Como nasceu o foco em saúde mental no Nubank

Renato Pizzutto
Cofundadora da fintech, Cristina Junqueira, traz visão franca do impacto de desafios pessoais no trabalho

O fim do ano passado não foi fácil para Cristina Junqueira. Com uma filha pequena e tentando engravidar, a cofundadora do Nubank buscava administrar suas múltiplas atribuições profissionais enquanto lidava com o baque de ter o pai no hospital, em condições graves de saúde.

Eleita uma das Mulheres Mais Poderosas do Brasil pela Forbes em 2019 e líder de uma das empresas que mais cresce no país, Cristina precisou pedir um pouco de paciência e compreensão a seus sócios, David Vélez e Edward Wible, para equalizar a agenda profissional com o peso das demandas pessoais.

A empreendedora falou com a Forbes Brasil ontem (10), Dia Mundial da Saúde Mental, e comentou sobre seus desafios recentes para ilustrar a importância de ter políticas corporativas que acomodam as dificuldades que qualquer profissional que, independentemente do nível de senioridade, pode ter de enfrentar.

“Precisei acionar toda uma rede para me apoiar naquele momento difícil. Neste processo, ficou claro que esta é uma das facetas pelas quais a inclusão se manifesta no Nubank, no acolhimento para estas situações pontuais: uma doença, um divórcio, a perda de alguém da família”, aponta.

“Em uma empresa com tantas pessoas, qualquer uma delas pode estar passando por alguma coisa difícil, que traz uma camada adicional de pressão”, acrescenta. “Se queremos que as pessoas estejam conosco para o longo prazo, também temos de saber que estas coisas podem acontecer.”

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Para apoiar a saúde mental de seus 2.100 funcionários no Brasil, a empresa tem um ambulatório com médicos para tratar de temas que incluem depressão e um pacote de assistência, chamado NuCare, que inclui assistência psicológica, jurídica e financeira 24 horas por dia e sete dias por semana, para orientar funcionários e seus dependentes legais de forma confidencial sobre temas delicados que podem trazer abalo, como acordos de guarda parental e inventários.

Além disso, a fintech faz diversas pesquisas de engajamento, que a cofundadora define como “health checks”: lideradas pela equipe de pessoas, estas investigações tomam o pulso da organização e buscam detectar problemas como estafa e falta de produtividade.

“Tudo isso se desdobra em planos de ação dos gestores, para que possamos fazer mudanças quando as coisas não estão como gostaríamos que estivessem”, diz a cofundadora.

A empresa também está em busca de um head de diversidade e inclusão. O escopo desta futura diretoria incluirá o desenvolvimento de políticas específicas para mulheres, minorias raciais e o público LGBTQ, que hoje representa 30% dos funcionários.

“Trabalhar em uma organização onde pessoas que tradicionalmente não tinham espaço se sintam incluídas, exponham suas preocupações e consigam apoio para vencer seus desafios, certamente faz uma tremenda diferença para a saúde mental delas”, aponta.

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Atualmente em sua segunda gravidez, a cofundadora do banco digital comenta sobre o malabarismo que precisou fazer quando teve sua primeira filha, que incluiu entrar em trabalho de parto durante o expediente e voltar a trabalhar logo após dar à luz, atendendo a ligações e respondendo e-mails da maternidade.

“Acho que estava tão focada em fazer o que precisava fazer, que não tinha nem tempo de pensar que tipo de consequência emocional aquilo poderia ter”, conta. “Foi uma loucura e uma coisa muito feia, que ninguém precisa passar.”

Cristina agora planeja um segundo parto mais tranquilo e tempo para estar com a nova integrante da família. A empreendedora não emprega uma babá e não abre mão de enfrentar o trânsito entre as zonas sul e oeste de São Paulo, para levar e buscar a filha no colégio. Porém, em busca de melhor qualidade de vida, agora planeja se mudar para perto da sede da empresa, em Pinheiros.

Comprometida a agir de maneira diferente e controlar a intensidade de sua rotina de trabalho, a cofundadora do Nubank ressalta que suas experiências passadas não são um troféu a ostentar e tampouco devem ser usadas como referência para outras colaboradoras.

“Há uma tendência de romantizar ‘role models’, e ninguém é perfeito: a gente erra, bate cabeça”, diz. “Muitas vezes, idealizamos muito as pessoas e desconstruímos tudo depois que vemos uma falha, um ângulo delas que talvez não conhecíamos, mas que também não anula todo o conjunto positivo.”

“Tenho muito orgulho do que fiz [profissionalmente], mas também me orgulho muito da mãe que sou. Porém, tenho muitos problemas e falhas e é importante que as pessoas vejam e entendam isso, senão a pressão aumenta para que atinjam uma expectativa que, muitas vezes, é irreal.”

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A IBM organizou com a ONG de saúde mental Give an Hour um Innovation Jam, uma conversa ao vivo focada na mudança de cultura em torno da saúde mental com mais abertura e empoderamento. Ontem e hoje (11), pessoas de todo o mundo participam da discussão sobre doenças mentais, o estigma que as impede de procurar ajuda e como a tecnologia pode ajudar no acesso a tratamentos e gerenciamento de suas doenças.

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Investidores estrangeiros, autoridades nacionais, executivos de grandes empresas e startups promissoras se reunirão um evento com o objetivo de gerar oportunidades de investimentos. A quinta edição do Corporate Venture in Brasil, evento organizado em parceria pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Global Corporate Venturing (GCV) e Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) acontece em São Paulo em 15 e 16 de outubro. A programação inclui uma apresentação das parcerias que a alemã Basf fez no Brasil para desenvolver novas tecnologias e a visão de negócios do Softbank para a América Latina.

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A B2Mamy, aceleradora que conecta mães empreendedoras ao ecossistema de inovação e tecnologia promove no próximo dia 25 de outubro o programa B2Mamy START, um evento voltado a mães que desejam empreender. O intensivo de um dia acontece na Casa B2Mamy, em São Paulo, e entregará às participantes ferramentas e soluções como elaboração de planos de negócio.

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Angelica Mari é jornalista especializada em inovação há 18 anos, com uma década de experiência em redações no Reino Unido e Estados Unidos. Colabora em inglês e português para publicações incluindo a FORBES (Estados Unidos e Brasil), BBC, The Guardian e outros.

 

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