A inveja costuma ser tratada como algo de que devemos nos envergonhar. Quando percebem esse sentimento em si mesmos, a reação habitual das pessoas é afastá-lo ou dizer a si mesmas que não deveriam se sentir assim. É fácil presumir que pessoas que estão se saindo bem na vida simplesmente deixaram esse sentimento para trás.
Essa suposição não se sustenta muito bem. A inveja é uma emoção humana comum e não há uma boa razão para pensar que pessoas bem-sucedidas a sintam com menos frequência.
O que parece diferenciá-las é o hábito de tratar a inveja como informação. Quando sentem inveja, elas se perguntam o que esse sentimento revela sobre aquilo que desejam e, então, trabalham para alcançar esse objetivo, em vez de ressentirem a pessoa que já o conquistou.
Um estudo recente, publicado na revista Personality and Individual Differences, ajuda a explicar por que algumas pessoas respondem à inveja dessa maneira e outras não. A pesquisa descobriu que pessoas com maior capacidade de regular as próprias emoções têm mais probabilidade de experimentar o tipo de inveja que motiva o autodesenvolvimento.
Por que a inveja é essencial para esse hábito
O autor do estudo, Christophe Haag, é professor de comportamento organizacional na Emlyon Business School, na França, e pesquisa emoções desagradáveis. Segundo ele, é mais preciso descrever uma emoção como agradável ou desagradável do que como boa ou ruim. O fato de ela resultar em algo positivo ou negativo depende do que leva a pessoa a fazer.
A inveja se encaixa bem nessa ideia. Psicólogos há muito tempo distinguem duas formas desse sentimento:
- Inveja benigna é desconfortável, mas leva a pessoa a melhorar para conquistar aquilo que outra pessoa tem.
- Inveja maliciosa também é desconfortável, mas leva ao ressentimento e ao desejo de ver a outra pessoa perder sua vantagem.
As duas formas são parecidas no momento em que surgem, mas levam a comportamentos muito diferentes. Por que algumas pessoas tendem a uma forma e não à outra ainda era uma questão em aberto.
Haag levantou a hipótese de que a inteligência emocional poderia explicar parte dessa diferença. Ele se concentrou na regulação emocional, que é a capacidade de escolher uma maneira eficaz de lidar com um sentimento depois que ele é desencadeado.
O problema é que a maioria dos estudos pede às pessoas que avaliem as próprias habilidades emocionais, e essas avaliações podem refletir tanto a autoconfiança geral quanto a habilidade real.
Por isso, Haag mediu diretamente essa capacidade. Ele apresentou a 442 adultos francófonos uma série de situações emocionalmente difíceis e pediu que escolhessem a maneira mais eficaz de lidar com cada uma delas.
Os participantes também descreveram como costumam vivenciar a inveja. Haag levou em consideração outros fatores conhecidos por influenciar a forma como as pessoas reagem a ameaças sociais, incluindo autoestima e insegurança nos relacionamentos.
Pessoas com maior capacidade de regular as próprias emoções não relataram sentir menos inveja de modo geral. Elas relataram mais inveja benigna. Suas habilidades de regulação não apresentaram relação significativa com a inveja maliciosa. A habilidade pareceu influenciar a direção que a inveja toma, e não se ela surgiria ou não.
O hábito de perguntar para onde a inveja está apontando
Imagine alguém que descobre que um colega recebeu a promoção que esperava. Para a maioria das pessoas, a primeira reação é uma mistura de decepção e desconforto. É no que acontece depois que as pessoas começam a se diferenciar.
Algumas começam a procurar motivos para explicar por que o colega não merecia a promoção. Outras deixam o incômodo inicial passar e começam a pensar no que o colega fez de diferente e no que elas próprias poderiam precisar melhorar.
Essa segunda resposta é um hábito compartilhado por pessoas bem-sucedidas. Elas tratam a inveja como informação, e não como um julgamento sobre o próprio valor. Isso funciona porque a inveja é bastante específica. Raramente sentimos inveja de coisas com as quais não nos importamos. Ela tende a surgir em torno de objetivos que já temos, inclusive alguns que ainda não admitimos para nós mesmos. Prestar atenção a esse sentimento pode ajudar a esclarecer o que realmente queremos.
Haag resume essa mudança a partir da pergunta que a pessoa faz. Em vez de perguntar como parar de sentir inveja, ele sugere perguntar: “O que essa emoção vai me levar a fazer?”
É aí que está a relação com o sucesso. Pesquisas sobre a inveja benigna associaram esse sentimento ao estabelecimento de metas mais ambiciosas e à dedicação de mais esforço. Uma pessoa que transforma regularmente a inveja em um plano tende a continuar evoluindo ao longo do tempo, e a motivação vem de um sentimento que a maioria das pessoas prefere não reconhecer.
É importante deixar claro que isso não significa reprimir a inveja. Tentar esconder um sentimento não faz com que ele desapareça, e uma inveja não reconhecida pode ter maior probabilidade de se transformar em ressentimento. A habilidade medida por Haag envolve perceber o sentimento e trabalhar a partir dele.
O que esse hábito não pode fazer por você
O estudo tem limitações importantes. Ele avaliou as pessoas em um único momento, portanto não é possível afirmar que as habilidades de regulação emocional fazem com que a inveja se torne construtiva.
É possível que a relação ocorra no sentido contrário e que pessoas que passam anos trabalhando para alcançar seus objetivos desenvolvam melhores habilidades de regulação ao longo do caminho. A maioria dos participantes era formada por mulheres, o teste de regulação emocional foi curto e o efeito observado foi modesto.
O estudo também traz uma informação relevante sobre pessoas que tendem à inveja maliciosa. A ansiedade relacionada à rejeição apresentou forte associação com esse tipo de inveja. Isso sugere que o desejo de diminuir outra pessoa pode surgir da sensação de ameaça, e não necessariamente de um mau caráter. Para muitas pessoas, esse sentimento pode diminuir à medida que se tornam mais seguras.
No que esse hábito realmente consiste
A inveja provavelmente não vai desaparecer, e tentar eliminá-la pode não ser o objetivo mais adequado. Ela revela algo real sobre aquilo que valorizamos.
As pessoas que lidam bem com esse sentimento não são aquelas que nunca sentem inveja. São aquelas que percebem o que estão sentindo, dedicam um momento para entender o que a emoção está tentando dizer e, então, agem a partir disso.
Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com