A Reforma Tributária deve mudar a rotina dos escritórios de contabilidade e aproximar os contadores da operação diária das empresas. A avaliação é de Marcondes de Borba, vice-presidente de Tax and Accounting Professionals da Thomson Reuters, empresa que conecta mais de 250 mil contadores no Brasil.
Segundo o executivo, o contador deixará de atuar principalmente como um back office, responsável por fechar o mês, calcular impostos, enviar guias e transmitir informações ao governo. Com a transição para o novo sistema, ele terá de acompanhar mais de perto a emissão de notas fiscais, a classificação dos produtos, o cálculo dos tributos e o aproveitamento de créditos.
“Hoje o contador funciona como um back office, em que ele atende as PMEs, apura os impostos no final do mês, manda a guia para o cliente pagar e depois envia as informações para o governo”, afirmou Borba à Forbes . “Com a reforma, o que muda radicalmente para eles é a forma de trabalhar.”
Na prática, o split payment, ou pagamento dividido, funciona como uma separação automática dos tributos no momento em que uma transação financeira é liquidada. Quando o cliente paga por um produto ou serviço, o sistema identifica a parcela correspondente ao IBS e à CBS, direciona esse valor ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal e libera ao fornecedor apenas o saldo. Para isso, o pagamento precisa estar vinculado à nota fiscal eletrônica da operação.
Na avaliação do executivo, o modelo de split payment exigirá uma participação mais ativa dos escritórios na operação dos clientes. A nova regra não significa necessariamente que o imposto será pago no momento da emissão da nota. O recolhimento ocorre quando o pagamento é processado e pode acompanhar cada parcela, no caso de uma compra parcelada. É essa conexão entre a nota fiscal, o pagamento e o cálculo dos tributos que, na avaliação de Marcondes de Borba, exigirá uma participação maior dos escritórios de contabilidade. O contador terá de verificar se a tributação aplicada em cada nota está correta e se a empresa está utilizando adequadamente os créditos previstos no novo sistema.
“O maior impacto que a gente vê é nesse operacional dele: como ele vai estar olhando nota por nota que o cliente está emitindo para ver se está correto, se está apurando os impostos corretos e se está se aproveitando dos créditos de forma correta”, disse.
A mudança deve ocorrer ao mesmo tempo em que os escritórios terão de lidar com regras antigas e novas. Durante o período de transição, o contador precisará acompanhar a convivência entre o sistema atual e o novo modelo tributário, o que deve aumentar a complexidade da operação.
“Ele vai ganhar mais valor, mas também vai ganhar uma sobrecarga muito maior”, afirmou Mariana Sartori, gerente de produto da Thomson Reuters. Segundo ela, a tecnologia será necessária para ajudar os escritórios a lidar com os dois sistemas e reduzir o trabalho operacional.
Para Borba, a Reforma Tributária também deve dar mais visibilidade ao trabalho do contador dentro das empresas. Atividades que hoje são realizadas nos bastidores dos escritórios passarão a influenciar diretamente a formação de preços, o fluxo de caixa e as decisões comerciais dos clientes.
“O que o contador faz hoje lá escondido vai ganhar evidência, vai ganhar visibilidade”, disse. “Essa é uma mudança de paradigma muito grande.”
A Thomson Reuters começou a disponibilizar recursos relacionados à Reforma Tributária desde 2024. Entre as ferramentas estão simuladores para estimar mudanças na carga tributária, planejadores tributários, recursos de formação de preços e relatórios para apoiar decisões dos clientes.
A companhia também lançou a apuração assistida, que permite ao contador acompanhar as operações do cliente e verificar se a tributação aplicada está adequada. A proposta é identificar eventuais erros durante o processo, antes que eles se transformem em problemas fiscais.
Na semana passada, durante o SYNERGY 2026, a Thomson Reuters deu mais um passo e lançou o Domínio BPO, que reúne em um único ambiente ferramentas para gestão de benefícios, emissão de notas fiscais e entregas digitais. A empresa também apresentou o Domínio AI, ferramenta de inteligência artificial para o mercado contábil, treinada com bases proprietárias e sem uso dos dados de um cliente para gerar respostas a outros usuários.
Como a IA vai transformar a rotina dos contadores
Para Borba, a inteligência artificial terá maior impacto quando estiver conectada aos sistemas que já concentram os dados das empresas. O uso de ferramentas genéricas e desconectadas da operação, segundo ele, reduz a precisão e pode aumentar o risco de respostas incorretas.
“Eu acho que as pessoas estão usando ferramentas muito desconexas da jornada delas”, afirmou. “Muita coisa desconexa, não nativa, não gera muito valor.”
A expectativa é que a IA automatize tarefas repetitivas e análises operacionais, permitindo que o contador dedique mais tempo à orientação estratégica dos clientes. Nesse papel, o profissional poderia identificar problemas de fluxo de caixa, endividamento, formação de preços e carga tributária.
“O que a IA vai fazer com o setor contábil é levar o contador para o lugar dele, que é o lugar da análise”, disse Borba.
Segundo estudo Future of Professionals, apresentado pela Thomson Reuters, 41% das empresas do setor tributário veem a inteligência artificial como uma forma de ampliar a atuação dos especialistas e a oferta de serviços consultivos. Outros 43% priorizam a tecnologia para ganhar escala e produtividade.
Apesar do avanço, Borba afirma que o mercado ainda está no início da adoção da IA. Para ele, poucas empresas conseguiram conectar a tecnologia aos sistemas e às bases de dados utilizadas pelos contadores.
“Eu acho que tem pouco ganho ainda. Muito poucas empresas fizeram coisas conectadas, como a gente está lançando agora”, afirmou. “Agora eu acho que a aceleração vai ser muito grande.”
A segurança dos dados é outra preocupação relevante para o setor. Os escritórios lidam com informações fiscais, trabalhistas e financeiras de empresas e funcionários, o que torna mais sensível o uso de ferramentas externas. Por isso, há “por natureza”, diz ele um conservadorismo maior.
Para o executivo, a Reforma Tributária deve acelerar a digitalização do setor e mudar a percepção sobre o papel desses profissionais nas pequenas e médias empresas.