O Dia dos Namorados tem o poder de deixar o clima de romance no ar — até mesmo nos corredores da empresa. Mas, antes de agir com base nos sentimentos por um colega de trabalho, a atitude mais inteligente é dar um passo trás.
Embora os relacionamentos no ambiente corporativo sejam comuns, eles carregam riscos inesperados que muitos só percebem quando é tarde demais. As consequências podem envolver crises de reputação, denúncias, demissões e até mesmo alterar o rumo de uma carreira.
Mais comuns do que parecem
Relacionamentos amorosos no escritório acontecem na maioria das empresas. Dados da plataforma global de carreira Zety indicam que 79% dos profissionais afirmam já ter vivido um romance duradouro no trabalho, e 15% confessam ter tido mais de um. Outros levantamentos corroboram a tendência: a Resume Genius, plataforma de criação de currículos, aponta que 39% dos trabalhadores já namoraram um colega, enquanto a Monster, site global de recrutamento, indica que 53% já tiveram uma “quedinha” por alguém da equipe.
Era de se esperar que o trabalho remoto reduziria essa probabilidade, já que as equipes estariam fisicamente distantes. No entanto, a realidade demonstra o oposto: 86% dos entrevistados pela Zety acreditam que trabalhar fora do escritório, na verdade, facilita as conexões românticas. A informalidade do meio digital, com chamadas de vídeo que revelam a intimidade do lar e as conversas frequentes no chat criam uma atmosfera casual que encoraja o salto da vida profissional para a pessoal.
Seja no formato remoto ou presencial, buscar conexões é natural. Para muitos profissionais com agendas lotadas, os colegas de trabalho são as pessoas com quem mais convivem, superando o tempo que passam com amigos e familiares. O escritório acaba se tornando um dos poucos lugares para conhecer alguém fora dos aplicativos de namoro.
Contudo, esse flerte pode sair caro. Muitos já conhecem os riscos clássicos: denúncias de assédio caso uma das partes se sinta pressionada, o clima insustentável após um término ou punições severas caso a política da empresa proíba envolvimentos amorosos. Mas há perigos silenciosos que precisam entrar nessa conta.
Neste Dia dos Namorados, veja 5 riscos de um romance no trabalho
1. Confundir simpatia com flerte
Há uma grande chance de que aquele flerte no cafezinho não seja genuíno. Cerca de 90% dos entrevistados pela Zety admitiram que flertam apenas para progredir na carreira ou obter algum favoritismo. E a prática dá resultados para alguns: 69% afirmam já ter presenciado privilégios inadequados ligados a relacionamentos no ambiente de trabalho. Em outras palavras, é preciso cautela para não ser usado como degrau corporativo.
Pesquisas também alertam para erros de interpretação, especialmente por parte dos homens, que tendem a confundir simpatia com interesse romântico mais frequentemente do que as mulheres. Em um ambiente onde colaboração e empatia são habilidades exigidas, saber distinguir o coleguismo caloroso da atração real é ainda mais importante.
2. Perder promoções ou o próprio emprego
Enquanto alguns romances terminam sem turbulências, outros geram impactos pesados. Quase um terço (28%) dos entrevistados da Resume Genius relatou que o romance causou distrações, prejudicando o desempenho.
Mas o buraco pode ser mais embaixo. Um estudo da SHRM (Society for Human Resource Management) mostrou que um em cada cinco profissionais americanos envolvidos em romances no escritório sofreu impactos negativos na carreira, como perda de promoções. As repercussões são ainda mais graves quando envolvem hierarquia (chefes e subordinados), o que fere diretamente o compliance da maioria das organizações.
Os desfechos, muitas vezes, resultam na saída do trabalho: 29% das pessoas que viveram um romance no escritório precisaram pedir demissão devido ao relacionamento, e 22% afirmaram ter sido demitidas por causa dele.
3. Não sustentar o sigilo
Muitos casais que trabalham em uma mesma empresa começam a se envolver acreditando que podem manter o relacionamento em segredo. Segundo a SHRM, 82% dos envolvidos esconderam o romance de seus empregadores. Quando a empresa proíbe essas relações, o sigilo parece a única saída, mas raramente é sustentável.
De mensagens acidentais a conversas ouvidas nos corredores, a verdade sempre escapa. Colegas podem estar atentos aos sinais, especialmente se suspeitarem de favoritismo. Lembre-se do caso que viralizou em um show da banda Coldplay, em 2025, quando a “câmera do beijo” flagrou um CEO e a diretora de RH da mesma empresa abraçados na plateia.
4. Cair nas armadilhas digitais
Ferramentas de comunicação corporativa, como Teams e Slack, trouxeram novos riscos. Quase 80% dos profissionais que já se relacionaram com colegas de trabalho admitem ter enviado acidentalmente uma mensagem íntima para o colega errado ou para um grupo da empresa. Dependendo do conteúdo, um único clique equivocado é suficiente para incendiar as fofocas no escritório e destruir reputações construídas ao longo de anos.
5. Superestimar o peso do cargo
Ironicamente, pesquisadores de universidades americanas descobriram que executivos seniores são mais abertos a romances no trabalho do que funcionários juniores. No entanto, o peso do cargo não os protege das consequências. O incidente no show do Coldplay não é um caso isolado: na última década, dezenas de CEOs de grandes empresas perderam seus postos devido a envolvimentos amorosos no trabalho.
No final do ano passado, o então CEO da Nestlé foi demitido por manter um relacionamento amoroso com uma subordinada, violando o código de conduta da companhia. É mais comum do que parece. Pesquisas mostram que CEOs têm mais chances de serem demitidos por transgressões pessoais do que por fraudes financeiras.
Segundo especialistas, o melhor a se fazer é manter o profissionalismo no ambiente de trabalho e deixar os relacionamentos amorosos para fora do escritório.
*Kim Elsesser é colaboradora sênior da Forbes USA. Ela é especialista em vieses inconscientes de gênero e professora de gênero na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles).
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com