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O Mercado de Máquinas Agrícolas Vai em Busca de Seus Bilhões

Crescimento projetado de 3,4% consolida retomada após 2025 e dois anos de retração desde 2023

6 min

“Nós preferimos olhar o filme e não apenas a foto do momento”, diz o engenheiro agrônomo Rodrigo Junqueira, vice-presidente da Massey Ferguson para a América Latina, uma das grandes fabricantes de máquinas agrícolas e que faz parte do grupo americano AGCO. A companhia faturou globalmente US$ 10,1 bilhões no ano passado (R$ 52,9 bilhões na cotação atual).

A frase de Junqueira sintetiza o espírito que dominou os corredores do Show Rural Coopavel, realizado em Cascavel (PR), e que certamente será o espírito das próximas feiras agropecuárias deste ano no país, como a Agrishow, a maior de todas, que será realizada no final de abril e início de maio em Ribeirão Preto (SP).

Depois de dois anos de retração acumulada nas vendas de máquinas agrícolas, em 2023 e 2024, o setor voltou a crescer em 2025 e deve repetir um incremento de vendas neste ano, ainda que moderado e distante do ápice de vendas em 2022.

A estimativa de alta para 2026 é de 3,4% apresentada pela Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), com base nos números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Em 2022, o setor comercializou 70.262 unidades. Em 2023, houve retração de 13,19%. Em 2024, nova queda de 19,80%, levando o mercado a 48.916 máquinas vendidas. Apenas em 2025 veio a reação, com alta de 13,05% e 55.298 unidades vendidas.

O faturamento do setor em 2025 foi de R$ 66,7 bilhões, 7,4% a mais sobre 2024, segundo dados da Abimaq.

“Eu tenho 33 anos de setor e já vi esses ciclos de alta e baixa várias vezes. O que muda agora são os fatores: o produtor está mais alavancado, mas também está mais profissional”, afirmou Junqueira.

A leitura consolidada da feira é de que o pior momento do ajuste ficou para trás, mas não há euforia, segundo Junqueira. O crescimento projetado de 3,4% para 2026 não representa um novo boom, mas consolida a retomada iniciada em 2025.

Depois de uma retração acumulada superior a 21% desde 2022, o setor de máquinas agrícolas entra em um ciclo de reconstrução: crédito mais estruturado, maior racionalidade de investimento e foco absoluto em tecnologia e eficiência.

Tratores reagem, colheitadeiras ainda pressionadas

Horacio Meza, diretor de Vendas da John Deere no Brasil
Divulgação/John DeereHoracio Meza, diretor de Vendas da John Deere no Brasil

A recuperação de 2025 foi puxada principalmente pelos tratores de rodas, que avançaram 13,71% após dois anos de retração. O segmento confirma maior resiliência, especialmente nas faixas de menor potência.

“Vemos tendências positivas no segmento de tratores pequenos, impulsionadas por setores como café e laranja, que buscam tecnologia para reduzir custos”, afirmou Horacio Meza, diretor de Vendas da John Deere no Brasil.

A fabricante de máquinas agrícolas faz parte do grupo americano Deere & Company que faturou US$ 45,7 bilhões (R$ 239,48 bilhões) em 2025.

Já as colheitadeiras seguem como o ponto de maior cautela. Após queda de 54,12% em 2024, o segmento registrou leve alta de 3,91% em 2025, mas permanece em patamar inferior à metade do volume de 2022.

Investimento pesado e aposta estrutural

Se o mercado ainda opera abaixo do auge, o movimento industrial mostra confiança no longo prazo, segundo Meza.

A John Deere acelerou investimentos no Brasil nos últimos anos. Foram R$ 3 bilhões investidos em fábricas brasileiras nos últimos cinco anos, além de R$ 180 milhões destinados ao Centro de Desenvolvimento e Pesquisa.

Globalmente, a companhia investe cerca de US$ 2,3 bilhões (R$ 12 bilhões) por ano em Pesquisa e Desenvolvimento, parte dos quais impactam diretamente soluções desenvolvidas ou adaptadas para o mercado brasileiro.

A presença na feira simbolizou essa estratégia. “No ano passado, tivemos a maior sequência de lançamentos da nossa história no país e, em 2026, vamos repetir a dose”, afirmou Meza.

Aposta em produção industrial

Divulgação/StaraÁtila Stapelbroek Trennepohl, diretor-presidente da Stara

O ritmo de investimentos também é estratégico para fabricantes nacionais como a Stara, especialista na fabricação de máquinas de pulverização de fertilizantes e defensivos agrícolas, com sede no município de Não-Me-Toque (RS).

“Para 2026, não enxergamos necessariamente um mercado melhor, mas enxergamos a empresa melhor”, afirmou Átila Stapelbroek Trennepohl, diretor-presidente da Stara.

A companhia investiu R$ 310 milhões no ano passado, metade em adequação industrial e metade em Pesquisa e Desenvolvimento. A capacidade produtiva já está preparada para saltar de 6 mil para 8,5 mil máquinas por ano entre 2027 e 2028.

Crédito seletivo e engenharia financeira

Apesar do sentimento de crescimento do mercado, o crédito continua sendo o divisor de águas na decisão de compra.

“Existe uma certa restrição e dificuldades relacionadas ao financiamento e à disponibilidade de recursos. No entanto, a condição da safra, que está melhor do que a de 2025, acaba compensando esse cenário de crédito mais apertado”, avaliou gerente comercial da Case IH para a região Sul.

A Case IH pertence ao grupo CNH, que faturou globalmente US$ 18,1 bilhões (R$ 94,9 bilhões) em 2025.

Nesse ambiente, cresce o uso de linhas de financiamento com travas em moeda estrangeira, como o dólar e o euro. “Para o grande produtor que exporta e recebe em dólar, essa linha elimina o risco cambial e torna o fluxo de caixa perfeito”, disse Kellen Bormann, da Massey Ferguson.

Tecnologia como vetor de eficiência

O novo ciclo do mercado de máquinas não é movido apenas por volume, mas por sofisticação tecnológica, o que justifica os investimentos de fabricantes e a busca por crédito dos produtores rurais, para a aquisição dos equipamentos.

“Mais do que apenas vender máquinas, nosso foco é garantir que a tecnologia seja efetivamente utilizada”, afirmou Meza. Hoje, 100% da rede de concessionários da John Deere possui Centro de Soluções Conectadas, capaz de resolver cerca de 80% das demandas de forma remota.

A digitalização passa a ser ferramenta de ganho operacional concreto. Promessas de até 20% de aumento de produtividade e redução de consumo de combustível via automação e conectividade reforçam a mudança de perfil do investimento.

A demanda também migra para o retrofit tecnológico. “Se o cliente não quer trocar a máquina agora, mas quer a tecnologia, nossa rede está preparada para instalar esses sistemas e aumentar a produtividade da máquina atual dele”, explicou Lucas Zanetti, da Massey Ferguson.

A lógica é manter a tecnologia cada vez mais acessível, mesmo em tempos de margens pressionadas. O produtor investe para reduzir custo por hectare, economizar combustível, melhorar plantio e logística. A tecnologia passa a ser instrumento de eficiência, não apenas vitrine.

Mesmo em um mercado que ainda se recompõe, quem investe em engenharia e capacidade quer capturar participação. E o filme do mercado de máquinas brasileiro segue rodando. As cenas, agora, começam a melhorar.

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