Depois de assinarem um novo contrato de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,31 bilhões) com a Paramount, Trey Parker e Matt Stone entraram para o clube mais exclusivo de Hollywood.
No dia 2 de julho, após a Comedy Central adiar a estreia da 27ª temporada da série porque a Paramount, dona do canal, estava presa a uma negociação conturbada pelos direitos de streaming — em meio ao processo de meses da aquisição da Paramount pela Skydance Media de David Ellison —, Parker e Stone fizeram uma publicação no X: “essa fusão é uma zona”, escreveram, “e está ferrando com South Park.”
Ambos os impasses foram resolvidos nesta semana: na segunda-feira (21), Parker e Stone fecharam um acordo de streaming de cinco anos, no valor de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,31 bilhões), que levará South Park para o Paramount+ globalmente. Já na quinta-feira (25), a FCC aprovou oficialmente a aquisição da Paramount pela Skydance.
O contrato consolida a dupla como os showrunners mais bem pagos da televisão americana e transformou Parker, de 55 anos, e Stone, de 54, em bilionários — com patrimônio estimado em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,64 bilhões) cada. Mas o novo contrato — que vai pagar aos dois ao menos US$ 250 milhões (R$ 1,38 bilhão) por ano — não resolveu todos os problemas da Paramount.
No episódio de estreia da nova temporada, exibido na quarta-feira (23), Donald Trump aparece na cama com Satanás, e Jesus surge alertando os protagonistas sobre os riscos de provocar figuras poderosas. “Vocês viram o que aconteceu com a CBS? Adivinha quem é dono da CBS? A Paramount”, diz o personagem. “Querem acabar como o Colbert?”. Parker e Stone agora fazem parte do seleto grupo de bilionários criativos da TV, ao lado de Oprah Winfrey, Tyler Perry, Dick Wolf e Jerry Seinfeld. Esse valor é uma prova da popularidade duradoura de South Park, um fenômeno cultural desde sua estreia na Comedy Central em 1997.
O sucesso
Já na segunda temporada, a série se tornou o programa mais assistido da TV a cabo básica — excetuando os esportes —, com quase 6 milhões de espectadores. Com o tempo, virou peça-chave da Comedy Central, e seus mais de 300 episódios se tornaram conteúdo valioso, reprisado dezenas de vezes por semana.O verdadeiro golpe de mestre da dupla aconteceu em 2007, quando Parker, Stone e seu advogado e sócio, Kevin Morris, firmaram um acordo com a emissora para exibir os episódios de South Park online com um reprodutor em Flash bastante simples, decidindo dividir em partes iguais a receita digital, que na época ainda nem existia.
A revolução do streaming mudaria tudo. Em 2014, o Hulu adquiriu os direitos por US$ 87,5 milhões (R$ 484,85 milhões) e renovou o contrato por US$ 110 milhões (R$ 609,4 milhões), com validade até 2019. Depois, o HBO Max venceu uma disputa com Peacock, Netflix e outras plataformas e levou a exclusividade nos EUA por US$ 550 milhões (R$ 3,04 bilhões), em um acordo de cinco anos que expirou em junho.
Em vez de apenas embolsar sua parte do contrato com a HBO, Parker e Stone negociaram em 2021 um novo modelo com a Paramount (dona da Comedy Central): em troca de novos episódios e parte da receita do streaming, teriam um pagamento anual garantido de US$ 155 milhões (R$ 858,7 milhões).
South Park mira fortuna bilionária
O acordo anunciado na segunda-feira (21) renegociou esses termos e elevou a remuneração anual para US$ 250 milhões (R$ 1,38 bilhão). Parker e Stone investem essa fortuna na Park County — nome que homenageia tanto a cidade fictícia da série quanto a produtora que fundaram em 2012 e da qual são os únicos donos.
Toda a renda vinda de South Park, de seus filmes e das produções teatrais de The Book of Mormon, que eles coescreveram, passa pela empresa. Eles retiram um salário anual estimado em US$ 10 milhões (R$ 55,4 milhões). Essa estrutura corporativa é comum entre os grandes nomes de Hollywood. Mas ao contrário de empresas como a Hello Sunshine, de Reese Witherspoon, ou a Plan B Entertainment, de Brad Pitt, a Park County nunca recebeu investimentos externos.
Em 2012, os criadores apostaram no próprio sucesso e, com base na renda gerada por South Park e outros projetos, levantaram US$ 60 milhões (R$ 332,4 milhões) em dívida conversível com o banco The Raine Group. Se quitassem o empréstimo em dia, manteriam 100% da empresa. A aposta deu certo: com a explosão do streaming, a dupla comprou a parte da Raine em 2016 e manteve a propriedade total. Até hoje, a Park County continua usando dívida para financiar sua expansão.
Em 2023, por exemplo, obteve uma linha de crédito de US$ 800 milhões (R$ 4,43 bilhões) com o gigante do private equity The Carlyle Group. Graças ao custo da dívida e à famosa “contabilidade criativa” de Hollywood — que envolve, por exemplo, a depreciação do valor de catálogo —, a empresa tem conseguido reduzir e adiar significativamente suas obrigações fiscais.
O plano final? Vender a empresa, quitar os débitos e impostos, e ficar com o lucro líquido. Fontes da Forbes revelaram que a Viacom, então dona da Comedy Central, e a Park County discutiram essa possibilidade em 2019, em um modelo parecido com as aquisições que a Disney fez de marcas como a Lucasfilm e a Marvel. As negociações chegaram a uma avaliação de US$ 1 bilhão (R$ 5,54 bilhões), mas a conversa empacou.
Naquele mesmo ano, a Viacom enfrentava uma fusão instável com a CBS — como acontece novamente agora —, o que tornava aquisições caras inviáveis. Em 2021, quando as conversas foram retomadas, o contrato de produção com a Park County foi fechado por US$ 935 milhões (R$ 5,18 bilhões) ao longo de seis anos — quase o mesmo valor da aquisição, mas sem mudança de controle. Com uma receita garantida e margens de lucro robustas, a Forbes estima que o valor de mercado da Park County pode chegar a US$ 3 bilhões (R$ 16,62 bilhões) em uma eventual venda, o que renderia mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,54 bilhões) a cada um dos criadores.
Resolvendo a crise
As negociações mais recentes entre a Paramount e a Park County foram as mais difíceis até hoje, servindo como um teste antecipado para a gestão de David Ellison, da Skydance — filho de Larry Ellison, o segundo homem mais rico do mundo. Em conversa com analistas, Ellison afirmou que quer transformar sua nova Paramount em um estúdio com foco na criatividade e o primeiro destino para os melhores contadores de histórias.
Enquanto antigos donos haviam cedido temporariamente os direitos de séries como South Park e Yellowstone a outras plataformas de streaming para gerar caixa rápido, Ellison parece decidido a trazer todo o conteúdo de volta ao catálogo do Paramount+.Mas o processo teve turbulência. No fim de junho, a Park County ameaçou entrar na Justiça contra a Skydance, acusando-a de interferir em suas negociações com a Netflix e a Warner Bros. sobre os direitos de streaming de South Park.
A Paramount estava motivada a fechar o negócio e evitar mais publicidade negativa — como a que se seguiu ao pagamento de US$ 16 milhões (R$ 88,64 milhões) a Trump por uma entrevista no 60 Minutes com Kamala Harris ou o recente cancelamento do The Late Show with Stephen Colbert. Diante da possibilidade de mais um adiamento na estreia da temporada e da dupla falar mal da situação durante o painel da Comic-Con de San Diego — onde, surpreendentemente, preferiram não polemizar —, a Skydance e a Paramount decidiram na segunda-feira (21) revisar o contrato de produção da Park County junto com o novo acordo de streaming, que era o principal ponto de impasse nas conversas.
Agora, com o bolso cheio graças ao contrato de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,31 bilhões), Parker e Stone vão produzir 10 novos episódios de South Park por ano até 2030. Não há dúvidas de que continuarão a satirizar tanto a própria empresa quanto o presidente, famoso por recorrer à Justiça. Quando perguntado, durante um painel na Comic-Con na quinta-feira (24), sobre o que esperar do restante da temporada, Stone respondeu, irônico: “sem política”, arrancando risadas da plateia. E Parker, ao ser questionado sobre a reação negativa de Trump ao episódio de estreia, devolveu no mesmo tom: “estamos profundamente arrependidos.”