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Rioja É Muito Mais Que Tempranillo e os Produtores de Vinho Querem Que Você Saiba Disso

Como três territórios na Espanha moldaram estilos, uvas e decisões que explicam a força atual desta região do norte do país

9 min

Para grande parte do mundo moderno do vinho, Rioja se tornou sinônimo de uma única uva. A Tempranillo construiu a reputação da região e abasteceu adegas com tintos de longa guarda, funcionando como referência confiável para consumidores que buscavam algo clássico e reconfortante.

Rioja fica no norte da Espanha, ao longo do vale do rio Ebro, e é uma das áreas vinícolas mais tradicionais do país que se espalha por três comunidades autônomas: La Rioja, que concentra a maior parte da área produtiva e dá nome à região; o País Basco, onde se localiza a sub-região Rioja Alavesa; e Navarra, que participa com uma parcela menor de vinhedos.

Mas Rioja nunca foi uma região de uma única uva, mesmo que muitas vezes tenha sido apresentada dessa forma. À sombra da Tempranillo estão Garnacha, Graciano e Mazuelo, variedades que fazem parte da região há gerações e que agora passam por um novo momento de atenção.

O ressurgimento dessas outras castas não está ligado à busca por tendências nem ao abandono da tradição. Trata-se de reconhecer o que sempre esteve ali e permitir que essas uvas tenham mais espaço para se expressar.

Redescobrindo o que nunca se perdeu

Na Bodegas Manzanos, o CEO e proprietário Víctor Manzanos descreve essa mudança como uma evolução natural, e não como uma ruptura.

“A Tempranillo tem sido a espinha dorsal de Rioja por gerações e continuará sendo. Ela nos entrega vinhos elegantes, equilibrados e com extraordinário potencial de envelhecimento em carvalho. Ao mesmo tempo, Rioja possui um patrimônio notável de uvas autóctones que adicionam camadas de complexidade e diversidade à região.”

Essa diversidade, explica Manzanos, foi cultivada de forma intencional ao longo do tempo. A Garnacha, em particular, sempre foi um foco de longo prazo, e não uma redescoberta recente.

GettyimagesUva Tempranillo, cultivada na Espanha

“Na Manzanos, começamos a revisitar e valorizar a Garnacha há mais de dez anos. Hoje, por exemplo, nosso 1890 Manzanos Single Vineyard Garnacha, avaliado com 96 pontos pela Decanter, mostra o potencial dessa uva quando tratada com seriedade.”

Em outras palavras, a Garnacha responde bem quando deixa de ser coadjuvante. Com atenção no vinhedo e na adega, entrega generosidade, fruta e calor, atributos cada vez mais relevantes em um cenário no qual a facilidade de beber tem peso semelhante à estrutura.

A retomada da Graciano

A Graciano, historicamente vista como difícil e obstinada, também ocupa papel central na vinícola. Segundo Manzanos, o compromisso com a variedade vai além do usual.

“No caso da Graciano, somos uma das vinícolas com a maior área plantada dessa uva e temos, com orgulho, o vinhedo de Graciano mais antigo de Rioja e do mundo.” Esse vinhedo sustenta alguns dos rótulos mais relevantes da casa.

“A partir dele, produzimos vinhos como o Voché Graciano e o Manzanos Aniversario, avaliado com 97 pontos pela Decanter, nos quais a Graciano entrega intensidade, profundidade e longevidade.”

A Mazuelo, embora menos visível como engarrafamento varietal, mantém papel importante nos cortes.

“A Mazuelo é uma uva que atualmente não vinificamos isoladamente, mas acreditamos que todas essas castas enriquecem a identidade de Rioja. Elas trazem novas personalidades e paladares para a região, permitindo que Rioja ofereça muito mais do que Tempranillo, sem precisar recorrer a variedades externas.”

Presença histórica na Campo Viejo

Essa valorização da diversidade interna também está presente na Campo Viejo, onde o enólogo-chefe Ignacio López entende o interesse atual como continuidade de uma prática antiga, e não como um projeto de recuperação.

“Embora a Tempranillo seja hoje a uva tinta mais plantada da região, Garnacha, Graciano e Mazuelo são cultivadas em Rioja desde antes da criação da Denominação de Origem e fazem parte dos vinhos da Campo Viejo desde o início da vinícola.”

Essas castas sempre integraram a identidade da marca, tanto em cortes quanto isoladamente. “Produzimos vinhos com essas variedades, como varietais e como parte de blends. A história da Campo Viejo sempre esteve ligada a elas.”

A fórmula clássica de Rioja permanece, mas com mais nuances do que muitos consumidores percebem. “O corte clássico de Rioja inclui essas uvas, e nossos vinhos não são exceção. Um exemplo é o Campo Viejo Reserva, elaborado majoritariamente com Tempranillo, mas também com Graciano e Mazuelo.”As versões varietais, no entanto, conquistaram espaço estável no portfólio. “Também lançamos edições especiais de Graciano e Mazuelo varietais. A Campo Viejo Garnacha, disponível nos Estados Unidos, ocupa uma posição sólida e consolidada em nossa linha.” A vinícola também ampliou o uso de outras castas locais.

O que cada uva entrega no copo

“Além disso, utilizamos outras uvas tintas típicas de Rioja, como a Maturana Tinta, como componente de corte em alguns vinhos.”

Do ponto de vista estrutural e aromático, cada variedade oferece características próprias. López ressalta que a diversidade de terroirs de Rioja impede generalizações absolutas.

Para responder a essa pergunta, precisamos falar de forma geral, já que a expressão dessas variedades pode mudar bastante quando plantadas em diferentes terroirs de Rioja. Isso faz parte da diversidade da região.”

De forma ampla, a Garnacha tende mais à elegância do que à potência. “A Garnacha apresenta intensidade de cor média a baixa, taninos médios a baixos, ótima expressão frutada e floral e textura delicada e fluida. Em cortes, contribui com elegância.”

A Mazuelo acrescenta estrutura e tensão. “A Mazuelo tem cor profunda e boa concentração de taninos. Aromaticamente, apresenta perfil herbal e, nos cortes, contribui com frescor e estrutura.”

Já a Graciano se destaca pela resistência ao tempo. “A Graciano possui cor muito viva e intensa e taninos plenos. Seu perfil aromático é balsâmico e especiado. Em blends, contribui para a estrutura, a acidez e maior potencial de envelhecimento.”

Mudanças climáticas e novas expressões

As mudanças climáticas também alteraram o comportamento dessas uvas, embora nem sempre da forma esperada. Na Manzanos, a infraestrutura ajudou a mitigar os impactos.

“No nosso caso, as mudanças climáticas tiveram menor impacto porque contamos com irrigação automática em todos os vinhedos. Isso nos permite gerenciar o estresse hídrico, controlar a curva de maturação e alcançar qualidade elevada de forma consistente, ano após ano.”

Em alguns casos, o aumento das temperaturas favoreceu determinadas variedades.

“A tolerância da Garnacha ao calor e a maturação tardia da Graciano são vantagens em safras mais quentes. Nosso manejo permite manter precisão e confiabilidade independentemente das variações climáticas.”

López vê as mudanças climáticas menos como ameaça e mais como fator de novas expressões.

“Basicamente, as mudanças climáticas levaram a novas expressões dessas variedades e à possibilidade de cultivá-las em áreas onde antes não alcançavam maturação completa.”

A adaptação é contínua. “Com essas variedades, assim como com todas as outras, estamos sempre evoluindo e aprendendo. As mudanças não se limitam ao clima, mas também incluem preferências dos consumidores e tendências de mercado.”

Cortes, varietais e a realidade do mercado

Do ponto de vista de mercado, o interesse por vinhos varietais é real e crescente. Manzanos acompanha essa evolução de forma consistente.

“Há, sem dúvida, um interesse global crescente, especialmente por Garnacha e Graciano varietais, e observamos essa tendência claramente ao longo dos últimos 15 anos.”

Ainda assim, ele aponta que os melhores resultados surgem quando essas uvas trabalham em conjunto com a Tempranillo.

“O maior sucesso ocorre quando essas castas complementam a Tempranillo. Juntas, permitem que Rioja concorra com outras regiões ao mostrar diversidade, inovação e capacidade de produzir estilos variados, sempre dentro da identidade de Rioja.”

López concorda e enfatiza a importância da autenticidade. “Felizmente, há consumidores que procuram tanto vinhos varietais quanto cortes.”

Para a Campo Viejo, o princípio central permanece o mesmo. “O mais importante para nós é que nossos vinhos sejam fiéis a Rioja, à sua região de origem. Trabalhamos para que expressem o terroir de onde vêm. Se isso ocorre por meio de varietais ou de cortes, ambos nos atendem.”

Tecnologia, paciência e o fim das uvas consideradas difíceis

Avanços na viticultura e na vinificação também tornaram mais manejáveis uvas antes consideradas problemáticas. Manzanos destaca a importância da precisão e da escolha do local.

“É verdade que Graciano e Mazuelo exigem mais atenção e sempre foram vistas como desafiadoras. Mas a viticultura moderna mudou esse cenário.”

As condições de Rioja Oriental se mostraram especialmente favoráveis. “Essas variedades se comportam muito bem em Rioja Oriental, onde há mais insolação e temperaturas mais altas. Com irrigação automática, conseguimos guiar a maturação com precisão.”

A tecnologia tornou a consistência um objetivo viável. “Melhorias no manejo dos vinhedos, na condução da copa e nas tecnologias de monitoramento tornaram possível alcançar alta qualidade de forma consistente.”

Como resultado, a percepção sobre essas uvas mudou. “Graças a esses avanços, castas antes consideradas difíceis hoje originam alguns dos vinhos mais interessantes de Rioja.”

López vê esse avanço como resultado de aprendizado acumulado safra após safra. “Cada colheita, cada safra, cada ciclo de envelhecimento, seja em tanques, barricas ou garrafas, é uma experiência de aprendizado. As variedades estão ali, fazem parte de Rioja, e todas podem originar grandes vinhos.”

As ferramentas modernas aceleraram esse processo. “Hoje temos tecnologias que anos atrás seriam impensáveis e contamos com recursos para uma viticultura e vinificação de precisão.”

No fim, a persistência se impõe. “Nenhuma dificuldade supera facilmente o acúmulo de conhecimento. Por isso seguimos aprendendo, estudando, degustando e elaborando a cada ano, a cada colheita.”

Rioja não está se afastando da Tempranillo. Está apenas permitindo que seu elenco histórico de uvas ganhe espaço. O resultado é uma região mais ampla, flexível e segura de sua identidade, ao mostrar que sempre foi mais do que uma única variedade.

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