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Brasileiro no MIT lidera iniciativa que troca emissões de CO2 por oxigênio na metalurgia

Tadeu Carneiro é CEO da Boston Metal, companhia nascida dentro do MIT e responsável pela produção do aço verde

7 min
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DivulgaçãoTadeu Carneiro é CEO da Boston Metal, companhia nascida dentro do MIT e responsável pela produção do aço verde

Do seu escritório em Woburn, em Massachusetts, Tadeu Carneiro, 61 anos, lidera uma iniciativa ousada: diminuir a emissão de dióxido de carbono na indústria pesada. O brasileiro de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, é CEO desde 2017 da Boston Metal, empresa nascida dentro do MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, responsável pelo desenvolvimento comercial do que pode vir a ser uma revolução na manufatura global, com consequente impacto para cadeias produtivas e balanças comerciais de inúmeros países. O produto: o aço verde, que em sua produção lança oxigênio na atmosfera ao invés de CO2, uma novidade no processo de fabricação do aço feito há mais de 2 mil anos da mesma maneira e responsável, sozinho, por pelo menos 8% das emissões globais de gás carbônico.

O impacto da tecnologia desenvolvida pela Boston foi o motivo para o engenheiro recém aposentado da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), de malas prontas para morar na praia e dar reforço de matemática para crianças em comunidades carentes, redirecionar seus planos em semanas e embarcar para uma das regiões com clima mais frio dos EUA, mas efervescente do ponto de vista tecnológico: “para mudar o curso e vir para a Boston Metal precisava ser uma coisa grande, você não vai mudar o curso para melhorar 5% ou 10%, é só se for para fazer a diferença mesmo”, conta Carneiro.

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A jovem companhia já reúne um “sindicato de investidores invejável”, nas palavras do executivo, e tem entre os seus apoiadores nomes como a Breakthrough Energy Ventures, fundo do bilionário Bill Gates, a Fidelity Investimentos, o OGCI (Oil and Gas Climate Initiative), a brasileira Vale, entre muitos outros players de energia e siderurgia. Assim como em outros setores, a indústria do aço lida com forte e contínua pressão por descarbonização, contexto que favorece a expansão de iniciativas que, além de atender à demanda por produções menos agressivas ao meio ambiente, também podem oferecer competitividade em um setor que convive com volatilidade e margens sob constante pressão.

Com didática e entusiasmo, Carneiro falou em entrevista exclusiva à Forbes sobre a Molten Oxide Electrolysis (MOE) – tecnologia utilizada na produção do aço pela Boston Metal. Uma ideia que não é nova, mas aplicá-la à fabricação de aço é uma inovação patenteada pelo MIT – e trabalho da Boston Metal para mudar a história da metalurgia.

Da Nasa ao Metal

O primeiro financiamento para a pesquisa desenvolvida nos laboratórios do professor Donald R. Sadoway veio da Nasa, interessada na produção de oxigênio para manter seus astronautas na lua por mais tempo. A ideia, que atualmente é revisitada por pesquisadores e instituições, permitia o uso de anodos nobres para a produção de oxigênio, algo inviável na indústria do aço que precisa de competitividade para fazer frente ao carvão.

“Na lua tudo é caro, não importa o preço, mas para fabricar aço você tem que ser competitivo, então tinha que ser um anodo que fizesse o processo ser competitivo, você não pode usar irídio, platina, daí a importância de ter inventado esse anodo inerte”, explica Carneiro sobre a tecnologia.

Através da eletrólise de óxido fundido, os pesquisadores demonstraram ser possível a fabricação em laboratório de uma ampla gama de metais. Em 2017, já participando do projeto, Carneiro incentivou que a Boston deixasse de testar a produção de diferentes sistemas metálicos e partisse para o aço. O desafio era convencer uma indústria conservadora e que há séculos produz o material da mesma forma, a investir em uma tecnologia ainda em desenvolvimento.

Apesar do interesse do setor, o impulso para as operações da Boston veio de fundos voltados à descarbonização do planeta. A primeira rodada de financiamento trouxe quatro investidores e foi liderada pelo Breakthrough Energy Ventures, de Bil Gates, captando US$ 25 milhões, ante estimativa de US$ 18 milhões. Dois anos depois, em janeiro deste ano, foi realizada a rodada Series B, que além dos quatro primeiros investidores, trouxe nomes como Piva Capital, Fidelity, BMW i Ventures, BHP Ventures, Vale, entre outros fundos e consórcios que reúnem grandes empresas globais. Com dez investidores, a captação alvo de US$ 50 milhões foi superada para US$ 60 milhões, permitindo as operações da Boston até o fim de 2023.

A eletrólise, que permite a substituição do carvão por eletricidade na produção de aço, abre portas também para o uso de minérios mais pobres, algo valioso e que tem chamado a atenção de inúmeros players do setor. “Se você tiver eletricidade na mina, traz a célula [para mina] e solta o metálico. Ao invés de transportar minério de ferro, transporta o metálico… você revoluciona completamente a indústria do aço”, explica Carneiro.

Entre os players que já discutem parcerias com a Boston Metal estão gigantes como a indiana Jindal, a Arcelormittal, além das brasileiras CSN e Usiminas.

Próximo milestone

O próximo marco perseguido pela equipe da Boston, que saiu de oito profissionais em 2017 para projeção de somar 100 pessoas na equipe até o fim deste ano, é rodar a planta-piloto usando minério de ferro e a tecnologia do anodo inerte em maior escala, objetivo que deve ser conquistado até o início de 2023.

Na sequência, os esforços devem ser direcionados para tirar do papel a primeira célula industrial da companhia, que irá demandar energia elétrica abundante, confiável, barata e, principalmente, verde. Entre os interessados em receber a planta da Boston estão a cidade de Quebec, no Canadá, além de duas candidatas nos Estados Unidos. Na América Latina, Carneiro não descarta uma célula próxima a uma mina da Vale aliada à produção de energia verde presente no Norte brasileiro.

Os critérios para a instalação das células da Boston são essenciais para a competitividade da companhia. “Nós somos competitivos com o aço tradicional, sem a necessidade de taxa de carbono, se o preço da eletricidade for o mesmo pago na produção de alumínio, que é abaixo de US$ 35 por megawatts/hora. Então, abaixo de US$ 0,035 por kilowatt/hora nós somos competitivos, explica o executivo que após 40 anos de carreira tem a oportunidade de ressignificar uma indústria. “Eu me sinto rejuvenescido fazendo parte desse grupo fantástico, de 60 carinhas com fogo no olho, querendo mudar o mundo e escrever o novo livro da metalurgia. Fazer parte disso é um privilégio.”

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