Carolina Centola: Sobre vinhos orgânicos, naturais e biodinâmicos

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Entenda as classificações e métodos de produção de cada um deles

Já não temos como ignorar as leis da natureza, o aquecimento global e as tendências que surgem com o despertar desta consciência. Está ficando caro arcar com os estragos dos fenômenos naturais, que têm impactado a economia global, em um efeito dominó. O que seria do mundo sem a China? Quanto um vírus afeta? Será que entendemos mesmo que somos conectados uns com os outros e com o planeta dentro deste universo de dimensões, até então, infinitas?

No livro “A Sexta Extinção” (ed. Intrínseca), Elizabeth Kolbert, uma jornalista americana ganhadora do Prêmio Pulitzer pela obra, constata que estamos no meio da sexta extinção. A primeira aconteceu há 450 milhões de anos, quando os seres vivos eram somente aquáticos no chamado período Ordoviciano. Depois, outra ocorreu há 250 milhões de anos, seguida da mais famosa delas, no período Cretáceo, que dizimou os dinossauros. Sem precisar citar tudo, entendemos nossa pequena permanência neste planeta e nossa insignificância tão significante.

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Mas e o vinho? Precisamos ir tão longe para falar sobre isso? Podemos ir tão longe quanto quisermos, pois vinho vem da terra, a terra que alimenta com toda a história contida nos seus nutrientes e na sua energia. Entender este processo é o que fascina na enologia, com filosofias diferentes, culturas, métodos que transformam essa energia da terra na bebida presente nos momentos mais importantes da humanidade, sejam eles históricos ou cotidianos.

Este despertar da nutrição física vem crescendo nas últimas décadas e, consequentemente, os vinhos acompanham. Os orgânicos crescem por volta de 10% ao ano no mundo, estando na Europa os maiores apreciadores e sendo os países nórdicos os mais exigentes, com um crescimento de 20% neste setor.

Mas o que são vinhos orgânicos?

São vinhos feitos de uvas provenientes de um cultivo de videiras sem nenhuma adição de fungicidas, pesticidas, adubo e fertilizantes, entre outros, que sejam artificiais e manipulados industrialmente, ocasionando poluição do meio ambiente. Orgânico: preservação dos organismos.

Tem sulfito? Na Europa e Brasil, sim, mas, nos Estados Unidos, a classificação de orgânicos não permite a adição de sulfitos. No resto do mundo, varia de país para país.

Uma pergunta bastante comum é se o fato de ser orgânico faz com que o vinho seja melhor, e isso pode ser respondido da seguinte maneira: o vinho orgânico é melhor para a saúde, mas para ser um vinho de qualidade, bem elaborado e com equilíbrio vai depender do produtor. Nas importadoras brasileiras especializadas nestes segmentos, o suporte e conhecimento dos produtores já atinge um nível de profissionalismo satisfatório e confiável. Claro, que no final, o que conta é o paladar do cliente!

Para esclarecer sobre os vinhos naturais conversei com a maior estimuladora deste movimento no Brasil, Lis Cereja. Proprietária da Enoteca Saint VinSaint, restaurante que possui uma carta de vinhos 100% naturais, orgânicos e biodinâmicos com ênfase em produtores brasileiros, Lis é a fundadora da Feira Naturebas, que no último ano recebeu 120 produtores e 2.000 mil visitantes. Tanto seu restaurante como a feira são exemplos a ser seguidos quando se fala de reaproveitamento, reciclagem e sustentabilidade!

Vinho natural: apesar do nome polêmico, pois naturalmente não existe vinho se ninguém colher, fermentar e engarrafar, esse conceito se resume a respeitar os métodos orgânicos e/ou biodinâmicos no cultivo e ter o mínimo de intervenção na vinificação. Isso inclui desde de não podar, não separar uvas e não controlar temperatura a não filtrar e não adicionar nada para manipular sabores, aromas, estrutura e pH, entre outros. Talvez devesse ter o nome de vinho “freestyle”?

Nos vinhos biodinâmicos, temos Rudolf Steiner (1861-1925), um cientista e filósofo, que inicialmente conquistou uma reputação por ser editor dos trabalhos científicos de Johan Wolfgang von Goethe. Ele também era conhecido como um “clairvoyant”, um homem com sensibilidades espirituais, e isso o impulsionou a estudar o assunto por 25 anos.

Naquela época, esses estudos não eram reconhecidos e muitas vezes ignorados, por não haver fundamentos científicos, mas ele o nomeou de antroposofia. As pesquisas inspiraram o método de educação Waldorf, a arte da eurythmy (que, em grego, significa lindo e harmonioso) que usa a dança para estimular o cérebro, além de ter contribuído para medicina, arquitetura, drama e poesia. Mas foi na agricultura a sua maior contribuição para a humanidade. Ele concluiu: “Não será possível a humanidade se desenvolver espiritualmente neste contexto em que os nutrientes não nutrem”. Segundo ele, tudo na terra precisa estar em harmonia para que todos se desenvolvam.

Hervé Jestin, enólogo da maison de champanhe Lecrerc Briant, que pratica a biodinamia na produção disse, em evento privado La Fête du Champagne, em Nova Iorque: “Nós, seres humanos ainda não somos inteligentes o suficiente para entender a natureza”. Ele opina que, quando bebemos um champanhe temos de sentir a energia que ele nos proporciona, em que vibração ela nos eleva e que cada passo, decisão e método na vinícola são meticulosos no que diz respeito ao meio ambiente.

O conceito do biodinamismo é isso: a harmonia da agricultura em relação ao meio ambiente. Para ser biodinâmico, o primeiro passo é ser orgânico. Depois, vem a sintonia com o sol, a lua e todos os astros do cosmos e por último o uso de nove preparações específicas de ervas e substâncias minerais usadas no cultivo. Nada de máquinas, só animais.

Dentro desses conceitos, não precisamos voltar a ser índios, pois a humanidade já atingiu uma sofisticação evolutiva. Podemos, sim, prestar atenção a este movimento que atrai as novas gerações de consumidores, influencers e defensores dos novos hábitos de impacto positivo ao nosso ecossistema.

Importadoras que têm orgânicos, naturais e biodinâmicos: DelaCroix, Anima Vinum, Cellar Vinhos, Vind’ame e Juss Millesime, entre outras.

Tchin tchin!

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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