1. Início
  2. /
  3. Escolhas do editor
  4. /
  5. Uma Guardiã para 10 Mil Fazendas em Busca de Sustentabilidade
Escolhas do editor

Uma Guardiã para 10 Mil Fazendas em Busca de Sustentabilidade

Saiba como Aline Locks comanda uma plataforma com 8,5 milhões de hectares monitorados, dados cobiçados por nomes como ADM, Bunge, Cargill, Unilever, Danone, Nestlé, Mars, Rabobank, Sicredi e Itaú

7 min

Dia 18 de março foi especialmente uma data importante para a engenheira ambiental Aline Locks, 42 anos, e que há 20 anos atua no agro. A Produzindo Certo, empresa de inteligência socioambiental da qual ela é CEO – e que nasceu como uma ONG lá em 2004 –, registrou a fazenda de número 10 mil em sua plataforma.

“Chegar a 10 mil fazendas foi um ponto simbólico para nós. Representa que é possível aplicar sustentabilidade de forma estruturada, técnica e com escala dentro da produção agropecuária”, disse Aline, que é CEO da Produzindo Certo, à Forbes na semana passada, quando já eram exatamente 10.030 fazendas no sistema, o que significa cerca de 8,5 milhões de hectares monitorados. Com atuação em 20 estados brasileiros e presença também no México, Paraguai, Colômbia e Argentina, a Produzindo Certo vem estruturando um modelo de assistência técnica em sustentabilidade com base em dados primários, análise remota e monitoramento contínuo.

O número de fazendas representa um avanço expressivo em relação à fase anterior, a de ser uma organização não governamental com o nome Aliança da Terra, que foi fundada pelo produtor americano John Carter e que até 2018 havia atendido cerca de 1.200 propriedades rurais. A virada para o modelo empresarial ocorreu em 2019.

Aline, que em 2021 entrou na lista Forbes das 100 Mulheres Poderosas do Agro, está no projeto desde a sua fundação e diz que a decisão de migrar de ONG para empresa se deu por causa da limitação estrutural da filantropia em alcançar escala e a necessidade de vincular indicadores ambientais às relações comerciais do agro. “A gente via empresas testando pequenos projetos, sem conexão direta com o mercado. Era preciso inserir a variável ambiental como componente das operações comerciais”, afirma ela.

Com o crescimento da operação, a Produzindo Certo abriu sua primeira rodada de captação com investidores em 2024, no valor de R$ 10 milhões, classificada como pré-série A. A previsão de fechamento é para este mês de abril e os recursos estão destinados a três frentes: avanço tecnológico da plataforma, com integração de inteligência artificial para validação automática de imagens, documentos e evidências; estruturação de um modelo de negócios para uma rede de técnicos homologados; e fortalecimento das áreas comercial e de marketing.

Mas o que de fato faz a Produzindo Certo? Nomes como ADM, Bunge, Cargill, Unilever, Danone, Nestlé, Mars, Rabobank, Sicredi e Itaú – que atuam na originação, financiamento ou industrialização da produção agropecuária – fazem parte do portfólio. São elas que contratam a expertise da equipe de Aline para realizar diagnósticos socioambientais nas fazendas da sua cadeia de suprimento. O produtor rural, embora beneficiário do serviço, não é o cliente direto. Segundo Aline, menos de 5% das propriedades da base procuraram a empresa por conta própria.

O protocolo utilizado envolve visita presencial obrigatória à fazenda para coleta de dados por técnicos homologados, aliada ao cruzamento com bases remotas de informações sobre desmatamento, focos de calor, mapas de carbono, embargos, listas de trabalho escravo e outros. A análise, que antes levava até sete dias, hoje é processada em cerca de uma hora, graças à tecnologia da plataforma própria. O relatório gerado inclui diagnóstico, plano de ação, escore de sustentabilidade e recomendações. “Com tecnologia, transformamos essa base complexa em informações claras e acionáveis para as empresas e para o produtor”, diz ela.

Agora, a ideia é acelerar o uso da inteligência artificial nos processos, ainda em fase de desenvolvimento, para a validação automatizada de imagens enviadas por técnicos: fotos de tanques de defensivos, alojamentos, áreas de depósito e outras estruturas poderão ser analisadas por IA em lugar da triagem manual feita hoje por analistas humano. Mas o modelo de rede de extensionistas homologados, treinando profissionais que já atuam em campo por bancos, cooperativas e empresas do agro continuará em uma outra dimensão, acredita ela. A obrigatoriedade da visita presencial ainda é considerada indispensável para atestar conformidades trabalhistas, estruturais e operacionais que não são captadas por sensoriamento remoto.

As empresas têm demandas específicas segundo Aline, entre elas mensuração de emissões de gases de efeito estufa, certificações socioambientais e avaliação de riscos regulatórios, como embargos, passivos fundiários e cumprimento do Código Florestal. Um ponto central das demandas é a medição da pegada de carbono no chamado escopo 3, aquele que envolve a cadeia de fornecedores das empresas, como determina a lógica de compromissos de net zero adotados por grandes corporações.

“As empresas entenderam que, para cumprir seus compromissos de net zero, precisam conhecer com precisão a realidade socioambiental das fazendas que compõem sua cadeia. É aí que entramos: medindo emissões, avaliando riscos regulatórios e organizando essas informações com base técnica e auditável”, afirma Aline Locks.

Segundo ela, com a  medição real das emissões na origem — no nível da fazenda —, a plataforma permite que as empresas substituam a média nacional de emissões por dados precisos, o que reduz o volume de créditos de carbono necessário para compensação. “Se a soja vem com uma pegada medida e mais baixa, o custo da compensação cai”, diz ela.

Não por acaso, ela acompanha com atenção máxima os cenários de adaptação global do agro às regulações ambientais, como é o caso do Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desflorestação (EUDR). Previsto para entrar em vigor até até 31 de dezembro deste ano para grandes e médias empresas, ele trata de commodities como madeira, cacao, café, soja, óleo de palma, gado/carne e borracha. “A regulação traz exigências adicionais que vão tornar o processo mais burocrático e caro, e o custo tende a ser repassado ao produtor”, afirma Aline.

Um dos refinamentos em curso que vem ajudando nesta tarefa, e que deve ganhar escala, foi a criação do Reg.IA (Consórcio de Agricultura Regenerativa), o primeiro da América Latina. Nesse modelo, produtores que implementam práticas como cobertura permanente do solo e redução de insumos químicos recebem um prêmio de 2% sobre o valor de venda do milho e da soja, pago por empresas como BRF e Milhão Ingredientes. A Bayer, Agrivalle e o grupo de pesquisa GAPES participam como mantenedores. A Produzindo Certo executa o protocolo, realiza as medições e entrega os laudos que fundamentam os pagamentos.

A empresa também conduz projetos para avaliar indicadores de solo, carbono e biodiversidade em áreas agrícolas, mas evita estruturar projetos com foco exclusivo na geração de crédito de carbono. “No Brasil, é muito difícil gerar crédito de carbono a partir da atividade agropecuária. As práticas mais comuns, como plantio direto, já são adotadas há décadas e não configuram mais adicionalidade, o que inviabiliza economicamente os projetos”, diz Aline.

Outro tema no radar é a conexão entre sustentabilidade e financiamento agrícola. A plataforma já monitora 100% das fazendas para critérios como desmatamento e condições de trabalho, por exemplo, agora trabalha para que o laudo técnico da Produzindo Certo sirva como comprovação válida para obtenção de crédito rural com taxas diferenciadas, como prevê o Plano Safra, que oferece redução de juros para propriedades que demonstrem boas práticas ambientais. “O crédito rural é um insumo estratégico para o produtor. Se conseguirmos conectar sustentabilidade com acesso a financiamento, criaremos um incentivo real para quem já faz a coisa certa no campo”, afirma Aline. A empresa está em tratativas com o governo para a validação do laudo como documento oficial.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.