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“A Herança Que Deixo É de Que É Preciso Construir uma História”, Diz Amyr Klink

Protagonista da travessia de barco de 100 dias e 7 mil quilômetros da Namíbia à Bahia, o autor tem sua história revivida em novo filme dirigido por Carlos Saldanha

15 min

Amyr Klink não acredita em legado. Para ele, é preciso construir uma história. “Tenho grandes amigos que criaram impérios corporativos, bancos, indústrias, e eles não têm uma história para contar. Precisam ir à livraria e comprar um livro para contar no pé da cama dos filhos”, diz o escritor e navegador, em Paraty, cidade fluminense onde passou a infância e a juventude.

Ele viveu para contar algumas. Autor de seis livros com relatos de expedições marítimas, comprou seu primeiro barco aos 10 anos e, desde então, não parou de navegar. Já deu a volta à Antártica em uma viagem solitária de 88 dias, passou mais de um ano isolado em uma invernagem antártica, fez uma circunavegação polar de 76 dias e soma mais de 200 mil milhas navegadas.

Sua primeira grande expedição, no entanto, é a mais famosa: foi a primeira pessoa no mundo a cruzar o Oceano Atlântico Sul sozinho a bordo de um barco a remo. Em 10 de junho de 1984, aos 28 anos, Klink deixou a Namíbia e, 100 dias e 7 mil quilômetros depois, desembarcou na costa da Bahia. A façanha originou seu primeiro livro, o best-seller “Cem Dias entre Céu e Mar“, que já vendeu mais de 600 mil exemplares desde seu lançamento em 1985.

Mais de 40 anos depois, a jornada chegou às telas na última semana com o filme “100 Dias“, estrelado por Filipe Bragança, dirigido por Carlos Saldanha e produzido pelo Ventre Studio com distribuição da Buena Vista International, da Disney. “Meu projeto original levou dois anos de preparação. O filme levou muito mais. Brinco que o Filipe Bragança remou mais do que eu.”

Das páginas para as telas

Na década de 1980, “Cem Dias entre Céu e Mar” arrebatou os leitores. Ainda adolescente na época, Carlos Saldanha, diretor brasileiro que fez fama no exterior com animações como “A Era do Gelo” e “Rio“, foi um dos fãs. “Sempre fui apaixonado pela história. Se eu fosse fazer um projeto grande no Brasil – o que nunca tinha feito –, queria que fosse algo que me pegasse emocionalmente.”

Enquanto isso, Amyr Klink já tinha a adaptação no radar graças à visão da esposa, a velejadora e fotógrafa Marina Klink. “Desde o tempo em que a gente ainda namorava, ela falava que a história tinha que virar um filme.” O projeto, enfim, prosperou. Depois de anos de trabalho no roteiro, assinado por Elena Soarez e Thais Tavares, as filmagens começaram em 2024 exatamente no dia em que Amyr iniciou a viagem em 1984. Finalizaram as gravações praticamente na data em que ele chegou ao Brasil. “Foi pura coincidência”, diz Saldanha.

Mas o acaso já tinha se tornado um conhecido nos bastidores do longa. Uma semana antes de ser convidado para o teste do papel, Filipe Bragança sonhou que nadava no meio do mar com várias baleias ao seu lado. “Eu pensava: ‘Estou num ninho de baleias’”, lembra. Para quem não conhecia a travessia de Amyr e o famoso capítulo do livro “A Creche de Baleias”, pareceu mais que coincidência. “Para mim, o Amyr era um velejador que tinha dado a volta ao mundo, e não um doido que atravessou o oceano a remo”, conta o ator. “Li o roteiro pela primeira vez durante os testes e deparei com uma cena em que ele rema ao lado de várias baleias. Fiquei arrepiado na hora.”

Carlos Saldanha, Amyr Klink e Filipe Bragança
yuzufilmesCarlos Saldanha, Amyr Klink e Filipe Bragança

Com 23 anos na época, o ator passou por sua própria travessia: foram três meses de preparação, com aulas de remo na Raia da USP, uma dieta que o levou dos 79 para os 68 quilos e leituras e releituras do livro. “Noventa por cento do filme é o Amyr remando sozinho no oceano. É um tipo de personagem que surge pouquíssimas vezes na carreira de um ator”, diz. “Comecei a trabalhar aos 5 anos de idade, mas, durante essas gravações, foi a primeira vez em que parei e pensei: ‘Agora eu sou um ator profissional’.”

Quem vê o filme e a imensidão do mar nas telas não imagina que a maior parte das cenas foi gravada dentro de um estúdio em São Paulo, com um tanque operado com máquinas de ondas e turbinas de vento. Em pleno inverno paulistano, Bragança passou horas na água vestindo apenas um macacão de neoprene. “Na última diária, quase desmaiei de frio”, afirma o ator.

O contato com o próprio Amyr foi além das páginas, apesar de o navegador deixar as barreiras explícitas. “Não estive pertinho das gravações, mas estive em contato. Um livro é uma obra, um filme é outra criação”, diz Amyr. “O Amyr me disse no início: ‘O barco é meu, o projeto é seu. Vou dar todo o apoio possível’”, conta Saldanha.

De fato, a ajuda bateu na porta. “Se eu mandasse mensagem perguntando como dar um nó marítimo, ele mandava vídeo ensinando. Quando o Filipe foi treinar na USP, o Amyr sentou com ele no barco, passou horas ensinando, e depois ficou num barquinho de apoio avaliando a remada”, acrescenta o diretor.

Novas gerações

A proximidade da estreia do filme coincide com o desembarque do brasileiro Raphael Garcia, de 34 anos, que repetiu a rota solitária da África ao Brasil em 136 dias no mar. O próprio Amyr Klink viajou a Salvador para recebê-lo no retorno, em 22 de agosto. Depois de desembarcar e encontrar Klink, Raphael brincou: “Eu me perguntava: ‘Por que ele não fez mais viagens como essa?’ Agora eu sei a resposta”.

O novato, que nunca tinha remado antes de planejar a travessia inspirada por Klink, faz parte da nova geração que descobre a jornada do veterano, assim como Bragança. “O livro foi muito importante quando foi lançado e tem muita gente apaixonada por ele, mas grande parte da minha geração não o conhece”, diz o ator. O filme chega como uma porta para atrair novos leitores – e, quem sabe, velejadores – para os mares de Amyr Klink.

Filipe Bragança e Amyr Klink na ilha da Bixiga, que pertence ao navegador
yuzufilmesFilipe Bragança e Amyr Klink na ilha da Bixiga, que pertence ao navegador

“Essa geração vive muito apressada. O Amyr não tinha telas nem tecnologia, só planejamento. Quero mostrar que é possível achar sentido na vida e realizar feitos enormes sem precisar estar preso à tela do celular”, diz Saldanha.

O sobrenome Klink, porém, não é estranho à nova geração. Tamara Klink, uma das três filhas do escritor com Marina Klink, desbravou os próprios mares e virou fenômeno com os relatos das aventuras. Em Paraty, o navegador conversou com a Forbes Brasil sobre os desafios da adaptação cinematográfica, sua aversão à ideia de legado e a relação permanente com o mar.

Forbes: Lá atrás, de onde veio a ideia de fazer a travessia a remo?

Amyr Klink: Surgiu por duas razões. Uma pela frustração ao ler o relato de um francês que havia atravessado o Atlântico Norte. Ele saiu de Cape Cod, nos Estados Unidos, perto de Nova York, atravessou em 77 dias o Atlântico com o objetivo de ir a Brest. Quando ele cruzou a longitude do Cap de la Hague, na Normandia, foi recolhido por um rebocador. Encerrou a viagem antes de enxergar o fim. Li o livro oito vezes e fiquei pensando que, no fundo, ele não chegou.

A outra razão foi que eu tive uma discussão com meu pai. Nunca bati em ninguém na minha vida e, para não bater no meu pai, com tanta raiva, eu dei um soco em uma porta de vidro e minha mão ficou pendurada. Tive de ser levado de ambulância ao hospital e o médico disse que eu não poderia mais andar de moto e remar. Eu falei: “Quer saber? Eu vou remar”. E foi assim que a história aconteceu.

Você lembra de quando recebeu a notícia de que sua história viraria um filme?

Na verdade, é um processo muito longo, de algumas décadas. Desde o tempo em que eu ainda namorava a Marina; ela, que trabalhava com comunicação e eventos grandes, falava que a história tinha de virar um filme. Fiz várias viagens à Antártica e acabamos conhecendo o Breno Silveira, um supercineasta e diretor. Ele se apaixonou pela ideia. Negociei com ele os direitos do livro, e ele contratou uma roteirista que demorou anos para fazer o roteiro do jeito que ele queria, mas no final ele não aceitou.

Depois, dois caras resolveram fazer o roteiro, mas brigaram. Outra roteirista trabalhou seis anos no roteiro. Infelizmente, a esposa do Breno morreu jovem, ele ficou muito mal e adiou a ideia. Um tempo depois, o Breno arrumou uma namorada, me ligou e falou: “Olha, agora a roteirista é a minha namorada”. Eu falei: “Desculpa, mas quando começa essa história de cunhada ou namorada o negócio deixa de ser sério”. E aí o Breno morreu. Eu gostava muito dele, navegamos muito juntos aqui em Paraty.

Então a Paula Cosenza, junto com uma produtora de São Paulo, retomou o projeto. A produtora se desmanchou ao longo do tempo, e ela foi atrás do Carlos Saldanha. Por sorte, o Saldanha já conhecia o livro, gostava da história e se encantou. Eles foram juntando todas as pecinhas, conseguiram apoio nos Estados Unidos e o negócio andou. Para a gente, levou quase 40 anos. Depois que fechamos com a produtora e com o Saldanha, foram oito anos.

Qual era sua expectativa antes de ver a história na tela?

Nunca me incomodei por a história não ter acontecido antes, porque conheço muitos filmes sobre experiências no mar que ficaram muito chatos e monótonos. A exceção é um filme baseado em um livro que li cujo autor tive o privilégio de conhecer: “A Expedição Kon-Tiki”, que vendeu mais de 50 milhões de exemplares no mundo inteiro.

O livro é espetacular. Fui editor dele no Brasil pela Companhia Melhoramentos. Quando venceu a exclusividade dos direitos do livro, que saiu em 1947, pressionei minha editora na época, a José Olympio, a comprar. Uns anos atrás, uma pequena produtora da Noruega resolveu recontar a história e o fez de uma maneira absolutamente brilhante. É um dos raros casos em que o filme chega a ser mais emocionante do que o livro.

Aos 71 anos, como você enxerga esse ponto da sua vida e da sua carreira, com um filme chegando aos cinemas?

Me sinto lisonjeado. A Marina ficou supercontente porque batalhou muito para que isso acontecesse. Mas falei para ela que acho que foi no timing certo. Foi uma felicidade encontrar os atores que o Carlos selecionou. O Filipe é impressionantemente parecido comigo naquela época. A atriz que faz minha mãe é franco-filipina e, como minha mãe, morou na França, fala português com o exato mesmo sotaque, além de ser fisicamente igual. O ator que faz o engenheiro José Carlos Belford Furia não é um sósia, é o próprio! São absolutamente iguais.

Também foi uma sorte porque cansei de emprestar o barquinho original para exposições e eventos. Quando consegui restaurar minha casa em Paraty, onde foi o lançamento da nova edição do livro “Cem Dias entre Céu e Mar”, botei o barco super-restaurado lá dentro e fechei o muro com pedra. Ele não vai mais sair. Não quero mais. Quando alguém pede para expor o barco em um museu ou evento, a resposta é não. Pode tentar tirar!

Amyr Klink no retorno da travessia
Acervo pessoalAmyr Klink no retorno da travessia

Onde o barco ficava antes?

O barco original estava no Museu Nacional do Mar, em Santa Catarina, que ajudei a fundar. Aí o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] resolveu fazer uma réplica exata, que inclusive navega. Um amigo meu, que era para ter sido o construtor do barco original, fez uma réplica absolutamente perfeita.

Eu não naveguei nela, mas o Filipe Bragança ficou meses ralando lá dentro. É tão perfeita que, se colocar lado a lado, talvez eu não consiga identificar qual é o barco verdadeiro. Ele fez o envelhecimento da tinta, dos vernizes, das partes de madeira. Eu ainda tinha os mesmos equipamentos da época, as bombas, a bússola francesa com vista para dentro e fora, e o antigo dono da fábrica de painéis solares ainda tinha os painéis de 40 anos atrás.

Como foi o processo de acompanhar o filme?

Eu não estive pertinho das gravações, mas estive em contato. Um livro é uma obra, um filme é outra criação. Acho que o Saldanha se sentiu confortável para tomar licenças poéticas, embora não existam muitas nesse filme. Achei incrível porque eles fizeram um recorte muito sensível e eficiente das histórias mais emocionantes, das tristezas e das dificuldades. Aconteceram muitas outras coisas, claro, mas a garimpagem de eventos ficou muito boa.

Você vê o filme como uma porta para as novas gerações conhecerem a história e irem em busca do livro?

Tem o caso do Raphael, que se inspirou no livro e decidiu fazer o mesmo percurso. É um paulistano que mora na Nova Zelândia e se encantou pelo “Cem Dias”. Ele me ligou quando já estava com quase tudo pronto. Saiu da mesma cidade da qual eu saí, ficou amigo das mesmas pessoas que conheci em Lüderitz e, no primeiro mês e meio, ultrapassou a parte mais difícil: a Corrente de Benguela, onde eu capotei várias vezes.

O livro virou manual, então?

Não sei se virou um manual, mas sei que inspirou muita gente. Só na Flip deste ano conheci dezenas de pessoas que vieram me falar: “Decidi morar em Paraty por causa do seu livro”. Isso me deixa muito feliz, porque as pessoas começaram a entender a beleza e a importância de Paraty, que não foi preservada por decisão de ninguém, mas, sim, por uma casualidade geográfica. A cidade fica em uma baía muito recortada e, graças a Deus, não abriram estrada cedo para o maldito carro chegar aqui.

O meu pai chegou em Paraty de mula. O pequeno avião em que ele estava caiu entre Angra e Paraty. O sócio dele, dono do avião, resolveu salvar a aeronave. Como meu pai entendia zero de mecânica, alugou uma mula em Barra Grande e veio para Paraty numa época em que a cidade não tinha visto um carro. Ele se apaixonou. Dois ou três anos depois, entrou com um dos primeiros carros na cidade, vindo de Guaratinguetá. Acabou fixando raízes aqui e a gente também.

Nos seus dias tranquilos, como é sua rotina hoje em dia?

Estou sempre fazendo projetos diferentes: casas flutuantes, ampliando minha marina, desenvolvendo sistemas de flutuação e projetos de embarcações. Faço isso quase em silêncio, com pessoas muito legais que juntei ao longo dos anos. Neste ano fizemos uma série de documentários muito bacanas sobre as casas flutuantes. Queremos dar continuidade a isso e colocar vários projetos em prática, se Deus quiser, nos próximos anos.

Marina, Amyr e as filhas Laura, Marina Helena e Tamara
Marina AtallahMarina, Amyr e as filhas Laura, Marina Helena e Tamara

Hoje, qual legado quer deixar com seu trabalho?

Não quero deixar nenhum legado. Essa história de legado é papo furado. Fico muito feliz porque a Tamara está dando continuidade àquilo que eu comecei. Não acho que isso seja um legado, é só que ela navega tão bem quanto eu e escreve melhor ainda.

A grande herança que a Marina e eu deixamos para nossas filhas não foi a capacidade de ter êxito econômico, essas baboseiras. Foi a compreensão de que é preciso construir uma história. Isso foi uma iniciativa muito importante da Marina. Ela disse: ‘Vocês querem viajar com o pai? Tudo bem. Mas vocês vão escrever no diário todo dia’. É um erro quase nojento da educação brasileira não obrigar os jovens a manter um diário. Não existe quem não tenha uma história para contar, mas, se você não registrar, ela evapora.

As meninas reclamavam muito no começo, queriam ver o pinguim, a foca. A resposta era: ‘Não, duas horas na mesa fazendo o diário do dia’. Como cada uma das três tem um perfil totalmente diferente, às vezes uma ia ler o diário da outra; aí uma roubava a história da outra, gerando uma competição entre elas que achava muito positiva e saudável. Às vezes não conseguiam escrever, então desenhavam, pintavam, faziam poemas.

E aí elas viram que eu fazia palestras em francês, espanhol, inglês e começaram a se interessar por idiomas. Cada língua abre uma janela para o mundo. Hoje, quando vejo a Tamara falando francês na Groenlândia ou inglês na França, fico bem feliz. É uma espécie de continuidade daquilo que a gente gosta de fazer.

*Reportagem publicada na edição 145 da revista Forbes, em setembro de 2026.

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