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Ex-Executiva da Meta Usa IA para Solucionar a Crise de Empregos da Geração Z

Clara Shih fundou a New Work Foundation para ajudar jovens a construírem carreiras usando a inteligência artificial, em vez de serem substituídos por ela

9 min

Em agosto de 2025, Clara Shih trabalhava como chefe de inteligência artificial para negócios na Meta quando ela e sua equipe criaram um agente de IA para empresas que respondia às perguntas dos clientes, lembrava de suas preferências e até oferecia descontos em produtos para fechar uma venda.

A ferramenta, segundo Shih, foi rapidamente adotada por proprietários de empresas, que descobriram que ela ajudava a manter os consumidores engajados e otimizava seu processo de vendas.

“Era tudo o que você poderia querer quando se é um desenvolvedor na área de tecnologia”, relembra Shih, hoje com 44 anos, que foi homenageada na lista Forbes 30 Under 30 em 2012 como cofundadora e CEO da plataforma de engajamento de clientes Hearsay Systems. Ela se tornou CEO da Salesforce AI em 2023, antes de se transferir para a Meta no ano seguinte. A Hearsay foi adquirida pela plataforma digital Yext em 2024.

Mas o feedback dos empreendedores que utilizavam a nova ferramenta da Meta também abriu os olhos de Shih para o impacto real — e potencialmente negativo — que a IA poderia ter. “O retorno que recebemos das empresas que usavam nosso software foi de que elas não precisavam mais de suas equipes”, diz ela. “Não sabíamos se chorávamos ou comemorávamos, porque desejávamos isso há muito tempo e, no entanto, quando alcançamos nosso objetivo, começamos a perceber quais eram as implicações.”

Os problemas dos recém-formados da Geração Z

Na mesma época, Shih também ouvia histórias de familiares mais jovens e recém-formados sobre como estavam lutando para encontrar trabalho e como alguns até tiveram ofertas de emprego revogadas. “Comecei a investigar mais esse problema e o que descobri me alarmou”, relata. “Estamos em uma crise de desemprego juvenil.”

De acordo com o Federal Reserve Bank de Nova York, 5,6% dos recém-formados nos EUA entre 22 e 27 anos estão desempregados e 41,5% estão subempregados. Isso significa, segundo Shih, que quase metade dos graduados em faculdades americanas está sem emprego ou trabalhando em cargos onde suas habilidades são subutilizadas.

“São jovens inteligentes, talentosos e ambiciosos que deveriam ter empregos remunerados, mas, devido ao que está acontecendo com a IA automatizando tarefas de nível inicial, eles estão sendo subutilizados”, afirma. “Isso não apenas os prejudica, mas também prejudica nossa sociedade, porque esta é a nossa base tributária e eleitoral para o futuro.”

O nascimento da New Work Foundation

O desejo de Shih de resolver essa lacuna de empregos para os jovens a levou a deixar seu trabalho na Meta e lançar a New Work Foundation em abril de 2026, tendo o empresário Andrew Yang — que concorreu como candidato azarão nas primárias presidenciais democratas de 2020 nos EUA — como conselheiro fundador.

O que começou como uma organização autofinanciada é hoje uma instituição sem fins lucrativos onde as pessoas podem fazer doações para a missão de equipar jovens profissionais com as ferramentas, informações e habilidades necessárias para navegar em uma economia que está sendo remodelada pela IA.

“O primeiro problema que queremos resolver é essa lacuna de informações entre as pessoas que trabalham com IA e todos os demais”, diz Shih. “Acredito que, se os jovens estiverem informados, eles farão a coisa certa, mas, no momento, não têm certeza no que acreditar e não sabem ao certo o que fazer.”

Fechando a lacuna de informações

Até agora, a New Work Foundation está construindo três pilares para fechar a lacuna de informações.

O primeiro e mais básico é uma plataforma de mídia e dados chamada “dear [CC]” (ou querida [CC] em português), com o “CC” representando o apelido de Shih e sendo a abreviação de career coach (treinadora de carreira). Isso inclui todo o conteúdo educacional da fundação, que atualmente consiste em seu podcast e vídeos curtos no Instagram, TikTok e YouTube.

“Queremos alcançar os jovens onde eles passam o tempo e analisar função por função em todos os empregos de nível inicial mais comuns em áreas como marketing, vendas, engenharia de software e contabilidade, desmistificando o que está acontecendo com esses empregos em decorrência da IA”, diz Shih.

“Esses empregos não vão desaparecer, mas estão mudando e exigem habilidades específicas em IA. Por isso, estamos entrevistando gerentes de contratação e profissionais da Geração Z que ficaram na busca por emprego por seis meses ou mais, mas que recentemente encontraram trabalho e compartilham suas dicas e truques com seus colegas.”

O segundo pilar é o que a New Work Foundation chama de “Field Report” (relatório de campo), que Shih descreve como um “explorador de empregos em IA”. Com ele, jovens profissionais podem inserir sua área de estudo e a ferramenta de IA analisará o número de vagas de nível inicial nesse campo para ver se está aumentando ou diminuindo em relação ao ano anterior.

A ferramenta também examinará as tendências gerais de contratação nessa área para medir sua exposição à IA e usará dados da Agência de Estatísticas do Trabalho dos EUA para mostrar o salário médio inicial naquele setor.

“Queremos que os jovens tenham dados ao tomar decisões sobre qual curso superior fazer, quais estágios priorizar e para quais empregos se candidatar”, afirma Shih.

O terceiro — e potencialmente mais útil — pilar da fundação, conhecido como JobClaw, é fundamental para conectar jovens às oportunidades que procuram, “fechando a lacuna entre onde eles estão hoje e o emprego que desejam”, explica Shih.

A ferramenta, que está em fase beta e sendo testada por um grupo de profissionais da Geração Z, permite que o indivíduo cole as descrições dos últimos empregos para os quais se candidatou, mas não conseguiu.

O agente de IA então se conecta ao perfil do LinkedIn da pessoa e fornece feedback sobre o treinamento em IA ou as habilidades que ela pode precisar, bem como qualquer experiência de trabalho que possa estar faltando para que seja contratável para a vaga.

Por exemplo, Shih diz que se a pessoa precisar de mais experiência no mundo real, a ferramenta pode sugerir uma organização sem fins lucrativos específica na qual ela possa atuar como voluntária ou estagiária para obter essa vivência.

“Estamos tentando criar esse mercado onde possamos conectar os candidatos da Geração Z com oportunidades”, explica Shih. “Sempre que alguém tiver um anúncio de emprego, estágio ou programa de aprendizagem, queremos incluí-lo em nosso índice para podermos fazer o cruzamento de dados e recomendar que um jovem vá atrás disso.”

A crise da incompatibilidade de empregos

No atual mercado de trabalho de baixas contratações, onde o crescimento do emprego é desigual entre os setores, Shih reconhece que o trabalho da New Work Foundation vai além de apenas ajudar membros individuais da Geração Z a navegar em uma economia remodelada pela IA.

Trata-se também de enfrentar o problema sistêmico mais amplo do agravamento da incompatibilidade entre as vagas que estão crescendo e as habilidades e localização dos profissionais que podem preenchê-las.

“Acho que há três problemas que precisamos abordar”, diz ela. “O primeiro é que, se você observar os números agregados, esses empregos estão sendo criados em setores como lazer, hospitalidade e saúde. Não é onde todo mundo está se formando. Se você se forma em contabilidade, não pode de repente se tornar um enfermeiro.”

O segundo problema, afirma ela, é que muitas das vagas atuais são para candidatos com experiência, o que deixa os jovens escanteados. “Se você está se formando agora, aos 22 anos, não tem experiência”, diz. “É como aquele problema do ovo e da galinha onde, para ser contratado, você precisa ter experiência. Mas se você está tentando ganhar experiência, não consegue porque não é contratado em primeiro lugar.” Essa lacuna, diz Shih, é algo que sua fundação está comprometida a solucionar com a plataforma JobClaw.

O terceiro aspecto do problema da incompatibilidade, que Shih sabe ser uma realidade fora de seu controle, é que algumas empresas deixam anúncios de vagas abertos sem a intenção de preenchê-los, porque sabem que os investidores estão de olho. Isso é algo que, segundo ela, os jovens devem ter em mente ao se candidatarem a uma vaga atrás da outra sem receberem resposta. Em alguns casos, não é que tenham sido rejeitados — a vaga simplesmente não existe de fato.

Escalando para eficiência

Como alguém com mais de uma década de experiência em tecnologia e em expansão de negócios, Shih diz que seu maior desafio para garantir que a New Work Foundation seja eficaz na criação de mudanças é “não se deixar sobrecarregar pela escala do problema”.

“Estamos adotando a abordagem de uma startup de tecnologia”, afirma — o que significa que sua organização está testando suas ofertas para ver quais têm o maior impacto. “Estamos recebendo feedback, iterando muito rapidamente e queremos alcançar o product-market fit (adequação do produto ao mercado) para então escalar essa iniciativa.”

Shih diz que gostaria que mais líderes também adotassem uma “abordagem ágil de startup” quando se trata de resolver alguns dos maiores desafios da IA.

“Acho que isso é mais um apelo à ação, pedindo ideias, ajuda, doações e que as pessoas criem seus próprios experimentos com outras ideias”, diz. “Acredito que, como sociedade, precisamos dos nossos melhores pensadores nisso, porque se fizermos da forma certa, isso pode desbloquear uma prosperidade sem precedentes para todos. Mas, no ritmo atual, parece que a IA poderá exacerbar a desigualdade e a polarização na nossa sociedade se não tomarmos alguma atitude.”

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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