O mercado brasileiro de private equity e venture capital vive um compasso de espera. “Os aumentos salariais registrados de dois anos para cá foram bastante discretos, não superaram a inflação”, afirma Filippe Apolo, sócio e fundador da consultoria Fox Human Capital, especializada em recrutamento de lideranças.
Os reajustes dos salários-base deste ano ficaram entre 3% e 6% em relação ao anterior. No entanto, os pacotes de remuneração total (que combinam salário fixo e bônus) seguem como um diferencial para atrair e reter profissionais capazes de gerar valor para as gestoras.
A remuneração total de um managing director em um fundo internacional de private equity com operação no Brasil, por exemplo, chega a R$ 5,04 milhões, de acordo com o Guia Salarial PE&VC 2026, elaborado pela Fox PE&VC, vertical da Fox Human Capital especializada em mercados privados no país.
Os pacotes se tornam mais competitivos graças aos incentivos de longo prazo. “O salário fixo é uma parte representativa, mas o bônus tem um impacto quase equivalente em termos totais”, afirma Artur de Castro Frischenbruder, managing partner da Evermonte Executive & Board Search, empresa de recrutamento executivo. Frischenbruder ressalta, ainda, o peso do carried interest, que garante ao profissional uma fatia dos ganhos gerados pelos investimentos bem-sucedidos.
O levantamento da consultoria, realizado com mais de 500 profissionais do mercado no primeiro trimestre deste ano, também aponta que a mediana salarial em gestoras estrangeiras é até 47% superior à observada nas casas nacionais. A diferença salarial se explica pelo fator cambial e pela política de padronização global. “As empresas normalmente padronizam os salários mundialmente para que não haja nenhum tipo de defasagem. Obrigatoriamente, precisam ter uma estrutura de cargos e de compensation igual à matriz”, explica Apolo.
Quanto ganham os profissionais de private equity e venture capital
Os dados também evidenciam diferenças de remuneração entre as modalidades de investimento. O private equity — que compra participações em companhias maduras e movimenta cheques maiores — paga significativamente mais do que o venture capital, que concentra seus investimentos em startups.
A seguir, veja a remuneração anual por cargo nas duas áreas, considerando o teto da remuneração total (salário fixo e bônus):
Managing director
- Private Equity Internacional: R$ 5.040.000
- Private Equity Nacional: R$ 4.095.000
- Venture Capital: R$ 3.150.000
Associate
- Private Equity Internacional: R$ 1.470.000
- Private Equity Nacional: R$ 903.000
- Venture Capital: R$ 840.000
Analista 1
- Private Equity Internacional: R$ 504.000
- Private Equity Nacional: R$ 393.750
- Venture Capital: R$ 351.750
Altos salários, alta pressão
No mercado financeiro, a remuneração elevada tem um custo: jornadas extensas e uma rotina de alta pressão. “O trabalho é marcado por dias de atividade muito intensos, exigindo que o profissional lide constantemente com uma altíssima carga horária e volume de trabalho”, diz Frischenbruder. Segundo Apolo, as jornadas diárias mínimas costumam ser de 10-12 horas, podendo a chegar a 14-16 sazonalmente em algumas formas de private equity.
“Um clube de sete, oito, às vezes 15 pessoas é responsável por gerar retornos bilionários para os seus investidores. Então, essa pessoa vale muito. É muito difícil de encontrar e acessar esse tipo de talento”, afirma Apolo.
O cenário dos mercados privados no Brasil
Apesar da atratividade financeira, o mercado brasileiro opera em uma temperatura bem mais amena que a efervescência vista nos Estados Unidos, na Europa e no recém-aquecido ecossistema da Arábia Saudita. O freio de mão atende pelo nome de taxa de juros.
“No Brasil, o prêmio por deixar o dinheiro parado no banco é consideravelmente maior do que em países como os EUA e a China, o que desestimula investimentos de risco”, afirma Frischenbruder. Para que as contratações voltem a acelerar, a Selic precisa ceder. Segundo Apolo, um recuo da taxa dos atuais patamares para a casa dos 7% ou 8% já seria suficiente para tirar os investidores do conforto da renda fixa. No entanto, as projeções do mercado financeiro coletadas pelo Banco Central e divulgadas no Boletim Focus da última semana indicam que a taxa básica de juros deve se manter em dois dígitos até pelo menos 2029.
Mesmo com o cenário restritivo em ambos, o capital continua circulando com força em nichos específicos, como infraestrutura e reestruturações complexas. “O segmento de infraestrutura é um dos mais aquecidos, impulsionado pela demanda em áreas como energia, saneamento, logística e conectividade”, diz o fundador da Fox Human Capital. “Os fundos especializados em special situations também ampliam sua participação diante do ambiente de juros elevados e da maior sofisticação do mercado brasileiro de ativos alternativos.”
IA já impacta as equipes
Para além do cenário macroeconômico, a inteligência artificial já modifica a própria estrutura de trabalho das gestoras. Apolo aponta o surgimento de uma nova cadeira nos fundos, o Deal Dev: um profissional que foge do perfil financeiro tradicional e possui base de desenvolvedor de software.
“Ele conhece todo o fluxo do negócio, da prospecção ao fechamento do contrato, mas a novidade é que ele utiliza ferramentas de IA para fazer o que um estagiário, que um analista fazia”, diz o executivo. O movimento, que começou no venture capital, já avança para os times de private equity.
Novos perfis no setor de private equity e venture capital
Além da habilidade com a tecnologia, que passa a ser cada vez mais exigida dentro das gestoras, os profissionais ainda precisam de alguns requisitos para entrar no setor, como formação acadêmica em universidades renomadas, fluência em inglês e domínio de finanças corporativas.
Segundo Apolo, as melhores universidades brasileiras para entrar no setor são Insper, Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), FGV (Fundação Getulio Vargas), PUC (Pontifícia Universidade Católica), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Fora do Brasil, as queridinhas fazem parte da Ivy League: Wharton, Harvard, Yale, Columbia e Cornell. “As carreiras que mais ‘produzem’ bons candidatos são as exatas: engenharias, economia e administração e, em menor escala, direito”, diz.
Contudo, o levantamento da consultoria indica que o gênio das planilhas já não reina absoluto. As gestoras agora buscam profissionais com capacidade de execução e facilidade para circular, se comunicar e entender o dia a dia da operação. “Não é mais só aquele perfil nerd clássico. Ele precisa ter habilidade analítica, mas se comunicar muito bem”, afirma Apolo. “Quem sabe fazer conta e lida bem com pessoas não é trivial de ser encontrado.”
Frischenbruder ressalta que as gestoras procuram perfis organizados, responsáveis e disciplinados na busca por resultados. “O atributo que de fato se destaca e prevê a alta performance futura é a conscienciosidade”, diz.