As mulheres-chave no mundo do vinho

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Figuras femininas brilharam em um universo dominado, durante muito tempo, por homens

Sabia que havia uma sommelière, há 3000 anos, na Babilônia? Igualmente, no Egito, há gravuras de mulheres trabalhando nos vinhedos, mostrando sua importância no processo de vinificação. Mais do que beber, a função tinha a ver com escolher e servir, e isso era feito de maneira igualitária e não discriminatória, diferentemente da cultura greco-romana, onde as mulheres não tinham nenhum direito a esse prazer. Foi nessa miscelânea de culturas que o papel feminino foi redirecionado, e o mundo do vinho se tornou quase que totalmente dos homens.

Passado um grande período, eis que as mulheres, responsáveis pela estrutura familiar das sociedades, apareceram como viúvas empreendedoras. Sim, pois só uma viúva tinha a chance de brilhar numa época em que os homens dominavam os setores econômico, financeiro e têxtil, entre muitos outros. Madame Clicquot-Ponsardin não só brilhou como pegou carona no cometa que passou em 1811, de safras espetaculares em Champagne e Sauternes. Ela nomeou seu vintage de Le vin de la comète, adicionou à rolha uma estrela e suas iniciais, VCP.

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François-Marie Clicquot, seu marido, tinha bom tino para os negócios. Fez com que as vendas da vinícola aumentassem de 8.000 garrafas em 1796 para 60 mil em 1804, com madame Clicquot-Ponsardin sempre ao seu lado. Dizem que essa proximidade a ajudou, quando ficou viúva aos 27 anos, a assumir a produção de champanhe e se tornar a maior empreendedora da época no setor.

Ela inventou o método de remuage, onde os sedimentos são pacientemente gravitacionados para o gargalo da garrafa através de uma mesa em forma de A (pupitre) e depois removidos no dégorgement. Ela inventou os champanhes rosé e vintage e cruzou fronteiras, mesmo sem ter saído da sua região. Empreendedora, conquistou a Rússia, sendo o laranja do seu rótulo a cor que o czar usava. Além da habilidade comercial (entre outras), ela foi uma ávida escritora. Relações-públicas e comunicação, por exemplo, são habilidades que ficam claras nas mais de 100 mil cartas que trocou e estão arquivadas no Pavillon du Patrimoine Historique, consultadas regularmente por CEOs da empresa. O livro “A Viúva Clicquot”, de Tilar J. Mazzeo, é uma leitura muito interessante sobre as peculiaridades dessa famosa e importante mulher.

Outra influente, também em Champagne, foi madame Pommery. Depois de ficar viúva, ela mudou o plano de negócio de sua empresa e redirecionou a produção de vinho tinto tranquilo para espumante branco. Tinha tudo muito claro e decisões muito direcionadas, segundo Michael Edwards, em “The Finest Wines of Champagne” (“Os Melhores Vinhos de Champagne”, em tradução livre). Tendo estudado em colégio interno em Londres, percebeu que os ingleses apreciavam champanhe menos doce. Assim, mudou o estilo do champagne e, com isso, conquistou o mercado inglês. Bingo!

Além dessas contribuições, madame Pommery movimentou o turismo propositalmente. Na arte de entreter, ela construiu um castelo em estilo britânico no meio do vinhedo para receber visitantes, e suas crayères (cavernas de giz da época das escavações romanas usadas atualmente para armazenar vinhos), são profundas e repletas de obras de arte. Vale uma visita!

Um pouco depois de as viúvas abrirem caminho, Françoise-Josephine de Sauvage d’Yquem contou com a doçura do Château d’Yquem, em Sauternes, para aliviar sua dor. Mesmo com tantos desafios emocionais ela viveu até os 83 anos, algo muito incomum para essa época. Conhecida como La Dame of Yquem of Podensac, ela perdeu os pais mas, como previamente organizado por eles, casou-se aos 17 anos. Aos 20, seu marido faleceu, deixando-a no meio da Revolução Francesa com dois filhos. Ela ainda perdeu a sogra e viu o sogro ser executado. Presa com a cunhada, acabou solta depois de pagar fiança graças ao valor do château.

Mais tarde, foi presa de novo acusada de abrigar criminosos e, nesse período turbulento, perdeu a cunhada e a filha. Todo seu sofrimento foi canalizado para o negócio do Château d’Yquem, hoje casa do vinho doce mais caro do mundo. Sozinha com seu único filho, ela trabalhou nos vinhedos, construiu uma nova adega para envelhecer os vinhos no próprio local –enquanto os outros mandavam a bebida por rio para Bordeaux, para as adegas dos comerciantes. Ela empreendeu, comprando mais lotes para adicionar complexidade ao vinho pela diversidade de terroirs e, sua grande contribuição foi passar pelos vinhedos para colher somente as uvas já botritizadas (atacadas por fungos que as deixam com menos água e mais açúcar) e elevar a qualidade da bebida. Thomas Jefferson era grande apreciador desse vinho, que tinha o preço mais alto de toda a região.

Não suficiente, quando tinha 55 anos, seu único filho também faleceu, e ela passou tudo que sabia para o neto, de 10 anos, que perpetuou com excelência seu legado. Que força, que garra, que perspectiva e que intrigante que a história do vinho mais doce seja de uma mulher tão sofrida! Como diz Vinícius de Moraes, “é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba não”. E essa história nos faz lembrar que, mesmo nos momentos mais difíceis, ainda há doçura.

Por falar em bossa nova, não podemos deixar de citar as atuais representantes desse mundo tão rico de força feminina, por muitos anos escondido. Entre elas: Lalou Bize-Leroy, a chamada rainha da Borgonha por ser grande acionista da Romanée Conti e proprietária da vinícola Leroy; Pascaline Lepeltier, uma das pouquíssimas sommelières a ganhar primeiro lugar no Court of Master Sommeliers; e Robin Daniel Lail, proprietária da Lail Vineyards em Napa Valley, uma das últimas gerações tradicionais (a família que fundou Inglenook, que ainda é ativa). Robin foi uma das responsáveis pela fundação da Napa Valley Wine Auction em 1981, que arrecadou, desde então, mais de US$ 180 milhões em doações para organizações sem fins lucrativos da região. No campo das escritoras, há Essi Avellan e a icônica Jancis Robinson, que faz a carta de vinhos dos eventos da família real britânica, além de ser uma das maiores referências em avaliações de vinhos do mundo todo.

Era de se esperar que mulheres se destacassem no mundo do vinho. Quem poderia ser mais perceptivo, sensitivo, acolhedor, harmonioso e, vamos logo falar, borbulhante? Feliz Dia Internacional da Mulher! Tchin tchin!

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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