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Isabel Del Priore Assume Liderança da Vix em Nova Fase de Expansão Global

Ex-CEO da Animale e primeira diretora-geral da Hermès no Brasil, executiva volta aos EUA à frente da marca de beachwear que já vestiu Beyoncé e Hailey Bieber

14 min

Mudar de país nunca foi problema para Isabel Del Priore. Pelo contrário, é algo bem familiar em sua trajetória. Aos 10 anos, mudou-se para a França junto da família para acompanhar a mãe, a historiadora Mary Del Priore, que dava aulas na Universidade Sorbonne, em Paris.

Anos mais tarde, ajudaria a construir e lançar uma marca do zero em Nova York. De volta ao Brasil, levaria a família de São Paulo ao Rio de Janeiro para assumir a liderança da Animale.

Seu movimento mais recente foi retornar aos Estados Unidos para um novo desafio: estruturar e expandir a internacionalização da Vix como CEO global da marca brasileira de resortwear, fundada pela capixaba Paula Hermanny no início dos anos 2000.

“Não existiria assumir a cadeira no lugar do Roberto [Jatahy, da Animale] sem estar fisicamente no Rio de Janeiro, ou falar de expansão internacional da Vix sem estar aqui”, diz a executiva. “Estou sempre aberta para onde o negócio precisa de mim.”

Isabel chega para estruturar processos e liderar a empresa após a entrada da gestora de private equity Crescera Capital, que comprou uma participação de 27,8% na Vix Global Enterprises, controladora da marca, em novembro de 2025.

“O desafio aqui não é criar relevância de marca, de produto, mas construir a estrutura para sustentar essa relevância em uma escala global”, diz a CEO. É justamente o tipo de desafio que a atrai: “Essa parte estruturante, de organização, de colocar as pessoas certas no lugar certo, buscando as metas e trazendo relevância com sustentabilidade para o negócio.”

DNA brasileiro no mundo

Sua chegada não marca a entrada da Vix nos Estados Unidos, mas o olhar para o potencial do país. A marca nasceu lá, em San Diego, quando a fundadora foi estudar na Califórnia e não encontrava biquínis de que gostava.

Ainda assim, é em Petrópolis (RJ) que ficam as três fábricas da Vix, que já vestiu de Beyoncé e Hailey Bieber a Kate Middleton.

O Brasil também é seu principal mercado: são 26 lojas no país, cinco nos EUA e uma em Saint Tropez, além de cerca de 1.200 pontos de venda, entre eles as multimarcas Saks, Harrods e Bloomingdale’s, em mais de 40 países.

DivulgaçãoLoja da Vix em Saint Tropez

“A marca já é muito forte no e-commerce, e entendemos que tem boas oportunidades para o varejo físico e para o atacado, não só nos EUA, mas também na Europa, Oriente Médio e América Latina.”

A executiva leva na bagagem mais de 25 anos na indústria da moda, passando por multimarcas, liderando a internacionalização de designers e até mesmo a construção da subsidiária da Hermès no Brasil.

“Fui muito privilegiada porque hoje as marcas já estão estabelecidas, mas quando estão chegando, elas precisam escutar”, lembra. E sua experiência com a cultura francesa colaborou nesse processo. “A experiência na Hermès me trouxe o olhar para o detalhe e a sustentabilidade e longevidade das marcas.”

O que depois ela levou para a Animale, onde assumiu a cadeira do fundador e CEO do Grupo Soma, Roberto Jatahy. Agora, repete o movimento na Vix, a convite da fundadora. “A marca autoral e a empresa global não são coisas opostas, mas exigem competências diferentes. Meu papel é trazer a segunda sem, de forma nenhuma, atropelar e desvalorizar a primeira.”

A seguir, a nova CEO da Vix, Isabel del Priore, relembra os momentos mais marcantes de sua carreira, os aprendizados que a trouxeram até aqui e conta para onde quer levar a marca.

Forbes: O que te atraiu na Vix e te fez aceitar a posição de CEO global?

Isabel Del Priore: A Paula [Hermanny] não só é uma grande fundadora, mas o que me atraiu muito foi como ela se preparou para esse momento. Isso faz muita diferença porque a entrega do meu trabalho depende muito do momento em que o fundador está disposto a passar o bastão. A Paula me convidou estando pronta para me receber, e também a [gestora] Crescera. Tem estudos que dizem que esse é um processo de 10 anos, desde o primeiro contato até o fundador confiar em você.

Qual o momento da Vix e onde você espera levar a marca?

Estamos num momento de expansão internacional. Não é uma marca que está vindo para os Estados Unidos, ela já é daqui, então estou convivendo muito com clientes, falando com grandes varejistas, como Bergdorf Goodman e Nordstrom, e pessoas físicas. É uma marca que é consumida aqui há 20 anos. Vim para potencializar essa presença da marca no mercado internacional, abrir mais pontos de venda. Já é muito forte no e-commerce, e entendemos que tem boas oportunidades para o varejo físico e para o atacado, não só nos Estados Unidos, mas também na Europa, no Oriente Médio e na América Latina.

Qual o país mais relevante para o negócio?

O Brasil. São 26 lojas, o maior faturamento, e 5 nos Estados Unidos, que têm muito potencial. A Vix também tem essa beleza da produção verticalizada, o que me atraiu muito. A indústria é nossa. O tecido do biquíni é exclusivo nosso.

Tudo é feito no Brasil?

Toda a produção está em Petrópolis. Três fábricas, uma escola de capacitação de mulheres, é um projeto lindo. É uma marca de resortwear, que vai além do beachwear. É algo genuíno do nosso lifestyle brasileiro que vendemos para o mundo. Vemos muito potencial de expandir o negócio internacionalmente. Por isso eu estou aqui.

DivulgaçãoA Casa Vix é um projeto social e uma incubadora de novos talentos da marca dentro da fábrica em Petrópolis (RJ)

Como foi esse momento de voltar para os Estados Unidos? Era algo que você já buscava?

Estou sempre super aberta para onde o negócio precisa de mim. Quando a gente está numa posição como a minha na Vix, ou as outras pelas quais eu já passei, a gente precisa atender onde o negócio mais precisa da gente.

Voltando para o início da sua trajetória, como sua infância e adolescência na Europa influenciaram essa visão global?

Com 10 anos de idade eu fui para a França porque minha mãe é escritora e historiadora e na época ela dava aula na Sorbonne. Foram quase 10 anos em Paris e na Normandia, na escola interna. Eu fiz o colegial lá e depois fiz faculdade de business. Crescer na França e ter muito acesso à cultura em uma época em que a gente não tinha essa facilidade de hoje com o universo digital foi um privilégio.

E como foi crescer nesse universo dos livros, da arte, da história?

Rico demais. Minha mãe, sem dúvida, é uma inspiração. Ela começou a estudar depois que eu já tinha nascido. Na época não era comum, elas não tinham essa pretensão que a gente tem desde cedo de traçar a nossa carreira, então foi fazer isso mais tarde. Eu tenho esse privilégio da cultura ser muito forte dentro de casa, não só a história, mas a arte, a língua, os lugares. Minha mãe sempre explorou muito tudo isso. Ir a grandes museus e livrarias fez parte da minha infância crescendo no universo dela. E ela também é uma inspiração na forma de construir a sua história, de sair do país para dar aula. É engraçado como a gente repete os padrões familiares. Tiveram grandes movimentos dela que foram marcos para além da inspiração, mas para construir quem eu sou. São os tijolos da vida.

De onde surgiu sua relação com a moda?

Esse universo sempre me encantou, não pela superficialidade, mas pela profundidade, a experiência, o desejo, o que ele provocava nas pessoas. Foi o 360 que sempre me motivou e fez com que eu fosse galgar a minha carreira nessa indústria.

Como começou de fato a sua carreira?

Ainda muito nova eu fiz um estágio no Fashion Week em uma marca francesa. Encerrando a faculdade, tive o privilégio de fazer um projeto com a ONU de ir para Ruanda. Passei quase oito meses com eles em um projeto super bonito, sempre tive vontade de trabalhar com o terceiro setor. Trabalhar com luxo e moda não faz com que a gente não tenha preocupações com o mundo como ser humano. Depois decidi fazer o movimento de voltar para o Brasil e começar a minha vida adulta aqui.

Sempre esteve aberta a ir para outros lugares?

Nunca tive esse impeditivo de ir e vir. Não achei que seria uma escolha definitiva. Voltei para o Rio de Janeiro, onde estava a base da minha família. Fui trabalhar com uma agência de comunicação que na época atendia a Louis Vuitton e a Cartier, que eram as únicas marcas internacionais que tinham subsidiária no Brasil. Foi natural pelo meu francês, pelo background e pelo interesse na moda, no luxo, mas sempre gostei da parte de negócio.

Depois tive a oportunidade de trabalhar na Clube Chocolate em uma época que as marcas internacionais entravam no Brasil pelas multimarcas. Foram quase 8 anos e foi uma grande escola. Comecei como compradora de marcas internacionais, exatamente por ter a língua. E aí comecei a pegar a parte que era meu maior interesse de números, planejamento, o negócio como um todo. Ir para um Paris Fashion Week, estar com marcas como Prada, Valentino, Dior, foi muito rico. Depois, com o encerramento dessa era das multimarcas no Brasil, recebi um convite muito interessante para trabalhar em Nova York numa startup, onde fui para para montar o business do zero.

Como foi a experiência de também construir do zero a Hermès no Brasil?

Fui a primeira pessoa a liderar a marca, já como subsidiária no Brasil. Fizemos o takeover e montei a operação do zero porque até então tudo era da [joint venture com a] JHSF – equipe de vendas, RH, financeiro… Mais uma grande oportunidade, grandes aprendizados, com uma cultura que eu tinha muita facilidade de trabalhar.

Quais foram os maiores desafios?

O grande desafio das marcas internacionais é respeitar os códigos da matriz, mas fazer as adequações necessárias para a subsidiária, que é uma cultura totalmente diferente. O mercado de consumo de luxo era extremamente emergente em 2013 quando as marcas internacionais chegavam diretamente no Brasil.

Na época, estava tendo uma discussão na Hermès sobre usar sacolas pardas, porque a Bélgica e a Suécia não queriam mais as sacolas laranjas. E eu falei: “Olha, se a gente colocar sacola parda no Brasil, tem que reduzir o faturamento pela metade, porque aqui as pessoas compram the whole package, toda a experiência.”

E quais os maiores aprendizados que você traz desse período?

Trabalhar nesse início de subsidiária – o que hoje é raro porque todas as grandes marcas já estão globalmente muito bem estabelecidas –, é ter a oportunidade de desenhar um plano de 10 anos. Você aprende com todo o board dessas marcas tradicionalíssimas, que sobreviveram a guerras, a tudo o que você pode imaginar. Existe um grande aprendizado de sustentabilidade de negócio que é importante para o Brasil. Foi, sem dúvida, o mais rico que eu levei desses quase sete anos, sendo que quatro deles, além de diretora-geral do Brasil, eu liderei a comunicação para a América Latina. Também foi muito rico acessar esses países tão próximos e tão distintos. Isso me deu uma musculatura interessante.

Fizemos exposições como o Festival des Métiers, na FAAP, o Festival do Couro, no Iguatemi. Eu me envolvia muito na frente equestre porque monto a cavalo desde pequena. Consegui trazer a marca contando a história dela e criando uma relação com a comunidade que não fosse só com o produto, que é exclusivo, limitado e caro. Tivemos um bom match com o Brasil.

Como foi o momento de assumir a Animale? Quais os desafios de sentar na cadeira do fundador?

Foi o meu primeiro contato com o mercado de moda nacional. E pela primeira vez fazendo esse movimento de sucessão com o dono. Fazer isso com um cara genial como o Roberto [Jatahy] foi muito rico também.

Isabel del priore
Isabel Del Priore liderou a Animale entre 2021 e 2024

Quando a marca vem do dono, ela não tem os processos, a governança e a disciplina. E é aí que eu entro fazendo a diferença. Venho dessa escola de marcas internacionais, estruturadas, e precisamos montar um território sólido para potencializar o negócio e crescer com sustentabilidade. Sem processo, sem organograma, sem cadeia de valor, você vai até um certo limite. Isso infelizmente é uma realidade para muitos negócios e marcas no Brasil. A marca autoral e a empresa global não são coisas opostas, mas exigem competências diferentes. Eu entendo que meu papel é trazer a segunda sem, de forma nenhuma, atropelar e desvalorizar a primeira.

Olhando para o negócio, de quais resultados da sua passagem pela Animale você mais se orgulha?

Foi a parte estruturante: pegar uma empresa grande como a Animale, que na época já tinha uma relevância importante de número de colaboradores e de faturamento, e de fato organizar uma base sólida. Isso gerou um resultado relevante de rentabilidade porque a falta de processos gera, obviamente, impacto nos custos operacionais. Eu me lembro de quando eu entrei e de quando saí, com uma evolução na estrutura e na organização. Foi um legado que eu deixei.

Como você vê o espaço das mulheres na liderança da moda?

Vejo, sobretudo, oportunidade. As posições de negócio na moda ainda são pouco ocupadas por mulheres e são justamente elas que tomam as decisões que definem a moda e chegam até a consumidora final. Espero que as próximas gerações ocupem cada vez mais esses lugares, para que o universo feminino se reflita não apenas no que a marca comunica para fora, mas na maneira como ela é construída por dentro. É ali que tudo começa.

A trajetória de Isabel Del Priore, CEO da Vix

Por quais empresas passou

Attitude PR, Clube Chocolate, Rafael Cennamo Couture, Hermès, Silvia Furmanovich, Animale e, atualmente, Vix

Formação

Business pela Faculdade Léonard de Vinci, na França

Primeiro emprego

“Relações Públicas na Attitude RP atendendo clientes franceses, entre eles grandes maisons como Louis Vuitton e Cartier. Foi ali que aprendi, muito cedo, o rigor e o repertório que o universo do luxo exige.”

Primeiro cargo de liderança

Diretora de Compras e Diretora Comercial no Clube Chocolate.

Um hábito essencial na rotina

“Reservar um horário cedo, só meu, antes que o dia comece, seja para um exercício ou uma meditação. E, do outro lado do dia, garantir um tempo de qualidade com meu filho, Nico. O equilíbrio entre família e trabalho é uma prioridade real para mim, são esses dois momentos que fortalecem o decorrer do dia.”

Um livro, podcast ou filme que inspira sua visão de gestão

“Um clássico: ‘História das Mulheres no Brasil’, de Mary Del Priore. É uma leitura fundamental para quem olha para o mundo empresarial, ajuda a entender a construção dos papéis femininos, a emancipação da mulher e o peso da educação nesse percurso. Compreender de onde viemos muda a forma como se lidera hoje.”

O que te motiva

“A possibilidade de construir novos caminhos. Ao longo da carreira, passei por empresas, mercados e desafios muito distintos, e sempre me encantou aprender e ajudar a escrever o próximo capítulo de uma marca. Hoje, me motiva contribuir para o crescimento do negócio, desenvolver pessoas e criar estruturas que permitam às marcas se fortalecerem e se perpetuarem.”

Tempo de carreira

25 anos de experiência na indústria da moda e do luxo.

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