1. Início
  2. /
  3. Colunas
  4. /
  5. Quanto Custa Poder Mudar de Ideia?
Colunas

Quanto Custa Poder Mudar de Ideia?

Em um mundo de mudanças aceleradas, ter recursos, tempo e autonomia pode ser o que transforma a necessidade de mudar de rumo em uma escolha

7 min

Minha família chegou ao Brasil depois do Holocausto sem praticamente nada. Meu avô havia sobrevivido a um campo de concentração e, no Rio de Janeiro, começou vendendo botões. Depois abriu uma pequena loja de aviamentos no centro da cidade. O negócio cresceu com a família, vieram outras lojas e, algumas décadas mais tarde, eles tinham construído uma operação de varejo relevante no Rio.

Eu cresci cercada por essa história e demorei para entender o quanto ela moldou minha relação com dinheiro. Numa família que já tinha visto as condições de uma vida desaparecer de forma brutal, ter segurança carregava um sentido muito concreto. Dinheiro significava também a possibilidade de atravessar mudanças sem ficar completamente à mercê delas.

Essa memória voltou durante uma conversa recente com as irmãs Ingrid e Sigrid Guimarães — esta última CEO e gestora patrimonial — sobre mulheres, trabalho e autonomia financeira. Ingrid escreveu em uma de suas colunas que “independência financeira não é ter mais dinheiro. É ter mais escolhas”. A frase ficou comigo porque toca diretamente em uma questão que tenho pensado muito desde que escrevi aqui sobre incerteza radical.

Quando o futuro se torna difícil de prever, cresce o valor da capacidade de mudar de direção. Só que essa capacidade também depende das condições que cada pessoa possui para absorver uma mudança.

É aí que dinheiro entra numa conversa sobre inteligência artificial e futuro do trabalho.
Falamos bastante sobre aprender novas ferramentas, desenvolver competências, experimentar e rever carreiras. Faz sentido: as funções estão mudando e algumas tarefas já começam a ser redistribuídas entre pessoas e máquinas. Só que a adaptação profissional exige coisas bastante concretas. Uma formação ocupa tempo e custa dinheiro. Uma mudança de área pode reduzir a renda durante meses. Procurar um trabalho melhor é muito diferente quando existe algum espaço entre você e a próxima conta.

Passei anos no Vale do Silício e conheço bem a cultura do “pivotar”. Uma hipótese deixa de funcionar, você aprende e muda a direção. O princípio continua válido para empresas e pessoas. O que muda é o custo do erro. Há quem consiga testar um caminho e voltar. Para outros, uma escolha profissional que não funciona compromete uma parte muito maior da vida.

Essa diferença deveria ter um lugar mais central nas discussões sobre IA e empregos. Quanto mais cobramos capacidade de adaptação, mais precisamos olhar para as condições que tornam essa adaptação possível.

Há ainda um outro fator que muda essa conta por completo: estamos vivendo muito mais tempo do que vivíamos há poucas décadas. Em 1970, a expectativa de vida no Brasil era de 57,6 anos. Em 2024, segundo o IBGE, ela chegou a 76,6 anos — quase 19 anos de vida a mais em pouco mais de cinco décadas. Isso muda radicalmente o horizonte sobre o qual qualquer decisão financeira precisa ser pensada. Planejar não é mais planejar para os 60 anos. É planejar para os 80, os 90, às vezes mais. Aposentadoria, saúde, moradia, apoio a filhos e pais — tudo isso passou a se estender por muito mais tempo, e a margem de que falo neste texto precisa durar mais também.

Para as mulheres, o tema ganha uma camada própria. Ter salário transformou profundamente a autonomia feminina, mas a vida econômica passa também por patrimônio, cuidado, tempo e participação nas decisões financeiras da família. Uma mulher pode ter uma carreira consolidada e ainda encontrar pouca margem para reduzir a renda, estudar durante meses ou reorganizar a rotina quando o trabalho muda. Pode ganhar bem e conhecer poucas das decisões patrimoniais da própria casa. Pode ter dinheiro e pouco tempo porque boa parte do cuidado continua sob sua responsabilidade.

Há também uma mudança na forma como vivemos os relacionamentos, e ela reforça esse ponto. O número de divórcios no Brasil bateu recorde em 2022, com mais de 420 mil casos registrados pelo IBGE — um crescimento de 8,6% em relação ao ano anterior –, e o país voltou a registrar aumento em 2023. As uniões também vêm durando menos: em 2010, os casamentos que terminavam em divórcio duravam em média 15,9 anos; em 2022, essa média já havia caído para 13,8 anos. Viver mais tempo em relações que também duram menos tempo é uma combinação que exige de cada pessoa — e sobretudo das mulheres — a capacidade de sustentar a própria vida financeira de forma independente. Não porque um relacionamento deva ser visto como algo temporário, mas porque autonomia é exatamente o que garante que, se um dia for necessário mudar de vida, essa mudança seja uma escolha e não uma imposição.
Amartya Sen oferece uma lente útil para essa discussão ao tratar liberdade a partir das possibilidades reais que uma pessoa consegue exercer.

Os recursos importam pelo que permitem fazer. Essa ideia ajuda a enxergar um ponto cego do discurso atual sobre empregabilidade: duas pessoas igualmente talentosas podem perceber a mesma transformação profissional e ter possibilidades completamente diferentes de responder a ela.

Vale olhar para a própria vida por essa perspectiva. Se sua profissão mudasse nos próximos anos, quais condições permitiriam que você mudasse junto? Quanto tempo existe disponível para aprender? Que decisões financeiras você domina? Que parte da sua estabilidade depende do salário atual, de outra pessoa, de uma rede de apoio ou de estruturas de cuidado?
Essas perguntas dizem mais sobre autonomia do que uma fotografia isolada da renda ou dos investimentos. Elas mostram a margem disponível para tomar decisões quando alguma coisa sai do roteiro.

E margem me parece uma palavra especialmente importante agora. Ela pode vir de dinheiro, patrimônio, tempo, apoio familiar ou proteção social. É distribuída de forma desigual e não elimina o risco. Sua função é ampliar o espaço entre a mudança e a obrigação de reagir imediatamente a ela.

Hoje entendo melhor uma coisa que atravessou minha história familiar por gerações. Meus avós sabiam, de uma forma que eu felizmente nunca precisei aprender, que estabilidade pode desaparecer.

Previsibilidade nunca esteve disponível para aquela família. Construir condições de escolha virou uma forma concreta de lidar com o futuro.

Num momento em que a inteligência artificial volta a embaralhar certezas sobre trabalho, carreira e competências, essa herança ganhou para mim um sentido novo. Margem não serve para prever o que vem depois. Ela serve para preservar alguma liberdade quando o futuro muda de direção.

Iona Szkurnik é fundadora e CEO da Education Journey, plataforma de educação corporativa que usa Inteligência Artificial para uma experiência de aprendizagem personalizada. Com mestrado em Educação e Tecnologia pela Universidade de Stanford, Ionaintegrou o time de criação da primeira plataforma de educação online da universidade. Como executiva,Ionaatuou durante oito anos no mercado de SaaS de edtechs no Vale do Silício.Ionaé também cofundadora da Brazil at Silicon Valley, fellow da Fundação Lemann, mentora de mulheres e investidora-anjo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.