O medo de que a inteligência artificial elimine milhões de empregos já domina as discussões sobre o futuro do trabalho. No entanto, para Paul Osterman, professor emérito de estudos de trabalho e organização do MIT, a IA é apenas o agravante de uma mudança estrutural que já está em curso: a tendência dos profissionais “descartáveis”.
“Eles realizam o trabalho para as organizações, mas as organizações não assumem nenhum compromisso com eles”, diz Osterman em entrevista à Forbes.
Em seu livro “Disposable Workers: The Transformation of Employment” (Trabalhadores Descartáveis: A Transformação do Emprego), lançado neste ano, ele mapeia como as empresas estão cada vez menos comprometidas com suas equipes.
Segundo pesquisas conduzidas pelo professor com mais de 6.000 pessoas, 35% da força de trabalho atual já se enquadra na categoria de “profissionais descartáveis”. Elas se dividem em três grupos principais: terceirizados, freelancers e profissionais formalmente contratados, mas sem perspectiva de ascensão ou integração real ao negócio. “São professores adjuntos ou advogados associados que fazem o trabalho pesado, mas nunca chegarão a se tornar sócios”, exemplifica.
A lógica do descarte de profissionais
Para as empresas, a adoção dos “profissionais descartáveis” é uma decisão econômica. Um relatório da McKinsey aponta que 95% do valor de uma organização é gerado por apenas 5% de seus talentos.
Essa visão de focar e investir apenas no “núcleo essencial” do negócio motiva decisões polêmicas. No início deste ano, por exemplo, a Deloitte cortou licenças-maternidade e paternidade, além de auxílios familiares, para profissionais das áreas de suporte (administrativo, TI e financeiro), mantendo os benefícios de longo prazo apenas para cargos estratégicos.
Esses empregos de suporte são os alvos principais da inteligência artificial. “O aumento de profissionais descartáveis não é causado pela IA, mas será agravado por ela, devido à incerteza sobre quais habilidades as empresas realmente precisarão no futuro”, explica Osterman.
Diante de um cenário imprevisível, torna-se financeiramente mais atrativo manter contratos flexíveis e evitar custos fixos com planos de saúde e benefícios. “Não falo sobre a extinção geral de vagas, mas sobre a proporção entre funcionários regulares e descartáveis. A IA vai piorar muito essa balança.”
O impacto imediato recai sobre quem está começando. É mais fácil frear a contratação de talentos juniores do que demitir colaboradores estabelecidos. Além disso, a precarização cobra um preço invisível das empresas: um impacto no engajamento e no clima organizacional daqueles que permanecem no quadro fixo.
Como sobreviver ao futuro do trabalho
Osterman oferece dois conselhos para quem busca relevância e segurança no trabalho. O primeiro é aprimorar suas habilidades. Mesmo que o mercado exija que você mude de empresa com frequência, ser dono de competências difíceis de substituir garante seu poder de negociação.
O segundo é construir redes de contatos externas para não ficar dependente de uma única empresa para construir sua carreira. “Em um mercado de trabalho incerto, é vital ter uma ampla rede de pessoas a quem recorrer ao buscar ajuda com oportunidades e indicações.”
Para a base da pirâmide (trabalhos operacionais e com salários mais baixos), a dinâmica, no entanto, exige mais do que esforço individual. “Busquem o máximo de qualificação possível, mas, no limite, essa é uma questão de políticas públicas”, ressalta. “Precisamos de programas eficazes de treinamento profissional, salários mínimos justos e que as empresas elevem o piso do mercado de trabalho.”
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com