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Paulistana com Negócio de R$ 1,2 Milhão Quer Criar a 1ª Escola Canábica do País

Entenda como a empresária Paula Cardoso Zomignani quer profissionalizar cultivo e extração diante de possível regulamentação do mercado brasileiro de cannabis

7 min

“A cannabis me transformou de empreendedora em ativista. Hoje não defendo só um produto, defendo o direito do paciente de plantar sem medo”, afirma a paulistana Paula Cardoso Zomignani, 43 anos, presidente da Associação de Apoio e Pesquisa Cannabis Cura (Accura).

Em uma conversa exclusiva com a Forbes Agro, Paula diz que seu projeto é criar a primeira escola canábica no País. A Accura nasceu há oito anos na zona oeste de São Paulo, com o objetivo de cultivar Cannabis sativa medicinal. O negócio que nasceu de uma necessidade familiar, hoje movimenta cerca de R$ 1,2 milhão por ano.

“Vamos ter o reconhecimento do Ministério da Educação (MEC), no futuro próximo, com um curso de especialização sobre cannabis”, diz Paula, que é administradora formada pela PUC-SP.

De olho nesse novo ciclo, ela e os demais sócios, Ian Guedes, esposo de Paula e coordenador Geral da Accura, e Felipe de Castro, que está à frente da área de pesquisa e desenvolvimento da associação, preparam para o primeiro semestre de 2026 o lançamento de uma série de cursos de formação técnica em cannabis. O projeto terá cinco frentes: formação de pacientes, associativismo, cultivo, extração e mercado.

Foi a experiência do grupo que levou ao desenvolvimento de metodologias próprias e à publicação, em 2023, do livro Método Accura de Extração de Cannabis Medicinal.

“A publicação elevou nosso status, nos posicionando efetivamente como educadores no setor”, diz Paula. “Somos uma associação pequena, não pretendemos ser gigantes. A gente vê muito mais importância em desenvolver educação neste cenário do que ser uma grande associação”, explicou Paula.

“Essa indústria vai precisar de gente que entenda da planta, da história e da responsabilidade que envolve produzir medicamento”, afirma Paula. “Se o mercado vai crescer, alguém precisa formar essas pessoas. E nós já estamos fazendo isso há oito anos.”

Mergulho no universo canábico

Divulgação/AccuraOs sócios Ian, Paula e Felipe, da Accura

Paula construiu sua carreira na área financeira e de marketing, antes de mergulhar no universo da cannabis medicinal. Ela empreendeu em negócios de sustentabilidade, restaurante e espaço de saúde em sua própria residência. Foi ali, dentro de casa, que a pauta da cannabis deixou de ser teoria.

A atividade passou a fazer parte do radar quando seu sogro sofreu um acidente grave e enfrentou complicações associadas a uma hepatite C tardia. Diante de um tratamento agressivo e dos altos custos de produtos importados, que à época chegavam a valores proibitivos para a maioria das famílias, a solução foi produzir o próprio óleo de canabidiol, para alívio da dor.

“A gente percebeu que ou aprendia a fazer com qualidade ou ficava refém de um mercado inacessível”, relembra.

O que começou como produção artesanal ganhou estrutura jurídica em 2018, com a formalização da Accura. Durante dois anos, a entidade atuou basicamente como fonte de informação. A virada ocorreu na pandemia, quando os outros negócios da família foram encerrados e Paula passou a se dedicar integralmente à associação.

Atualmente, a Accura acolhe cerca de 700 famílias e fornece óleo a 200 pacientes por mês. O modelo é associativo, sustentado por doações, vendas de medicamentos com valores de variam de R$ 295 a R$ 610, além de participaçõespublicitárias.

A entidade também mantém a distribuição de medicamentos para pacientes de baixa renda. Cerca de 20% dos atendimentos são sociais (gratuitos) ou parcialmente sociais (com desconto).

“Nós não somos vendedores de óleo. Somos uma rede de acolhimento, de orientação e de formação”, afirma Paula.

Da Vila Madalena ao sítio: estrutura produtiva própria

A associação mantém duas salas de cultivo indoor e uma estufa protegida, com cerca de 100 plantas em diferentes estágios.

Trabalha com 20 a 30 genéticas, majoritariamente importadas de bancos da Europa e dos Estados Unidos, selecionadas conforme a demanda clínica, principalmente dor crônica, que é hoje a maior procura entre os pacientes.

A extração resulta em uma resina concentrada, com cerca de 70% de canabidiol (CBD) ou tetrahidrocanabinol (THC), que depois é diluída numa base de óleo como azeite de oliva ou óleo de côco, por exemplo.

Hoje toda a operação de cultivo segue no bairro da Vila Madalena, mas futuramente pode migrar para um sítio a cerca de meia hora de São Luís do Paraitinga (SP), movimento que ainda exige adaptações jurídicas, como um Habeas Corpus preventivo para cultivo, específico para essa nova área.

“O Habeas Corpus ainda é o que dá segurança real. Sem isso, o paciente continua vulnerável”, diz.

A Cannabis medicinal no Brasil

O fato é que o negócio do trio por trás da Accura tem pela frente um mercado que pode ter um potencial bem próspero. Segundo a consultoria Kaya Mind, o mercado de cannabis medicinal chegou a R$ 971 milhões em 2025, no entanto tem potencial em chegar a R$ 9,5 bilhões.

Isso porque o total de pacientes, que em 2025 foi de 873,1 mil, mas tem potencial de chegar a 6,9 milhões de pacientes, segundo estudos da Kaya, que é especialista na análise do mercado canábico brasileiro.

A Accura está num rol de 315 entidades com CNPJs ativos de associações que atuam em torno do tema da cannabis medicinal, no Brasil, segundo levantamento da Kaya.

Entre elas, a consultoria identificou que efetivamente 38 delas realizam o cultivo de Cannabis sativa no Brasil, em uma área de cerca de 27 hectares para a produção de produtos terapêuticos e que pode ultrapassar 15 mil hectares, com o avanço da regulamentação do cultivo da planta no país.

Bandeira do autocultivo e atuação regulatória

Apesar deste mercado estar fortemente estabelecido nas figuras das associações, a presidente da Accura defende que os pacientes tenham direito ao autocultivo, sem risco de criminalização.

Embora o Supremo Tribunal Federal tenha descriminalizado o porte de até 40 gramas ou o cultivo de até seis plantas fêmeas, a prática ainda pode gerar sanções administrativas.

“Enquanto o paciente depender exclusivamente de associações ou de produtos importados, o acesso continuará restrito. Democratizar é permitir que ele plante no próprio quintal”, sustenta.

É neste sentido que Paula transformou sua experiência pessoal em atuação política. Ela, que também é coordenadora científica da Federação das Associações de Cannabis Terapêutica (FACT), participa ativamente das discussões com a Anvisa sobre um ambiente experimental que deve testar modelos produtivos sob supervisão da agência por cerca de cinco anos, o Sandbox regulatório para a planta.

“O Brasil sempre regulou pelo medo. O Sandbox é a chance de criar parâmetros técnicos de verdade, com quem já faz isso na prática”, afirma Paula. “O novo diretor da agência, Thiago Campos, tem tido um comportamento de reconhecimento do nosso trabalho, o que é um marco histórico”.

Entre a militância, a gestão e a técnica, Paula construiu um negócio que combina ativismo e estrutura econômica. Em um setor que ainda opera sob decisões judiciais e normas em construção, ela se tornou uma das vozes mais ativas na interlocução com o poder público.

“A gente saiu da cozinha de casa para a mesa de negociação com a Anvisa. E não vamos sair até que o paciente tenha segurança jurídica para plantar e se tratar com dignidade”, diz Paula.

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