Afinal, quem inventou o champanhe?

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História da produção passa por franceses e ingleses, grandes consumidores da bebida

A região de Champagne fica na França, a noroeste de Paris aproximadamente 150 km, uma localização privilegiada que recebeu periodicamente a corte francesa, um dos grandes motivos que a conectou ao status de luxo, celebração, poder, riqueza e romance.

Também foi cenário de inúmeras guerras, que forçaram os champenoises a se refazerem, ressignificarem e reconstruírem as cidades e a economia local. Se existe uma região exemplo de força, resiliência e viúvas transformadoras como Mme. Clicquot, Mme. Pommery e Mme. Bollinger, entre outras, é Champagne.

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Data de 1522 uma de suas primeiras maisons, a Philipponnat (segundo Charles Philipponnat, com documentos ainda não oficiais). Em seguida, vieram a Ruinart, em 1729; e Claude Möet, em 1743, que depois se chamaria Moët et Chandon, em 1833, famosa pela cuvée Dom Pérignon e que, segundo os franceses, inventou o champanhe e disse: “Venham rápido, estou bebendo estrelas!”.

Mas será?

Para chegar a esta resposta, comecemos pelas garrafas, pelo vidro, que, segundo dados históricos, foi “inventado” acidentalmente por velejadores fenícios enquanto faziam fogo na praia. O contato da panela quente com areia no fundo apoiada nos tijolos de natron (minério de carbonato de sódio) formou o material. Outras fontes citam a Mesopotâmia também.

Centenas de anos mais tarde, essa técnica foi aprimorada pelos romanos e dissipada pelo seu império. No século 13, Veneza se tornou o maior centro de produção e trade. Como a produção trazia um alto risco de incêndio, por causa dos fornos, ela foi transferida para a ilha de Murano, e as famílias que detinham essa técnica eram proibidas de sair da ilha, com pena de morte para quem transgredisse. Alguns conseguiram fugir para a região de Tirol (onde fica a fábrica da Riedel), Viena, Bélgica, França e Inglaterra.

E por falar em Inglaterra, por volta dos anos 1600, a produção de vidros estava a todo vapor, e o almirante Sir Robert Mansell convenceu o rei James a proibir o uso de madeira para a produção de vidro, alegando que precisava da matéria-prima para a frota de navios. Foi quando começaram a usar carvão, o que elevou a temperatura do fogo e consequentemente produziu vidros mais fortes.

Não se sabe ao certo, mas claramente Sir Mansell enxergou uma oportunidade ali e se aposentou dois anos depois, segundo as pesquisas de Tom Stevenson para o livro “Christie’s World Encyclopedia of Champagne and Sparkling Wine”, e abriu sua fábrica. Na tentativa de obter cor, ele adicionou ferro e manganês, o que acabou por elevar ainda mais a qualidade do vidro.

Com o vidro forte, as garrafas aguentavam a pressão da segunda fermentação do champanhe (feitos na região de Champagne, os produzidos fora dela são chamados espumantes). Antes disso, inúmeras garrafas explodiam e chegavam a perder 90% da produção, outro fator que encarecia e elevava o preço do vinho, o que limitava a poucos o seu consumo.

Na mesma época, a rolha ressurgiu mais aperfeiçoada e o gargalo das garrafas ficaram mais uniformes. Com isso, os vinhos puderam ser armazenados e exportados, pois antes eram feitos em barricas, uma excelente ferramenta de fermentação e envelhecimento do vinho, mas que quebram no transporte, deixam o álcool evaporar e oxigenam demais a bebida, deixando-a oxidada e sem as características originais.

As temperaturas nesse período eram mais gélidas, e o fenômeno de bolhas acontecia, pois, com o frio que chegava, a fermentação parava e, quando a primavera se aproximava, a temperatura se elevava e as leveduras “acordavam”, alimentando-se do resto de açúcar do vinho e produzindo gás carbônico. Voilà!

Os ingleses gostavam do fizz, mas os franceses não. Por isso, contrataram Dom Pérignon (1638-1715), que começou a trabalhar na Abadia de Hautvillers por volta de 1669 para tirar essas bolhas.

Enquanto isso, os ingleses trabalhavam para conseguir as bolhas e, segundo documento de 1662, da Royal Society of London, escrito por Christopher Merret, eles adicionavam açúcar, levedura e melado para potencializar o nível de álcool e o transformar em espumante. How marvelous!

Em Limoux, na região de Languedoc, por volta de 1531, os mosteiros já praticavam o método ancestral que consiste em engarrafar o vinho que ainda não concluiu a fermentação. O aumento da temperatura na primavera reanima a fermentação da bebida, o que produz um vinho levemente espumante chamado Blanquette de Limoux. Tudo era feito sem muitos cálculos ou fórmulas.

Dom Pérignon, durante uma peregrinação por essa região, parou na abadia de Saint Hilaire e, impressionado com o vinho, resolveu ficar. Mas, segundo produtores dessa região, ele se engraçou com uma moça do vilarejo e foi pego desviando dinheiro da abadia. Acabou sendo expulso, mas como “vingança” roubou o método deles e o levou para Champagne.

Frère Pierre escreveu uma longa dissertação, em 1724, na qual citava que Dom Pérignon foi responsável pela colheita em momentos mais frios (técnica usada mundialmente até hoje), passando várias vezes para colher só as uvas prontas. O blend também foi introduzido por ele a fim de obter vinhos mais equilibrados, assim como o uso de cestas mais rasas para evitar que o peso das próprias uvas não amassassem as de baixo e o blanc de noirs, um vinho branco de uvas tintas. Em nenhum momento, porém, ele relata a invenção do champanhe.

A Inglaterra sempre foi um dos maiores consumidores da bebida espumante. Sir Winston Churchill, ex-premiê inglês, foi um grande promotor e amante, tendo sido homenageado por Pol Roger com uma cuvée em seu nome. “Na vitória merecemos, na derrota precisamos” (fontes divergem se essa frase é dele ou do general francês Napoleão Bonaparte). Estima-se que Churchill tenha bebido 42.000 garrafas em sua vida. “A magnum [que tem 1,5 litro] é o tamanho ideal para dois cavalheiros a compartilharem no almoço, especialmente, se um deles não beber”, falava.

De qualquer forma, a união faz a força. Somos todos gratos por todos aqueles envolvidos nessa grande história e por terem nos proporcionado uma bebida que eleva nossos espíritos positivamente às estrelas. Thank you and merci. Cheers and santé!

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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