Quem caminha pelas ruas de pedra de Paraty no meio do ano dificilmente imagina a precisão necessária para fazer a engrenagem da Flip girar. Em sua 24ª edição, realizada na última semana, a Festa Literária Internacional bateu recordes: 40 mil pessoas (um salto de quase 18% ante 2025) circularam por ali, dividindo-se entre as mesas da programação oficial e 46 casas parceiras, 11 a mais do que no ano anterior.
A equação deste ano, no entanto, foi das mais difíceis: enfrentando a fuga de patrocinadores comum em anos de Copa do Mundo, eleições e instabilidade internacional, o orçamento do festival encolheu 48% em relação a 2025, segundo noticiado pela Folha.
Para fazer essa conta fechar e garantir os cinco dias de festa, o trabalho nos bastidores leva o ano inteiro. E ele tem rosto, voz e lideranças femininas.
A história da Flip
A semente do festival foi plantada no início dos anos 2000 pela editora inglesa Liz Calder (a mesma que revelou J.K. Rowling, autora de “Harry Potter”, ao mundo). A relação da britânica com o país já era antiga. Liz havia morado no Brasil na década de 1960 e foi responsável por publicar nomes brasileiros no mercado europeu, como Chico Buarque, Milton Hatoum e Amyr Klink — foi o velejador, inclusive, quem fez a ponte para apresentar a editora ao arquiteto Mauro Munhoz, cofundador da Flip ao lado da inglesa.

Ao comprar um sítio em Paraty, Liz uniu sua influência no mercado editorial global ao charme histórico da cidade. Na época, Munhoz desenhava um projeto de revitalização urbana para o município e ouviu de um consultor que precisava de uma entrega de curto prazo e tangível para engajar as pessoas na ideia.
Inspirada no modelo do Hay Festival, no País de Gales, Liz uniu os pontos. “Ela falou: ‘Por que não um festival literário? Os melhores acontecem em cidades pequenas, porque ler e escrever são atividades solitárias. O bom do festival é o encontro na rua'”, relembra Izabel Costa Cermelli, conhecida como Belita, que hoje atua como diretora de cultura e educação da Flip. “A Liz dizia que, em Paraty, parecia que estávamos dentro de um conto do Gabriel García Márquez.”
O rascunho da Flip nasceu ali, em reuniões à luz de lampião no Sítio Casa Azul, que posteriormente deu nome à Associação Casa Azul, instituição por trás da organização da festa literária. Na mesa, junto com Liz e Mauro, estavam nomes como Peter Florence, criador do evento galês que serviu de inspiração, o editor Luiz Schwarcz e Belita, que ficou com o desafio de transformar aquela visão em operação concreta, no chão de Paraty.
Neta da primeira vereadora da cidade e formada em física pela USP (Universidade de São Paulo), Belita ri ao lembrar dos improvisos da estreia, em 2003. “Eu não organizava nem festa de aniversário”, diz. “O que me salvou foi a física. Eu usava o raciocínio lógico de trás para frente: se cair uma telha na cabeça de alguém, o que a gente faz? Precisa de hospital, transporte, ambulância. Íamos prevendo o que podia dar errado para planejar o certo.”
A visão de Belita cruzou logística com sobrevivência econômica. “Colocar a Flip no inverno foi uma estratégia pensada para quebrar a sazonalidade e evitar que o comércio demitisse na baixa temporada.”
Funcionou, mas o começo exigiu gerenciamento de crise. Sem caixa, a equipe financiava o evento revendendo televisões doadas por uma empresa parceira. Quando a primeira edição superou as expectativas de público, o networking salvou o dia: João Moreira Salles adiantou a verba para a locação de uma tenda maior na praça, despesa que logo depois foi assumida pela Eletrobras.
Hoje, Belita lidera o braço educativo do festival, que já doou mais de 80 mil livros à região. Sem conseguir passar pelas ruas movimentadas durante o evento sem receber um abraço ou cumprimento de alguém da equipe, ela ressalta que o projeto não pararia em pé sem o enraizamento local. “Pensamos em trazer uma produtora de São Paulo, mas como eles iam saber onde comprar uma fralda ou tomar banho de cachoeira em Paraty? Tinha que ser daqui.”
A espinha dorsal da operação transformou a economia da cidade. “Antes, os restaurantes fechavam cedo e não se via gente na rua à noite”, lembra a curadora da Flip deste ano, Rita Palmeira, que frequenta o festival desde 2004. Hoje, a cidade não para durante os dias de festa: pessoas circulam nas ruas turísticas desde as primeiras horas de luz até a madrugada, com a movimentação de comércios locais e a taxa de 100% de ocupação de pousadas no centro histórico.
Mulheres nos palcos da Flip
Os palcos da Flip também refletem o protagonismo das mulheres no mercado editorial. Escritoras como Angela Davis, Conceição Evaristo e Socorro Acioli estavam entre os principais chamarizes do evento, atraindo filas e alta procura para suas mesas. As mulheres também foram maioria entre os autores mais vendidos da edição.
Na programação principal, Rita Palmeira assumiu um trabalho de 10 meses na montagem das 21 mesas deste ano. A curadoria guiou a escolha da grande homenageada, a poeta paulista Orides Fontela, ampliou o número de autores da programação oficial (de 36 para 38) e limitou a apenas três o número de mediadores homens.

Esse movimento reflete a própria estrutura de liderança do evento, que conta com a presença de mulheres no conselho diretor, consultivo e fiscal, além de posições na gestão operacional e coordenação geral de produção.
“O meu desejo é que a presença feminina fique tão natural que a gente não precise explicitar”, diz Rita. “Não vai ter homem na mesa e não vamos falar disso. É tornar a presença das mulheres orgânica, sem precisar justificar.”
Parcerias
Para que todo o ecossistema da Flip funcione — e cresça a ponto de abrigar quase mil programações paralelas —, o capital corporativo entra como a peça que fecha a conta.
Além de ser realizado pelo Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, e pela Associação Casa Azul, o evento conseguiu manter sua estrutura graças à retenção de patrocinadores como Netflix, Itaú e o Instituto Motiva, braço social da gigante do setor de infraestrutura de mobilidade. “O mundo corporativo costuma apoiar teatro, dança. Estar nesse contexto de literatura, olhando para as comunidades do entorno, ainda é raro”, diz Renata Ruggiero, presidente do Instituto Motiva.

A empresa, que conta com a própria casa parceira na Flip, assumiu o transporte terrestre e fluvial gratuito da festa para atender cerca de 20 comunidades periféricas. O projeto saltou de 100 moradores beneficiados em 2023 para mais de 3 mil nesta edição. “Nossa visão de mobilidade vai muito além da física. É abrir caminhos e dar acesso a oportunidades.”
O trabalho do Instituto, que conta com uma equipe 80% feminina, também envolve um projeto que conecta a ida dos jovens à Flip com capacitação profissional. Afinal, a barreira de acesso vai muito além da quilometragem. “A gratuidade é apenas uma parte. A outra é quebrar aquele muro invisível para que a pessoa entenda que aquele evento também é para ela.”
Neta da escritora Julieta Taranto, que publicou seus primeiros livros e entrou para a Academia de Letras de Ribeirão Preto na terceira idade, Renata seguiu um caminho diferente — é formada em economia pela USP —, mas sabe bem o que os livros representam. “Vi a transformação da autenticidade da minha avó já na idade avançada. A literatura te dá liberdade para formar indivíduos mais conscientes das próprias escolhas.”
Novos desafios
Conforme a Flip atrai cada vez mais multidões, os desafios de infraestrutura e gestão urbana também crescem na mesma proporção. “Um ponto de atenção é ver como a cidade consegue absorver essa quantidade de gente e, ao mesmo tempo, manter esse tom festivo”, diz Rita Palmeira. “A festa foi se capilarizando e a Flip tenta ajudar a criar soluções para que Paraty suporte isso.”
Além de abarcar novas soluções para dar conta do público, o foco das próximas edições continua na busca para que o impacto não termine no domingo de encerramento. “A gente fala da Flip 360: no sentido de que olha em várias dimensões e direções, e de dias também. São 365 dias no ano e, além desses cinco dias de festa, tem outros 360 em que a gente faz atividades”, diz Belita.
O plano da diretora para o futuro da Flip é consolidar o evento como uma plataforma permanente de formação profissional para a juventude local. “O que a gente quer avançar é profissionalizar, em uma escala maior, a garotada que vai passando por essas formações em produção cultural, audiovisual e técnica, para que eles e os educadores possam atuar no mercado de trabalho.”
Renata Ruggiero também enxerga o futuro das parcerias corporativas ligado à descentralização da cultura durante os 365 dias do ano. “O objetivo para os próximos anos é criar um fluxo de atividades que aconteça nas comunidades e não dependa de trazer as pessoas apenas para um evento pontual.”
Quando as tendas são desmontadas, a lição que fica é a de um modelo de negócios cultural que se reinventa para sustentar o próprio crescimento. “Conseguimos fazer tudo isso não porque dominamos super bem o nosso pedaço, mas porque fazemos juntas. Uma olha para o trabalho da outra e ajuda”, conclui Belita. Agora, ela recomeça a contagem — e os preparativos — para a próxima edição da Flip.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.