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Com Quase US$ 6 Bilhões, Fundos Colocam O Brasil No Centro Do Agro Sustentável

A especialista em finanças sustentáveis Daniela Mariuzzo explica como o País se torna um dos principais destinos de investimentos verdes

7 min

“O Brasil atrai recursos internacionais porque, por mais que pareça o contrário, nossa legislação e estrutura ambiental são extremamente evoluídas.”

A afirmação da engenheira de alimentos e especialista em finanças sustentáveis Daniela Mariuzzo soa quase como uma provocação diante da narrativa que, há anos, domina parte do debate internacional sobre a agropecuária brasileira.

Enquanto o País frequentemente aparece associado a discussões sobre desmatamento e mudanças climáticas, investidores especializados em sustentabilidade observam um cenário bastante diferente. Para eles, poucos mercados combinam, ao mesmo tempo, escala agrícola, legislação ambiental robusta, capacidade tecnológica e potencial para desenvolver projetos capazes de gerar retorno financeiro e impacto climático.

Daniela fala com muita propriedade sobre isso, porque há quase duas décadas, atua na articulação entre organismos multilaterais, investidores internacionais, fundos de impacto e projetos ligados ao agronegócio brasileiro.

“Atualmente, existem hoje veículos internacionais bastante relevantes olhando para o Brasil”, diz a consultora, com passagens em instituições holandesas como a fundação global de comércio sustentável IDH, e Rabobank, além do International Finance Corporation (IFC), o braço do Grupo Banco Mundial voltado para o setor privado.

A especialista apresentou essa perspectiva recentemente durante o evento da Produzindo Certo na capital paulista, na qual a agtech anunciou uma intenção de aporte do fundo do governo britânico em de até 600 mil libras (R$ 4,1 milhões, na cotação atual) para ampliar o Reg.IA, primeiro consórcio de agricultura regenerativa da América Latina.

“O mundo percebeu que preservar e produzir deixaram de ser objetivos conflitantes. A agricultura passou a ser parte da solução climática”, resume.

A percepção de Daniela ganha ainda mais relevância depois que o Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês) anunciou, também neste mês de julho, a ampliação de US$ 4 bilhões (R$ 20,4 bilhões) em sua capacidade global de financiamento.

Paralelamente, diferentes fundos privados voltados à agricultura regenerativa, restauração de áreas degradadas e produção sustentável somam aproximadamente US$ 2 bilhões (R$ 10,2 bilhões) disponíveis para novos investimentos.

Entre eles está o holandês &Green Fund, que administra aproximadamente US$ 400 milhões (R$ 2,0 bilhões) para financiar cadeias produtivas livres de desmatamento. Outro exemplo é o holandês AGRI3 Fund, cuja meta é mobilizar US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) para projetos voltados à produção agrícola sustentável. Também integram esse movimento o francês Mirova Sustainable Land Fund, com cerca de US$ 399 milhões (R$ 2,0 bilhões) disponíveis para investimentos; o brasileiro Growth Next-Generation Agriculture, estimado em US$ 50 milhões (R$ 254,5 milhões); e a estratégia latino-americana da responsAbility, que já supera US$ 110 milhões (R$ 559,9 milhões).

“De 2006 a 2016, vivemos um cenário de abundância de recursos do hemisfério Norte para o hemisfério Sul, impulsionado por family offices e instituições de governos em áreas de floresta tropical.”

Embora esses recursos não sejam exclusivos do Brasil, o País aparece entre os mercados mais bem posicionados para disputar parte significativa desse capital.

Olhar para o agro sustentável brasileiro

Narvikk/Getty ImagesTrator agrícola em operação em lavoura de milho

Essa mudança de percepção ajuda a explicar por que o Brasil voltou ao radar de grandes gestores de recursos dedicados à agenda ambiental. Nos últimos anos, diferentes veículos internacionais passaram a estruturar operações direcionadas ao setor agropecuário, mirando especialmente iniciativas ligadas à agropecuária regenerativa, recuperação de pastagens, sistemas integrados de produção, bioeconomia e restauração florestal.

Os números chamam atenção, mas Daniela faz questão de relativizá-los. Segundo ela, a disponibilidade de recursos representa apenas uma parte da equação. O fator decisivo é a capacidade de cada país apresentar projetos tecnicamente consistentes, com indicadores confiáveis, governança estruturada e segurança jurídica suficiente para reduzir o risco percebido pelos investidores.

É justamente nesse ponto que, na avaliação da especialista, o Brasil reúne vantagens competitivas pouco conhecidas fora do setor.

“Hoje somos o único país do mundo com o Cadastro Ambiental Rural, que permite mapear, praticamente em tempo real, a situação ambiental das propriedades. Isso oferece um nível de transparência raro quando comparado a outros grandes produtores agrícolas”, afirma.

Ela lembra que o Código Florestal brasileiro também criou um modelo singular de conservação ambiental. Ao contrário do que ocorre em boa parte do mundo, parcela significativa da vegetação nativa permanece preservada dentro das propriedades rurais privadas.

“Nenhum outro país no mundo possui uma legislação tão rigorosa quanto a do Brasil. É isso que nos coloca no topo”, destaca.

Do plano para a prática sustentável no campo

Igor Alecsander/Getty ImagesFazendeira em lavoura de soja

Na prática, explica Daniela, isso significa que boa parte dos ativos ambientais que despertam interesse dos financiadores internacionais já existe. O desafio passa a ser transformar esses ativos em projetos estruturados, capazes de atender às exigências cada vez mais rigorosas do mercado financeiro global.

Essa transformação coincide com uma mudança importante na lógica do financiamento climático. Durante muitos anos, a agenda ambiental esteve fortemente apoiada em recursos públicos e doações internacionais. Agora, investidores privados passaram a enxergar oportunidades econômicas na transição para uma agricultura de baixo carbono, ampliando significativamente o volume de capital disponível.

É justamente essa mudança que explica o fortalecimento de instrumentos como o capital catalítico e o blended finance, mecanismos desenhados para reduzir riscos, atrair investidores privados e ampliar o alcance dos recursos públicos.

“Esses recursos catalíticos internacionais vêm com financiamento público de impostos estrangeiros; há um benefício local, mas também uma busca por capacidade de influência na consolidação das agendas globais.”

Em vez de substituir o mercado, esses instrumentos funcionam como alavancas para acelerar investimentos em projetos que ainda enfrentam dificuldades para acessar crédito convencional.

O desafio das métricas e indicadores

Na avaliação de Daniela Mariuzzo, esse talvez seja o ponto mais importante da discussão sobre o futuro do agro sustentável brasileiro. Se há alguns anos o principal obstáculo era encontrar recursos para financiar iniciativas ambientais, hoje a realidade é diferente.

O capital existe, os investidores demonstram interesse e o Brasil reúne ativos capazes de despertar atenção no mercado internacional. O que ainda limita a chegada desses recursos é a escassez de projetos preparados para atender às exigências dos financiadores, com dados e indicadores padronizados capazes de dialogar com fundos internacionais.

Segundo Daniela, investidores não procuram apenas boas práticas ambientais. Eles precisam medir resultados, avaliar riscos e demonstrar aos seus cotistas que os recursos aplicados produzem impactos concretos.

Por isso, conceitos como governança, métricas, monitoramento e transparência deixaram de ser temas restritos ao mercado financeiro para ocupar espaço cada vez maior dentro da própria atividade agropecuária.

“Não basta dizer que o projeto é sustentável. É preciso comprovar isso com dados consistentes.”

Iniciativas como a Produzindo Certo estão seguindo por este caminho, no caso da agropecuária regenerativa. Mas é preciso que isso se fortaleça mais daqui para frente.

“Nosso trabalho é demonstrar quanto vale o solo conservado e quanto o setor financeiro e o mercado de commodities estão deixando de ganhar por não utilizarem essas métricas monetizadas.”

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