Um chiste bem disseminado no mercado financeiro brasileiro é uma suposta frase de José Safra, um dos banqueiros mais bem-sucedidos do país e do mundo: “Um negócio, para ser bom, tem que ser bom para as duas partes – para mim e para o Moise”.
Os dois irmãos eram sócios em tudo desde os anos 1960. A frase, porém, não resistiu ao tempo. Quando a próxima geração começou a entrar para valer nos negócios, Moise (com seus filhos) acabou escanteado.
A disputa entre irmãos se repetiu alguns anos depois, quando o caçula e o primogênito de José expeliram o filho do meio dos negócios da família. E, de certa forma, aconteceu o mesmo na geração anterior, quando Edmond (e não seu irmão mais velho) passou a comandar a casa financeira de seu pai, Jacob.
Não é que a família fosse problemática. Ao contrário, tinha um extraordinário senso de união. Mas o preceito fundamental ao longo de gerações era preservar o banco – que deveria ser construído “como um barco”, no dizer de José, “capaz de resistir a qualquer tempestade”.
E ponha tempestade aí. Originado na cidade síria de Alepo, o banco atravessaria guerras, perseguições, crises das mais diversas naturezas nas mais dispersas geografias: Estados Unidos, Europa, Brasil, paraísos fiscais, Oriente Médio…
Há pelo menos três personagens que mereceriam livros próprios: Jacob, que levou os negócios financeiros da família para o Líbano e lá prosperou até os anos 1950, quando, em meio ao acirramento do conflito árabe-israelense, decidiu vir para o Brasil; Edmond, o mais talentoso de seus nove filhos, que expandiu o banco para o mundo (e morreu num incêndio, trancado em seu quarto de segurança, no final de 1999); e José, o caçula de Jacob, que junto com Moise construiu um império financeiro no Brasil (e mais tarde o expandiria para o mundo).
Além do mundo das finanças – com uma visão consistente e sua cota de deslizes e tropeços –, os Safra têm presença marcante na filantropia, tanto dentro quanto fora do âmbito da comunidade judaica, com doações de peso aos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, à Pinacoteca de São Paulo, a universidades, fundações de amparo a pessoas com deficiência, crianças e idosos, organizações culturais e religiosas e inúmeras pessoas físicas que atravessavam alguma dificuldade. É uma pena que guardem sua privacidade com um zelo desmedido. Há provavelmente ainda mais histórias guardadas no cofre.
*Reportagem publicada na edição 146 da revista Forbes, em outubro de 2026.
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