Há quase dois anos, escrevi nesta coluna que o Brasil não aguentava mais dois anos de governo Lula. Era dezembro de 2024, o dólar batia R$ 6,20, a Selic subia a 12,25%, e o mercado já desconfiava da âncora fiscal. Pedi, então, que a sociedade rompesse o silêncio. Os dois anos se passaram, não houve correção de rota, e sim aprofundamento.
Às vésperas de uma eleição que decidirá se esse modelo ganha mais quatro anos, proponho um exercício simples: deixar de lado as narrativas e olhar os números que o próprio Estado brasileiro publica.
A conta que não fecha
Comecemos pelo incontestável. Em dezembro de 2022, a dívida bruta do governo geral equivalia a 71,7% do PIB. Em agosto de 2026, chegou a 82,9%, o equivalente a R$ 11,1 trilhões e o maior patamar em mais de cinco anos, segundo o Banco Central. Só em 2026, avançou 4,2 pontos percentuais, sem guerra nem pandemia que o justificasse.
O motor desse endividamento tem nome: juros. Nos últimos doze meses, o setor público apropriou R$ 1,18 trilhão em juros nominais, cerca de 9% do PIB. No mesmo país, o investimento federal em infraestrutura de transporte em 2025 equivaleu a 0,13% do PIB. O Brasil paga a seus credores dezenas de vezes o que investe em rodovias, ferrovias e portos. Isso é o retrato de um Estado que consome o futuro para financiar o presente.
E não se trata de falta de arrecadação. A carga tributária bruta atingiu 32,4% do PIB em 2025, recorde da série do Tesouro Nacional. O brasileiro nunca pagou tanto, e raramente recebeu tão pouco em troca.
Juros, o imposto invisível
O governo dirá que a inflação está dentro da meta. Está: 4,22% em doze meses, segundo o IBGE. Mas a que preço? A Selic, que eu registrava em 12,25% há dois anos, subiu a 15%, o maior nível em quase duas décadas, e hoje está em 13,75%. Descontada a inflação, são juros reais na casa de 9% ao ano. Quando o governo gasta sem lastro, o Banco Central é obrigado a compensar. Quem paga a diferença é o empresário que não financia a expansão, a família que rola o cartão, o jovem que não compra o primeiro imóvel.
Os serviços que não chegam
Na segurança, o crime mudou de forma, e o poder público não acompanhou. É justo registrar que as mortes violentas intencionais caíram ao menor nível desde 2012. Mas o país bateu recorde de estelionatos em 2025: 2,26 milhões de ocorrências, boa parte operada por facções que mantêm verdadeiros escritórios de fraude digital. Apenas 63 mil viraram processo, e menos de 5 mil pessoas foram presas. O feminicídio também bateu recorde, com 1.571 vítimas. O crime organizado nunca foi tão rentável, nem tão impune.
Na educação, o Ideb avançou na margem, mas o ensino médio segue abaixo da meta desde 2013, e nenhum estado a atingiu em 2025. No retrato internacional mais recente, o PISA, 73% dos jovens brasileiros de 15 anos não alcançam o nível básico em matemática. Um país que não ensina matemática não forma engenheiros, programadores nem empreendedores, e nenhuma transferência de renda compensa isso.
É aqui que entra a assistência social. O Bolsa Família tem orçamento de R$ 159,5 bilhões em 2026 e atende cerca de 19 milhões de famílias. Proteger os mais pobres é dever de qualquer governo, mas o problema é a porta de saída. Em 2025, o governo encurtou de 24 para 12 meses o período em que a família que melhora de renda mantém parte do benefício. O desincentivo é tão real que tramita no Senado um projeto para evitar que trabalhadores recusem carteira assinada por medo de perder o auxílio. Um programa social bem desenhado deveria premiar quem sai dele, não puni-lo.
O que os números não captam
Traição de acordo. O arcabouço fiscal foi apresentado em 2023 como o compromisso do governo com o Congresso e com o país. Menos de um ano depois, a meta de 2025 foi rebaixada de superávit de 0,5% do PIB para zero. Desde então, a regra virou uma lista de exceções. Segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado, mais de R$ 170 bilhões em despesas ficaram fora das regras fiscais entre 2023 e 2025. A própria IFI concluiu que os dados revelam a insustentabilidade do regime. Quem muda a regra a cada rodada, não tem regra.
Abuso. Em junho de 2025, o Congresso sustou o decreto que elevava o IOF. Três semanas depois, uma decisão monocrática do Supremo restabeleceu quase integralmente o aumento. No mesmo mandato, o presidente indicou para a Corte seu advogado pessoal e seu ministro da Justiça. Tentou ainda indicar o advogado-geral da União, rejeitado pelo Senado em abril, na primeira recusa desde 1894. Quando o Executivo perde no Parlamento e vence no Judiciário, e quando as cadeiras do Supremo passam a ser ocupadas por quem defendeu o presidente, a separação de Poderes deixa de ser princípio e passa a ser conveniência.
Renitência. Nada indica autocontenção. Para 2026, ano eleitoral, a IFI projetava mais R$ 74 bilhões em despesas fora da meta. O Estado cresce em arrecadação, em gasto e em dívida, e o governo trata cada limite como obstáculo a contornar, não como compromisso a cumprir.
Despreparo e falta de boa-fé. O presidencialismo multipartidário exige construir maiorias em torno de um projeto. O governo preferiu a lógica do balcão, ao negociar apoio quando pode e recorrer ao Supremo quando não consegue. O resultado é uma relação de dependência mútua entre os Poderes, em que ninguém é inteiramente responsável por nada e o eleitor perde a capacidade de saber a quem cobrar.
O preço das escolhas
Em meados dos anos 1970, Brasil e Coreia do Sul pareciam destinados a caminhos semelhantes. Ambos viviam sob regimes militares, industrializavam-se em ritmo acelerado e disputavam espaço entre as economias emergentes mais promissoras do mundo, com uma diferença: o Brasil estava à frente. Em 1975, o PIB per capita sul-coreano girava em torno de US$ 5 mil, medido em paridade de poder de compra, menos da metade do brasileiro. Cinquenta anos depois, a Coreia supera US$ 55 mil e se iguala a França e Reino Unido. O Brasil saiu de cerca de US$ 12 mil para menos de US$ 20 mil, segundo dados da Penn World Table, da Universidade de Groningen, e do Banco Mundial. Diluído em cinco décadas, esse avanço equivale a estagnação.
A divergência não se explica por recursos naturais, que nos sobram, mas por escolhas. Enquanto a Coreia fez da educação um projeto de Estado, sustentado por governos sucessivos, e expôs sua indústria à competição global, o Brasil se fechou, atravessou uma década perdida e conviveu com a hiperinflação até o Plano Real. Não estamos sozinhos: Argentina e México, por razões distintas (ciclos de populismo e calotes no primeiro, informalidade crônica e baixa produtividade no segundo), percorreram trajetórias igualmente estagnadas.
O Supremo de um homem só
O debate eleitoral fala de economia, segurança e corrupção. Fala pouco daquilo que talvez tenha o efeito mais duradouro do voto de outubro: a composição do Supremo Tribunal Federal pelas próximas duas décadas.
Três dos 11 ministros atingirão a idade-limite da aposentadoria compulsória: Luiz Fux, em 2028; Cármen Lúcia, em 2029; e Gilmar Mendes, no fim de 2030. A esse ciclo soma-se uma cadeira que já está vazia: o tribunal tem uma vaga aberta desde a saída antecipada de Luís Roberto Barroso, em 2025, após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias feita por Lula, que ainda não escolheu outro nome.
São quatro indicações num único mandato. Somadas às de Cristiano Zanin, Flávio Dino e Dias Toffoli, que permanecem na Corte, um Lula reeleito terminaria 2030 como autor de sete das onze cadeiras do tribunal.
O que torna isso relevante não é apenas a quantidade, mas a duração. Ministros do Supremo não têm mandato: ficam até os 75 anos. Zanin tem aposentadoria compulsória prevista para novembro de 2050; Dino, para abril de 2043. Um indicado de 50 anos em 2028 votaria até meados da década de 2050. A maioria formada em um único quadriênio sobreviveria a pelo menos quatro presidentes seguintes. E depois desse ciclo a janela se fecha: o presidente que assumir em 2031 poderá indicar apenas um ministro, já que a próxima vaga surgirá somente em 2033, com a aposentadoria de Edson Fachin.
Para quem investe, contrata e planeja no Brasil, trata-se de uma questão de previsibilidade. Temas tributários, trabalhistas, regulatórios e de propriedade são decididos em última instância por esses onze ministros. Uma Corte com maioria estável de origem única reduz a contestação interna, que é justamente o mecanismo que dá credibilidade às suas decisões.
O mais grave
Tudo isso aconteceu em um mandato no qual o presidente sabia que enfrentaria as urnas. Um eventual novo mandato seria exercido sem esse freio. É a perspectiva de retorno que costuma impor alguma disciplina mesmo a presidentes em fim de ciclo. Para Lula, tal perspectiva praticamente não existe. Na prática, um novo mandato iniciado em 2027, aos 81 anos, seria o último capítulo de sua vida pública, sem nenhum horizonte eleitoral a moderá-lo. Se, com a disciplina da eleição pela frente, a dívida subiu mais de onze pontos do PIB e o arcabouço foi desfigurado, o que esperar quando já não houver eleição a disputar?
Em dezembro de 2024, perguntei quando a sociedade romperia o silêncio. A resposta, agora, cabe a cada eleitor, no próximo domingo.
*Antonio Camarotti é CEO e publisher da Forbes Brasil