2027.”
“Por outro lado, a administração continua executando bem a agenda de custos, com um controle disciplinado das despesas contribuindo para o crescimento dos resultados no trimestre”, ressaltaram Gustavo Schroden e Arnon Shirazi.
AGRO AINDA PRESSIONADO
O Bradesco atribuiu parte do aumento da inadimplência do banco a atrasos sazonais nas operações do Banco John Deere, que pressionaram os indicadores de pessoas físicas. O índice de inadimplência acima de 90 dias na pessoa física ficou em 5,8% no terceiro trimestre, de 5,5% em junho e 5,4% um ano antes.
“O ambiente agro de uma forma geral, ele se deteriorou. E nós vimos isso também no nosso portfólio, tanto que reduzimos o apetite a riscopara pessoa física, pequena e média empresa, mas para grande, não. Aqueles que têm bons ratings, que estão indo bem, a gente continua operando”, afirmou.
Noronha afirmou que, neste momento, há empresas, agricultores e culturas que estão sofrendo um pouco mais, regiões que sofrem um pouco mais, mas que ele tem uma perspectiva positiva para o setor ao longo do tempo, ressaltando a “altíssima produtividade” do setor no país. “É uma questão de tempo para virar esse jogo”, acrescentou.