O desespero natalino

Nesta época, fazemos tudo em excesso: corremos, compramos, comemos. E perdemos a oportunidade de apreciar o real sentido de tudo isso.

Paula Drumond Setubal
Compartilhe esta publicação:
Getty Images
Getty Images

Compramos presentes e mais presentes como se fossem suprir alguma falta

Acessibilidade


O mês é dezembro. Nem precisaríamos de calendário para saber que o Natal se aproxima, pois o trânsito deixa claro.

De repente, tudo que não foi feito nos 11 meses anteriores precisa sair. E pra ontem. Já não sabemos mais como passou tão rápido, e como tem passado cada vez mais rápido a cada ano. Não podem existir pendências como se resolver aquele assunto no dia 3 de janeiro não fosse possível. A sensação é de que o mundo vai acabar. Tudo é urgente.

LEIA TAMBÉM: Ansiedade: até onde devemos normalizá-la?

O contraditório de tudo isso é que essa sempre foi minha época preferida do ano. As luzes, os cheiros, as cores, tudo traz de volta minhas memórias afetivas. De um tempo em que eu não tinha obrigações sociais, em que tudo parecia mais leve. Em que eu não entendia como essa época pode ser ao mesmo tempo tão linda e triste e escancarar como falhamos enquanto sociedade.

Precisamos desesperadamente ver amigos que não vimos o ano inteiro, frequentar eventos que não temos vontade. De forçar mais sorrisos que forçamos o ano todo.

Inscreva-se para receber a nossa newsletter
Ao fornecer seu e-mail, você concorda com a Política de Privacidade da Forbes Brasil.

Compramos presentes e mais presentes como se fossem suprir alguma falta. Como se fossem substituir todas as conversas olho no olho e abraços que deixaram de ser dados.

Nos obrigamos a participar de amigos secretos que não queremos, afinal é dezembro, e faz parte né? Fica chato negar.

Fazemos tudo em excesso: corremos demais, compramos demais, comemos demais. E perdemos a oportunidade de apreciar o real sentido de tudo isso.

Tenho plena consciência do quanto as pausas e recomeços são necessários.

Ciclos (mesmo que imaginários) precisam se encerrar, para que venham novos. Novos começos, novas esperanças, novos planos, novas energias.

365 dias é tempo suficiente para que qualquer um se canse. Para que a gente precise de oportunidade de nos renovarmos, sermos melhores, tentarmos tirar do papel todas as aquelas metas, sonhos e planos. Para que as frustrações, o cansaço e a nossa falta de disciplina fiquem no passado.

Que no dia 1° de janeiro além de um novo ano se inicie uma nova oportunidade de sermos melhores, pra gente e pros outros. De começarmos com o pé direito e deixarmos pra trás tudo o que não nos serve mais.

Em todo mês de dezembro eu pego alguma virose. Minha imunidade vai no chão. Como se algo me obrigasse a pausar e respirar. A me respeitar e me entender. Com esse não foi diferente. Intensa que sou, me permiti mergulhar em mim mesma. Entender a sensação de que preciso de mais 12 horas nos meus dias. De que nunca é suficiente. De que estou em dívida com tudo e todos, de que sempre falta. Que a cada dia fica mais difícil equilibrar todos os meus pratinhos. De que tenho deixado tanto pra depois, e que esse depois não tem chegado.

A minha meta para 2022 é desacelerar. Me respeitar, me ouvir. Olhar mais pra dentro do que pra fora. Ser minha própria fortaleza e refúgio mesmo quando tudo ao meu redor parecer rápido demais. Que eu saiba sempre retornar pra mim mesma.

É postar menos e viver mais. É ser mais honesta comigo mesma, ir na contramão do mundo. Buscar a minha verdade, mesmo que ela não seja a dos outros.

E que por onde eu passar e cada vida que eu tocar, eu possa deixar melhor do que encontrei.

Essa é minha meta e meu compromisso para 2022.

Paula Drumond Setubal é advogada, mãe de gêmeos e produtora de conteúdo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Compartilhe esta publicação: