Foi dada a bandeira de largada para a safra de verão na Argentina, liderada pela soja e pelo milho, mas que também inclui girassol e sorgo. O destaque este ano é a mudança nas decisões de plantio dos produtores a partir do impacto da redução dos direitos de exportação na equação econômica.
Na visão do governo argentino, as retenções são um imposto ruim, que deve ser eliminado o quanto antes. Mas em momentos em que a economia ainda se estabiliza após décadas de déficit fiscal crônico, prevalece o célebre “carteira mata galã”. Assim, o governo decidiu que a redução desse tributo sobre as exportações dos principais cultivos e da carne bovina e de aves será muito gradual e de forma a não comprometer o superávit fiscal.
O setor agroindustrial sabe disso e acompanha a decisão, mas quando se trata de negócios cada um defende o seu interesse, de modo que a resposta de produtores e exportadores se ajusta conforme as medidas adotadas pelo governo.
Recalculando rotas
Dois dados evidenciam a importância de que os sinais de política econômica sejam claros e, sobretudo, oportunos. Por um lado, o trigo, que sem dúvida lidera entre os cultivos de inverno, terá este ano uma safra muito boa, salvo algum fator climático inesperado.
Nesse ponto foi fundamental a decisão do governo de manter a redução temporária das retenções e anunciá-la justamente antes do início da janela de plantio de trigo e cevada. Ainda está por se ver o rendimento da safra, mas analistas estimam em cerca de 20 milhões de toneladas de trigo, o que deixaria um excedente exportável de 11 a 12 milhões de toneladas.
“Foram semeados cerca de 400 mil hectares a mais por conta da redução dos direitos de exportação, o que representa um aumento de 6,3% em relação à safra anterior”, afirma Eugenio Irazuegui, analista de mercados da corretora de grãos Zeni, acrescentando que “a previsibilidade foi a chave”.
A Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) mantém previsão mais conservadora, estimando uma área plantada de 6,9 milhões de hectares para a safra, idêntica à anterior.
“Para a principal região tritícola ao sudeste da província de Buenos Aires, a decisão do governo chegou a tempo, mas não tanto para áreas mais ao norte, que já haviam preparado o solo para outros cultivos”, observa Fernando Nevares, presidente da CREA e produtor na região de Bragado.
Nevares valoriza que as retenções tenham sido reduzidas de forma permanente, mas defende que, em vez de decreto, “seria melhor se fosse por lei”. Ele acrescenta que “sem retenções, a safra de grãos dobraria; em 10 anos chegaríamos a 250 milhões de toneladas”.
“O trigo apresenta 90% das áreas entre muito boas e excelentes, mas já há combate à ferrugem e à mancha amarela”, aponta relatório recente da BCR. Por outro lado, em relação à safra de verão, a entidade destaca que “o milho precoce já cobre 3% da área prevista e se projetam 15,5 milhões de toneladas apenas na região núcleo”.
Estima-se que 95% dos solos estejam com reservas adequadas de água, o que sinaliza bons rendimentos e permite afirmar que, mantida a previsão, seria “a melhor safra em 15 anos”. Para o total do país, algumas estimativas falam em até 57 milhões de toneladas de milho, no melhor dos cenários.
Mexendo nos impostos
Tudo começou em janeiro passado com uma redução temporária de 20% nas retenções de todos os grãos e das carnes, válida até 30 de junho, quando as alíquotas voltariam aos níveis anteriores. Assim, a soja em grão caiu de 33% para 26%, os derivados de 31% para 24,5%, milho, trigo, cevada e sorgo de 12% para 9,5% e o girassol de 7,5% para 5,5%. As carnes de aves e bovina caíram de 9% para 6,75%.
A medida impulsionou as exportações de grãos da safra passada e a liquidação de divisas para aproveitar a redução temporária do tributo. Isso se refletiu na entrada de dólares dos exportadores, que em junho, último mês de vigência da medida, liquidaram 87% mais que no mesmo mês do ano anterior e 21% a mais que em maio, segundo dados da Câmara da Indústria do Óleo e do Centro de Exportadores de Cereais (CIARA-CEC).
Para se ter uma ideia da relevância do aporte de divisas do setor agroindustrial, nos primeiros oito meses do ano entraram por exportações US$ 21,339 bilhões, o que representa cerca de 50% das reservas internacionais brutas que o Banco Central possui atualmente.
A primeira mudança do governo ocorreu em meados de maio, quando decidiu estender a redução temporária das retenções para trigo e cevada até 31 de março de 2026, justo antes do início do plantio da nova safra. Foi uma resposta oportuna, que buscou dar sinais aos produtores que já começavam a se preocupar com a falta de definições.
Alguns analistas consideram que a medida chegou um pouco tarde, já que as decisões de plantio são tomadas meses antes, quando é necessário preparar os campos com cultivos de cobertura como parte da rotação, além de prever a compra de sementes, fertilizantes, agroquímicos e contratação de serviços.
Outro ponto de inflexão foi o anúncio do presidente Javier Milei na Exposição Rural de Palermo, em 26 de julho, de que a redução das retenções para trigo e cevada seria permanente e que também haveria redução para soja, milho e demais cultivos de verão, além de um novo corte para carnes de aves e bovina, de 6,75% para 5%.
Um mundo complexo
“A redução dos direitos de exportação chegou a tempo, veremos se é suficiente”, afirma Enrique Erize, presidente da consultoria Nóvitas, especializada no mercado de grãos. O ponto central é que os preços internacionais estão baixos há bastante tempo. “Corrigidos pela inflação, os preços dos grãos estão em mínimos históricos”, disse Erize. Ele explica que as retenções à soja em 26% continuam muito altas em um cenário de queda de rentabilidade, de modo que “o governo terá de mexer nas retenções antes de março”, projeta.
Isso ocorre na Argentina em um contexto de preços baixos por boa oferta, em que os Estados Unidos caminham para uma excelente safra de milho, estimada em 425 milhões de toneladas, e 117 milhões de toneladas de soja. “A safra de milho dos EUA equivale a nove safras argentinas”, afirma Eugenio Irazuegui, acrescentando que o Brasil, líder mundial em produção de soja, “acumula 20 safras consecutivas de aumento na produção da oleaginosa e este ano terá novo recorde, estimado em 169 milhões de toneladas”.
Nesse cenário, há um dado que está mexendo com os ânimos no Mercado de Chicago, referência mundial em preços e comercialização de grãos. A China, maior importador de soja do mundo, que normalmente absorve mais de 56% das exportações dos EUA, prestes a iniciar a colheita nesse país, ainda não comprou “nenhuma tonelada de soja” americana. O gigante asiático está fechando contratos basicamente com exportadores do Brasil e da Argentina, e em menor escala do Uruguai e do Paraguai.
Esse é um dado central no meio da declarada guerra comercial entre EUA e China e um indicador acompanhado diariamente por analistas do mercado diante da sobreoferta de soja americana que buscará novos destinos.